Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

V. O MÉTODO DE TRANSFORMAÇÃO 

12. AS REGRAS DO CAMINHO

Conhecimento de si mesmo 

Desde a mais remota antigüidade, os grande mestres sempre instaram o homem a buscar o conhecimento de si mesmo. Essa instrução foi tornada particularmente famosa na Grécia antiga com a inscrição no portal de entrada do Templo de Delfos, que dizia: Homem, conhece-te a ti mesmo. Dizem alguns iniciados que entraram no Templo que, do lado interno do portal, a inscrição continuava: E conhecerás o universo.  

A tradição cristã, continuadora da eterna tradição de sabedoria, não poderia adotar uma postura diferente. Na extensa literatura do cristianismo primitivo constatamos a ênfase especial dada aos mitos da peregrinação da alma em que os ensinamentos sobre os princípios do homem figuram como parte central do relato. No Evangelho de Tomé, documento apócrifo de grande importância, redescoberto entre os textos da Biblioteca de Nag Hammadi, encontramos três aforismos que se reportam a essa questão: 

(3) Quando conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se não conhecerdes a vós mesmos, então estareis na pobreza e sereis essa pobreza. 

(67) Jesus disse: ‘Quem conhece o Todo com sua mente, mas priva-se (do conhecimento) de seu verdadeiro Eu, está privado do Todo.’ 

(84) Jesus disse: ‘Nos dias em que vedes vossa semelhança, vós vos rejubilais. Mas, quando virdes vossas imagens, que no princípio estavam convosco, que não morrem nem se manifestam, o quanto tereis de suportar!’[1] 

Esses aforismos têm profundas implicações. No primeiro é dito que o conhecimento de si mesmo implica num reconhecimento da filiação com o Pai Supremo. O reconhecimento de nossa filiação divina deixa implícito que nossa herança é divina e, enquanto não a reivindicarmos, viveremos na pobreza. No segundo, é indicado que, apenas com o conhecimento intelectivo das coisas do Universo, sem um conhecimento da natureza interior de si mesmo, o indivíduo está se condenando a alienar-se do Todo. É o conhecimento da natureza divina do homem que oferece a chave para o verdadeiro conhecimento do Todo, como nos assegura a Lei Hermética das correspondências (“assim em baixo como em cima”), já que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (o Todo). 

No aforismo 84, nossas imagens podem ser de três tipos: a imagem física refletida num espelho ou, nos tempos modernos, nas nossas fotografias; a nossa imagem social através de pessoas muito semelhantes a nós ou de descrições, orais ou escritas, a nosso respeito; e, finalmente, a imagem psíquica e a aura, que começam a ser vistas quando o indivíduo conquista as primeiras etapas da clarividência. Essas semelhanças geralmente trazem júbilo, principalmente as da última categoria, pois o indivíduo tende a associar essas visões com uma conquista espiritual. Porém, quando virmos nossas imagens primordiais, nossos arquétipos, enfim, Deus em nosso interior, o enorme contraste entre o que deveríamos ser, de acordo com nosso modelo divino, e a maculada realidade de nossa atual realização espiritual, teremos então um imenso pesar pela nossa fraqueza e nosso apego às futilidades e às ilusões da vida do mundo. Nessa ocasião teremos realmente de suportar um imenso peso em nossa consciência.  

Diz-se que, ao final de cada vida, o indivíduo passa em revista, de forma extremamente rápida, todos os eventos, palavras e pensamentos de sua presente existência, tendo então noção de seus erros e das oportunidades perdidas. É dito também que grande parte da dor sentida nos estados após a morte referem-se ao pesar e arrependimento pelos erros cometidos. Quanto maior será, então, nosso pesar quando tivermos não só o pleno conhecimento de nossos erros e fraquezas, mas também pelo que deixamos de fazer frente ao modelo de perfeição pelo qual seremos medidos, que reflete a missão que Deus nos outorgou. 

Em outro documento apócrifo, Jesus deixa claro que tipo de conhecimento devemos procurar, quando diz: ‘Pois aquele que não conhece a si mesmo não sabe nada, mas aquele que conheceu a si próprio alcançou simultaneamente o conhecimento sobre a Profundidade do Todo.’[2] Esse ensinamento do Mestre, que também foi registrado em outros textos não-canônicos,[3] reflete inteiramente a mensagem do Oráculo de Delfos, ligando a natureza do conhecimento interior com o conhecimento do Universo pela extensão das correspondências. 

