Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS 

O amor é a energia cósmica mais atuante na vida do ser humano. Os grandes feitos heróicos decantados pela história são sempre casos de amor, seja à pátria, à esposa, ao filho em perigo, a idéias, ideologias ou causas. Existem, também, muitos casos de heroísmo anônimo, como por exemplo, de mães e pais que se sacrificam por seus filhos ao longo de meses ou anos de dedicação e sofrimento. É sabido que muitas pessoas mudam inteiramente sua vida devido a uma paixão que tudo consome. 

É essa força do amor (que também se manifesta como eros, ou atração, como dizia Freud) que transforma radicalmente a vida dos místicos. Os místicos, tendo renunciado ao mundo e voltado de forma unidirecionada toda a força de seu ser para o alto, consomem nas chamas do amor todas as barreiras e impedimentos para a união com o Bem-Amado. Suas vidas exemplares comprovam que o amor a Deus é um dos instrumentos mais cruciais no Caminho da Perfeição. 

Ainda que no cristianismo e em outras tradições religiosas e místicas o amor seja apontado como a maior virtude divina, nem sempre nos damos conta de que é também a lei fundamental do universo e do ser. O amor é a energia que garante o sucesso da manifestação em seu curso de retorno da diversidade para a unidade. Apesar da inércia da matéria, dos pares de opostos e dos diferentes níveis da manifestação parecerem conspirar a favor da manutenção da separatividade, o amor supera todas as barreiras e trabalha inexoravelmente para a união da essência por trás de todas as formas e em todos os níveis. O amor é, então, a força que promove a atração de todas as partes que se encontram aparentemente separadas.[1]  

Num sentido mais abstrato e abrangente, a lei do amor poderia ser vista como a lei universal da atração.[2] Essa lei se manifesta em diferentes níveis e contextos abrangendo até mesmo a coesão atômica, a afinidade química, o magnetismo, o sexo, a radiação, a gravidade e a gravitação cósmica. Vários desses aspectos de atração atuam nos seres humanos. Por exemplo, o fototropismo típico das plantas ocorre também com os homens, numa volta mais alta da espiral evolutiva, no sentido da orientação do homem em direção à luz espiritual. 

Todo ser humano que passa por uma experiência mística, por um profundo samadhi[3] meditativo ou por uma experiência próxima à morte (EPM) sabe, por sua própria vivência, que o amor de Deus pelos homens é incondicional e total, e que todos aqueles que o experimentam, ao sentirem-se unos com o Todo, passam a expressar em suas vidas esse profundo sentimento. Nas palavras de uma pessoa que passou por uma EPM: 

“Enquanto eu estava lá em cima era como se eu estivesse num mundo dourado, num incrível mundo dourado, pleno da luz de Cristo. Senti que eu fazia parte daquilo tudo, que era uma parte do todo, que aquele era o meu lugar, que aquilo era a verdade. E havia todos esses seres, anjos, seres angélicos, luminosos, e esse sentimento de amor total.”[4] 

 Não é de se estranhar que, ao ser perguntado qual era o maior mandamento, Jesus tenha respondido: 

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas” (Mt 22:37-40). 

O amor é o mais abrangente de todos os mandamentos, pois, como Deus é o Todo, devemos amar todas as coisas visíveis e invisíveis, já que tudo o que existe é uma expressão de Deus. A menção de um segundo mandamento, o de amar ao próximo, é, de certa forma, redundante, pois Deus se manifesta também em cada ser humano, estando essa recomendação implícita no primeiro mandamento e vice-versa. Como esse mandamento nem sempre é devidamente compreendido, acaba tendo pouco impacto na vida do cristão comum.  

