Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS

25 - PRÁTICA DAS VIRTUDES 

Caridade 

A sabedoria antiga já pregava que “Quem faz caridade ao pobre empresta a Deus” (Pr 19:17). No entanto, a caridade é muito mais do que a prática comum de doar roupas velhas e sobras de comida aos pobres. A verdadeira caridade envolve tanto o ato da doação como a intenção. A doação pode abranger vários níveis. É mais fácil, para a maior parte das pessoas, dar coisas materiais. Porém, subindo na escala de valores, algo ainda mais importante no sentido espiritual é a consideração, a atenção e a compreensão que todos os indivíduos desejam ardentemente, sejam pobres ou ricos. A caridade mais elevada, no entanto, é a doação do conhecimento espiritual, que possibilita às pessoas engajarem-se no processo de salvação, ou de libertação do sofrimento, como dizem os orientais. 

Do ponto de vista espiritual, mais importante do que o objeto da doação é o estado de espírito e a motivação com que a fazemos.[1] Os budistas investigaram profundamente essa questão e dizem: “O objeto que damos não é a doação real -- ele é apenas o meio da doação. A atividade real de doar é a forte decisão de dar livremente sem avareza. Desta maneira, mesmo se nada possuímos, podemos praticar a doação, porque esta atividade depende de nosso estado mental, não do objeto que é doado.”[2] Devemos, portanto, desenvolver a atitude interior de generosidade e de amor fraternal para com todos os seres, para que, com o tempo, essa atitude interior se manifeste naturalmente no exterior, em nossa vida diária. Assim, mesmo que tenhamos sérias limitações materiais podemos ser grandes doadores, por meio da consideração demonstrada e da dedicação de nosso tempo e atenção aos problemas dos outros.  

A doação do conhecimento espiritual pode ter um enorme impacto na vida das pessoas. Não nos referimos aqui às pregações e atividades missionárias de algumas ordens religiosas. Não é possível enfiar a Verdade goela abaixo das pessoas. A pregação mais efetiva dos ensinamentos do Mestre deve ser a vida exemplar do próprio pregador, o que naturalmente leva as pessoas que convivem com ele a querer saber mais sobre suas práticas espirituais. Dois exemplos recentes de indivíduos que exerceram enorme influência sobre um grande número de pessoas de religiões diferentes da sua são a Madre Teresa de Calcutá e o Dalai Lama.  

Existe, no entanto, uma tendência nas pessoas recém-engajadas no caminho espiritual, decorrente do deslumbramento proporcionado pelos novos horizontes que começam a descortinar, de tentar convencer as demais a aderir às suas idéias. Pior ainda são os religiosos que, incapazes de praticar as virtudes e efetuar as transformações que são seus deveres primordiais, exigem dos outros aquilo que eles mesmos não conseguem cumprir.  

O livre arbítrio deve ser sempre respeitado. Podemos colocar a verdade à disposição dos outros, mas não podemos forçá-los a adotá-la. O exemplo dos mestres budistas pode ser útil. Suas regras exigem que só façam a exposição de qualquer ensinamento do Dharma (conjunto de ensinamentos do Buda) quando solicitados. Eles estão sempre à disposição, mas o postulante deve mostrar o seu interesse, solicitando a instrução. 

A caridade é uma expressão prática do amor divino. A pessoa caridosa deve ser como o Sol, que não discrimina entre justos e pecadores, derramando seus raios sobre todos, doando luz e calor a todos os seres. Assim, nossa caridade deve ser abrangente e nunca restritiva, como fazem alguns que não contribuem para certas obras de caridade porque são conduzidas por essa ou aquela seita diferente da sua. 

Na tradição cristã, em que pese a tentativa posterior dos teólogos de dar primazia à fé, ou melhor, à crença, a caridade era considerada como a maior virtude. Isso foi dito claramente por Paulo em seu memorável hino à caridade, contido na Primeira Epístola aos Coríntios. Vale a pena lembrar que no original grego, a palavra usada por Paulo era agape (agaph), que significa amor, mais tarde traduzida para o latim como caritas. A caridade, portanto, deve ser entendida como amor em ação: 

Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse caridade, seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas; se não tivesse caridade, eu nada seria. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse caridade, isso nada me adiantaria. A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta... Agora, portanto, permanecem fé, esperança e caridade, estas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade. (1 Co 13:1-7, 13)

A caridade, portanto, é a disposição de espírito de fazer tudo com amor. Essa intenção de doação, normalmente dirigida para o exterior, para o benefício das pessoas que nos cercam, deve traduzir a verdadeira expressão de nosso amor a Deus. Essa é a caridade que o Mestre e seu Apóstolo nos ensinaram com o exemplo de suas vidas, e que devemos procurar seguir. Se formos honestos conosco mesmos constataremos que não possuímos o verdadeiro amor, ou caridade, de que fala Paulo. Essa constatação, em lugar de nos desencorajar, deve ser motivo de inspiração para que alcancemos a meta do verdadeiro altruísmo.  

A prática da compaixão suscita níveis mais elevados de realização espiritual quando o praticante doa-se de todo coração ao objeto de sua ação, passando a compartilhar os sentimentos e a dor daqueles a quem ajuda. Esse é um dos estados mais refinados da prática do amor. No Sermão da Montanha encontramos: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Nessa, como nas outras Beatitudes, Jesus nos alerta para o significado mais profundo de uma ética baseada no amor e regida pela lei do retorno. Esse ensinamento já havia sido enunciado no Antigo Testamento: “Quem faz caridade ao pobre empresta a Iahweh, e ele dará a sua recompensa” (Pr 19:17). Misericórdia é, por um lado, a disposição para perdoar e, também, a manifestação de compaixão que surge da compreensão da fragilidade e da ignorância humana que nos permite relevar os insultos e injustiças recebidos. Uma atitude crítica e intolerante é incompatível com a compaixão. Quando permitimos a suspeita e a dúvida se assenhorarem de nossos processos mentais, alimentamos nossas tendências negativas. Com isso deixamos de ser caridosos pois estamos imputando más intenções ao nosso próximo.[3]


[1] “Sem caridade, de nada vale a obra exterior; tudo porém, que dela procede, por insignificante e desprezível que seja, torna-se proveitoso; porque Deus não olha tanto para as ações, como para a intenção com que as fazemos.” Imitação de Cristo, op.cit., pg. 53.

[2] A Senda Graduada para a Libertação, op.cit., pg. 65-66.

[3] Vide The Mystical Christ, op.cit., pg. 169-171.

 

 

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