Mas por que o conhecimento de si mesmo é fundamental no caminho espiritual? A resposta pode parecer desconcertante: o conhecimento de si mesmo é o próprio caminho espiritual. É por essa razão que esse conhecimento é incluído como uma das regras do caminho, senão vejamos: a meta, como foi visto, é a união em consciência com Deus, simbolizada pelo retorno à Casa do Pai. Como Deus é nossa essência última, o conhecimento de nossa natureza divina facilita essa expansão de consciência, que por sua vez possibilita um conhecimento mais profundo de nossa natureza última. O método, por sua vez, é a metanoia, a transformação de nossos conteúdos mentais, das ilusões e negatividades do homem comum para o estado de consciência de nossa natureza superior. Isso só pode ser feito quando conhecemos nossa natureza inferior e os mecanismos que mantêm nossa consciência aprisionada às coisas deste mundo. Os doze mecanismos transformadores que serão examinados na seção AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS visam facilitar o conhecimento de nossa verdadeira natureza.  

Quando conhecemos nossos princípios inferiores e superiores podemos mapear uma estratégia para superar ou reorientar os primeiros e ativar os últimos. Assim, o caminho da autotransformação demanda o conhecimento de nosso inconsciente, seja subconsciente ou supraconsciente. Nesse ponto parece haver um impasse: o pleno conhecimento e contato com o Eu Superior depende de conhecermos o eu inferior e transformá-lo num aliado na busca do seu irmão de Luz. Porém, para conhecermos o eu inferior precisamos da ajuda do Eu Superior. Esse aparente paradoxo pode ser superado, como será visto posteriormente. 

No inconsciente encontram-se as raízes de nossas limitações, de cada defeito e de cada falha de caráter. Para trilharmos o Caminho da Perfeição que leva à União com Deus, precisamos superar todas as fraquezas que nos tolhem os passos. Naturalmente só podemos trabalhar aqueles defeitos que conhecemos, daí a importância do autoconhecimento. 

O autoconhecimento é especialmente necessário para que possamos desvelar nosso inconsciente, onde estão armazenadas as informações sobre o passado, tanto da infância como de outras vidas. Essas informações oferecem a chave para o entendimento e, portanto, a superação dos condicionamentos limitadores. A psicologia moderna, principalmente depois das reflexões de Jung sobre a ‘sombra’ e o ‘inconsciente’, permite-nos entender que todos os traumas e frustrações da infância, resultantes de situações não resolvidas ou não compreendidas, são armazenados pelo indivíduo em seu inconsciente sob a forma de mecanismos de defesa, os condicionamentos, que passarão a comandar nossas reações aos estímulos do mundo exterior. Como disse Jung: 

“A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem despender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com considerável resistência.”[4] 

O trabalho pioneiro de Jung, teve como uma de suas fontes de inspiração os escritos gnósticos e os de seus sucessores, os alquimistas.[5] A partir dessas elucidações, outros autores apresentaram de forma mais acessível ao grande público o conceito da sombra, chamado por alguns de “eu inferior”, juntamente com os conceitos de imagem e máscara que geram os mecanismos de defesa das pessoas.  

Imaginemos a verdade como uma luz intensa que brilha no âmago de nosso ser. Antes de ser percebida pela consciência, isto é, antes de deixar uma imagem em nosso cérebro, essa luz deve passar através de todos nossos veículos, do mais sutil ao mais denso. Cada veículo funciona como um conjunto de filtros que obscurece e distorce progressivamente a luz original, fazendo com que a imagem última a ser refletida no cérebro seja, na maioria das vezes, um mero arremedo quase irreconhecível da imagem inicial projetada pela fonte de luz. 

O processo de autoconhecimento implica na identificação de todos os filtros de nossos veículos (material, astral e mental) para que possam ser trabalhados e purificados, a fim de que possa diminuir e, por fim, terminar o obscurecimento e a distorção da realidade. Para que esse processo de purificação seja efetivo, e seus resultados possam ser sentidos onde são mais necessários, é preciso que, após a etapa inicial de purificação generalizada dos aspectos mais grosseiros e gritantes da personalidade, o esforço seja então especialmente direcionado para os pontos de distorção, que nem sempre são conhecidos pelo homem. 