Amar o próximo não significa necessariamente gostar dele. A expressão sentimental do amor tende a obscurecer o verdadeiro amor, porque o que gostamos hoje podemos odiar amanhã. O amor ao próximo é o eixo central de toda a ética espiritual, pois significa a identificação com o outro, significa a compaixão pela dor do próximo que nos leva a uma atitude de boa vontade e cooperação, mesmo para com aqueles que não gostamos. Lembramos, nesse sentido, as palavras de Leonardo Boff: “O amor incondicional possui características maternas, tem compaixão por quem fracassou. Recolhe o que se perdeu. E tem misericórdia por quem pecou. Nem o inimigo é deixado de fora. Tudo é inserido, abraçado e amado desinteressadamente.”[5] O sentimentalismo pode até ser prejudicial à compaixão, pois pode tornar nossa identificação com o sofrimento alheio intolerável e, portanto, impossível de ser transformada em ação de ajuda. O sentimentalismo advém da identificação do ego como sendo o outro. O verdadeiro amor identifica o Eu Superior como sendo o próximo. Portanto, enquanto não nos libertarmos em boa medida da prisão de nosso próprio ego, teremos dificuldade para identificar-nos com a natureza superior de nosso próximo. É por isso que Jesus acrescenta sabiamente ao final da declaração a condição de amar “como a ti mesmo.”[6] 

Podemos concluir que para desenvolver a verdadeira compaixão devemos, em primeiro lugar, aprender a nos identificar com nosso verdadeiro ser, o Eu Superior, para então identificarmo-nos com o verdadeiro ser de nosso próximo, em vez de cairmos na armadilha do sentimentalismo inoperante e muitas vezes contraproducente. É por isso que a motivação central do budismo filosófico é a grande compaixão, conhecida no jargão budista como bhodichitta, ou seja, o compromisso de buscar a iluminação o mais rapidamente possível para capacitar-nos a ajudar verdadeiramente a todos os seres. 

Em muitas outras passagens da Bíblia, somos instados a amar-nos uns aos outros (Jo 15:17), a amar-nos como Jesus nos amou (Jo 13:34 e 15:12) e, até mesmo a amarmos nossos inimigos (Mt 5:44). O amor é, assim, um dos fatores fundamentais do ensinamento de Jesus, o que era reforçado pelo exemplo do Mestre, que aparece nos relatos canônicos e apócrifos como um ser profundamente amoroso que nos convida a seguir seus passos.  

Amar realmente nossos inimigos é sem dúvida um dos mais duros testes de nosso compromisso espiritual. Essa prática é especialmente difícil porque geralmente nos volvemos para o ego de nosso desafeto e não para sua natureza divina. Para amarmos nossos inimigos devemos manter fora de nossa esfera emocional todas as negatividades da natureza inferior, como o ressentimento, a amargura, a tendência à discussão, o ciúme, o rancor e a vingança.[7] Nesse sentido, Buda ensinou: “O ódio jamais é vencido pelo ódio. O ódio só se extingue com o amor; esta é uma verdade eterna.”[8] 

Jesus nos ensina que a expressão de amor que Deus mais quer dos homens nem sempre é aquela que os homens procuram demonstrar. Por isso ele disse: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai” (Jo 14:21). Se interpretarmos a palavra “mandamentos” como “ensinamentos” teremos aqui a essência da tradição interna: seguir os ensinamentos de Jesus como a mais perfeita expressão de amor a Deus. 

No sentido mais amplo, o amor é a energia que está constantemente atuando para unir o que se apresenta aparentemente separado na manifestação. Sabemos que os pólos masculino e feminino estão sujeitos a força de eros, a força da atração entre os sexos. Mas existe uma polaridade ainda mais fundamental de atração, que antecede o aparecimento da diferença sexual no mundo, a polaridade entre Espírito e matéria.  

O amor do superior pelo inferior é o amor de Deus pelo homem e por toda a manifestação. Se por um instante sequer o amor divino fosse retirado ou suspenso, todo o universo entraria em colapso e deixaria de existir. Porém, o amor do inferior pelo superior é seguidamente suspenso ou, o que é pior, é renegado consciente ou inconscientemente. Mas nem por isso Deus deixa de amar seus filhos. Para que o ser humano possa alcançar o Reino dos Céus, que é a consciência da Unidade com o Todo e com todos, a força do amor tem que ser ativada ao máximo. Ela pode chegar a ser uma aspiração ardente a tal ponto que se torna um fator não só necessário como suficiente para se alcançar o Reino, como foi visto anteriormente. 