O processo de identificação e aceitação de nossas fraquezas pode ser entendido como um desnudamento. Quando aceitamos retirar a capa protetora de nossas falsas defesas, procedemos a um desvelar de nossa verdadeira natureza. Essa nudez pode causar uma vergonha inicial, mas será o marco de uma nova era em nossa vida. Temos na história de Adão e Eva um exemplo alegórico desse fato. Quando foram expulsos do paraíso tornaram-se conscientes de que estavam despidos. Ora, se enquanto eles viviam no paraíso não eram conscientes de sua nudez, isso significa que a nudez frente à realidade é o próprio paraíso.  

Esse conceito ajuda-nos a entender duas passagens aparentemente paradoxais do Evangelho de Tomé. Na primeira, ao ser perguntado como eram seus discípulos, Jesus disse: “Eles são como crianças que se estabeleceram num campo que não é seu. Quando os donos do campo chegam, dizem: ‘Devolvam-nos nosso campo.’ As crianças se despirão perante os donos para que eles possam receber de volta o campo, entregando-o a eles.” Na segunda, ao ser perguntado por seus discípulos quando se revelaria a eles para que pudessem vê-lo, Jesus respondeu: “Quando vocês se despirem sem sentir vergonha e tomarem suas vestes, colocando-as sob seus pés, como criancinhas, e pisarem sobre elas, então vocês verão o filho daquele que vive, e não terão medo.”[6] 

O desnudamento é indicado por Jesus, em primeiro lugar, como a característica que define seus discípulos e, em seguida, como o fato que lhes permitirá ver o Mestre em sua natureza real. As vestes que as criancinhas retiram quando chegam os donos do campo são os envoltórios da natureza inferior, as máscaras e as negatividades que as crianças, como os iniciados, em sua inocência, descartam sem o menor sentimento de vergonha, pois é algo que não lhes pertence. Assim, o requisito indicado por Jesus para que os discípulos possam ter a revelação de sua natureza real é despirem as máscaras e as negatividades e pisarem sobre elas, simbolizando a renúncia a essas vestes inferiores, para que, sem esses impedimentos, a natureza do Cristo possa ser revelada. 

A identificação dessas distorções é difícil e muitas vezes dolorosa. Significa encarar algumas características pouco lisonjeiras do nosso caráter. Exige um questionamento constante do porquê de nosso comportamento, ou seja, de nossas motivações. Significa buscar a razão pela qual nossas reações são diferentes de nossos atos premeditados. É preciso entender por que algumas de nossas ações não estão respaldadas por nossos verdadeiros sentimentos.[7] 

Torna-se necessário, portanto, identificar as distorções provocadas pelos nossos condicionamentos inconscientes. A literatura gnóstica dos primeiros séculos de nossa era, especialmente a obra Pistis Sophia, muito contribuiu para o entendimento dos condicionamentos. No mito de Sophia eles são apresentados como sendo emanações da personalidade egoísta que se manifestam como nossos desejos e paixões materiais. Cada vez que repetimos um movimento para a gratificação dos sentidos, por exemplo, estamos reforçando uma tendência que, aos poucos, transforma-se numa virtual segunda natureza, agindo com vontade própria independente de nossa razão. 

As piores distorções, no entanto, são aquelas advindas dos mecanismos de defesa. Esses são as imagens idealizadas e as máscaras que criamos na tentativa de proteger-nos dos embates dolorosos do mundo exterior. Essas idealizações são aqueles aspectos de nosso eu inferior que provocam as reações negativas que procuramos evitar. 

Para compreender melhor esse mecanismo, podemos usar um paralelo com o mundo material. Assim como o nosso sistema solar pode ser imaginado como uma imensa esfera com o sol em seu centro e o átomo como uma esfera infinitesimal com o núcleo em seu centro, o ser humano poderia ser concebido como uma esfera, que tem seu Eu Superior, a natureza divina, em seu centro, cercado por uma extensa camada que seria o seu eu inferior e, finalmente, recoberto por uma casca protetora que chamaremos de máscara. Os primeiros sinais de consciência dão-se ao nível daquilo que interpretamos como sendo “eu”, que é a camada externa, as imagens idealizadas, que no seu conjunto compõem a máscara.  