Para alguns temperamentos é mais fácil expressar o amor a Deus e aos outros seres. As pessoas amorosas ou devotas têm mais facilidade para crescer espiritualmente pelo amor a Deus. Esse é o elemento facilitador dos grandes místicos, os insaciáveis devotos que colocam toda sua vida à disposição do Bem-Amado. Para outros temperamentos, o amor a Deus pode ser cultivado pela busca incessante do conhecimento de Deus, através do estudo, da meditação e da lembrança de Deus. [9] Como nem todos podem sentir em seu coração o amor ao Todo, a alternativa é começar com o amor a certos aspectos desse Todo. Por exemplo, o verdadeiro amor altruísta para com os seres humanos ou mesmo para com os animais e a natureza é também um caminho seguro para expressarmos o amor a Deus. 

Outras formas de expressão de amor também oferecem caminhos válidos e seguros, como o amor ao belo, à verdade e à justiça. Assim, os artistas que se dedicam sinceramente à expressão do belo, sem outra motivação a não ser a satisfação do anseio por expressá-lo, estarão também manifestando seu amor a Deus, que é a suprema beleza e harmonia. O amor à verdade e à justiça pode ser tanto um instrumento do processo de transformação do homem como uma conseqüência da operação desse processo. Como Deus é Verdade, quem não ama a verdade não pode amar a Deus; o mesmo acontece quanto à justiça. Portanto, todo aquele que tem como meta a sua eventual união com Deus deve assumir um compromisso inabalável com a verdade e a justiça, agindo em todas as circunstâncias como arauto e defensor dessas virtudes capitais. É por isso que Jesus fustigava aqueles que adotavam posturas falsas ou mesmo dúbias, como na célebre passagem em que o Mestre deplorava a atitude de hipocrisia dos guardiões da Lei, válida em sua época como no presente: 

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque bloqueais o Reino dos Céus diante dos homens! Pois vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que querem fazê-lo!” (Mt 23:13).[10] 

O compromisso com a verdade em todas as circunstâncias seria suficiente para revolucionar a vida do homem comum tão envolvido com a mentira e a falsidade. A crença de que os fins justificam os meios, não tem lugar na verdadeira vida espiritual. Os fins só justificam os meios para as pessoas mundanas, cujo compromisso é com o sucesso nas coisas do mundo material. Na vida espiritual, pela operação inexorável da lei de causa e efeito, os meios determinam os fins. Esse truísmo foi negligenciado pela Igreja Católica ao longo de sua história, com suas campanhas de perseguição aos hereges, culminando com as atrocidades sistemáticas da inquisição, que chegava ao cúmulo de torturar e matar em nome de Deus. Assim, quem procura ser verdadeiro nas ações, palavras e pensamentos entra em sintonia com a Verdade, que é Deus. Por outro lado, quem se utiliza de meios errados jamais atingirá objetivos verdadeiros.  

Ser verdadeiro na ação significa agir sem o fingimento e a falsidade que caracterizam a vida do homem moderno, que sobrevaloriza as aparências. Ser verdadeiro significa também simplicidade e equanimidade, é dispensar o mesmo tratamento gentil e cordato a todas as pessoas, sejam importantes ou humildes. Ser verdadeiro no falar significa não mentir, mas também ser exato e não exagerar. Como não podemos estar certos da veracidade da maioria das estórias que se falam sobre as outras pessoas, é preferível não falar da vida alheia, para evitar a possibilidade de disseminarmos uma possível inverdade. Além disso, é mais compassivo não expormos as fraquezas dos outros, da mesma forma como não gostaríamos que falassem das nossas imperfeições. Na realidade, a nossa fala reflete o estado do nosso coração, como disse Jesus: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Mt 12:34).  

Ser verdadeiro no pensamento é ainda mais difícil, em virtude das correntes de pensamentos falsos e superstições que estão disseminadas na atmosfera mental. O indivíduo precisa valer-se de sua capacidade de discernimento para ser verdadeiro no pensamento, pois a diferenciação entre o falso e o verdadeiro na esfera mental é ainda mais difícil do que no plano das ações e das palavras.[11] 

Para aqueles mais avançados na Senda abre-se uma outra forma de expressão do amor que poderíamos chamar simplesmente de ‘não ferir’. É o que os vedantinos e os budistas chamam de ahimsa, ou inofensividade. Sabendo que todos os seres sensientes são expressões de Deus, aquele que ama a Deus entende que não pode provocar sofrimento a nenhuma expressão material de Deus. Portanto, todos os atos que prejudicam as outras criaturas, como matar, roubar, mentir, etc., são evitados. A prática da inofensividade é um grande passo no caminho espiritual, mormente em nossa sociedade competitiva, em que as pessoas não hesitam em prejudicar os outros para alcançar seus interesses egoístas. O buscador da verdade, movido pelo verdadeiro amor, será levado a estabelecer naturalmente seu código de ética pautado na norma de não ferir. 

O vegetarianismo ético origina-se desse preceito de não ferir. Os verdadeiros buscadores, movidos pela compaixão para com os animais, como demonstrada por alguns grandes santos, como S. Francisco de Assis, não matam animais e não comem carne para não compactuar com outros que venham a abater os nossos irmãos menores para suprir a demanda por carne. É interessante notar que o vegetarianismo já era previsto desde o princípio da criação como indicado no livro de Gênese: “Deus disse: ‘Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento’.” (Gn 1:29). 

Muitas pessoas, entre as quais me incluo, podem experimentar angústia e até desespero ao constatar que seu amor a Deus é algo formal, que existe mais da boca para fora do que no âmago de seu coração. O que podemos fazer a este respeito? Logicamente não podemos fingir, porque Deus conhece as nossas intenções, nem podemos forçar nossos sentimentos. O amor é algo que não pode ser forçado, pois é a expressão mais nobre de nossa natureza superior. As pessoas que sentem que seu amor a Deus não se conforma com a nobreza de sentimentos e a intensidade preconizada por nossa tradição cristã estão mais perto do caminho do que imaginam. Para começar, por sua honestidade interior nessa questão tão delicada estão demonstrando um considerável grau de despertar espiritual. O ponto central da questão, no entanto, é que a ilusão da separatividade distorce todas nossas percepções no mundo e nos leva, com freqüência, a imaginar Deus como fora de nós. Na verdade, Deus está no âmago de nosso ser e, portanto, toda expressão de amor que tivermos, seja por nossos pais, filhos ou esposa/o, será sempre uma expressão de amor a Deus, ainda que momentaneamente restrita a apenas algumas expressões de Deus. Com o tempo alcançaremos o amadurecimento espiritual que nos levará a perceber Deus em todas as pessoas e em todas as coisas e, assim, passaremos a expressar de forma mais consciente o amor a Deus que antes era demonstrado de forma inconsciente. 


[1] Para alguns autores o amor é a síntese de todas as virtudes: “O amor é diligente, sincero, pio, alegre e suave; é forte, sofredor, fiel, prudente, constante, varonil, sem jamais cuidar de si mesmo; pois que, desde que alguém a si mesmo se busca, cessa de amar. O amor é circunspecto, humilde e reto; não é inconstante nem leviano; não se aplica a coisas vãs; é sóbrio, casto, firme, tranqüilo e recatado em todos os sentidos.” Imitação de Cristo, op.cit., pg. 182.

[2] Vide A.A. Bailey, A Treatise on Cosmic Fire (N.Y., Lucis Publishing Co, 1962), pg. 1166-1175.

[3] Vide Glossário – Anexo 4.

[4] Dentro da Luz, op.cit., pg. 210.

[5] Leonardo Boff, A águia e a galinha (Petrópolis: Vozes, 1998), pg. 132.

[6] Vide também, Paul Brunton, Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 82-85.

[7] Para maior aprofundamento ver: Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 87-88.

[8] Dhammapada, (S.P.: Pensamento, 1993), op.cit., pg. 19.

[9] Geoffrey Hodson, O Homem e Seus Sete Temperamentos (S.P.: Pensamento).

[10] Vide também, Mt 23:15-30; 6:2,5 e 16; 7:5; 15:7; 22:18; 23:13; Mc 7:6; 12:15; Lc 12:1,56; 13:15.

[11] “Aquele que julga as coisas pelo que elas são e não segundo o dizer ou pensar alheio, é verdadeiramente sábio, instruído mais por Deus que pelos homens.” Imitação de Cristo, op.cit., pg. 101.

 

 

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