A “imagem” advém de uma falsa conclusão ou generalização sobre a vida. A somatória das imagens estabelecidas por cada pessoa ao longo da infância e da juventude constitui a “máscara” que o indivíduo constrói. Essa máscara é uma auto-imagem idealizada, com a qual o indivíduo tenta apresentar um quadro ideal ou perfeito do que imagina que ele deveria ser para conseguir a aprovação ou amor dos pais inicialmente e, mais tarde, de todos aqueles com quem interage no mundo. A máscara é, portanto, a defesa que estabelecemos em busca de proteção para assim nos tornarmos invulneráveis aos embates da vida.[8] 

Infelizmente, porém, as imagens incorporadas em nossa máscara em vez de servirem de proteção real contra nossas frustrações são, na verdade, mecanismos retro-alimentadores de nosso sofrimento existencial. A máscara é como um cobertor curto para nos proteger do frio: se cobrimos os pés deixamos os ombros de fora e vice-versa. Quanto mais estamos na defensiva, procurando escapar de possíveis críticas, mágoas ou sentimentos de rejeição, mais limitamos o alcance de nossos sentimentos e, portanto, de nossa capacidade de dar e receber amor, de nos comunicarmos com os outros, de darmos expressão à criatividade e de nos aventurarmos na vida. Existem três máscaras básicas, ou três atitudes fundamentais face à vida: a máscara do amor, a do poder e a da serenidade, que refletem de forma distorcida os três temperamentos básicos (amor, vontade e sabedoria) do ser humano. 

Algumas pessoas acham que se forem amadas todos os problemas serão resolvidos. A pessoa com essa máscara tenta, por meio de seu comportamento amoroso e subserviente, conquistar a atenção e a demonstração de amor dos outros. Na tentativa de obter aprovação, simpatia, proteção e segurança, que seriam demonstrações de amor, essas pessoas procuram atender a todas as demandas dos outros, sejam elas razoáveis ou não. Como não podem conviver com nenhuma demonstração de rejeição ou mesmo de insatisfação dos outros, não ousam defender positivamente seus desejos ou necessidades.[9] A fraqueza e o desamparo demonstrados pelas pessoas que vestem a máscara do amor não são genuínos, daí caracterizarem-se como mecanismos de defesa, ou máscaras. 

O indivíduo com uma atitude primordialmente intelectiva frente à vida, geralmente adota a máscara da serenidade, aparentando que tudo vai bem. Nas palavras de uma estudiosa: “A máscara da serenidade é uma tentativa de fugir das dificuldades e vulnerabilidades da vida humana parecendo ser sempre totalmente sereno e distanciado. De fato, o que a pessoa realmente persegue é a distorção da serenidade, que significa retraimento, indiferença, fuga à vida, não envolvimento, distanciamento mundano e cético ou falso distanciamento espiritual. A falsa concepção da máscara da serenidade é que os problemas desaparecem desde que sejam negados.”[10] O resultado dessa máscara, como de todas as máscaras, é uma dupla frustração: o indivíduo não consegue captar as demonstrações de amor que no fundo está buscando e aumenta seus problemas de relacionamento, fazendo com que as pessoas se afastem cada vez mais dele. 

A máscara do poder é a que se mostra mais agressiva das três. Ainda que todos os mecanismos de defesa busquem exercer o controle e, portanto, o poder sobre o mundo exterior, a máscara do poder é especialmente propícia à criação de rixas e animosidades com as outras pessoas. O indivíduo com essa máscara é excessivamente crítico e “procura exercer controle sobre a vida e sobre os outros, parecendo sempre totalmente independente, agressivo, competente e dominador. Através da falsa redução da vida a uma luta pelo domínio, a máscara do poder é uma tentativa de fugir da vulnerabilidade da impotência sentida na infância.”[11] A máscara do poder geralmente leva a pessoa a ser voluntariosa e agressiva. 

Mas como criamos nossas máscaras? Todo indivíduo traz em sua bagagem cármica uma gama de tendências ou predisposições que geralmente são ativadas na infância. Nos primeiros anos de vida, a criança necessita do aconchego e proteção dos pais e espera uma constante demonstração de afeto e carinho. Todas as frustrações decorrentes de sua busca por amor e afeto paternos são processadas em sua mente de forma emotiva, não racional, e arquivadas inicialmente no consciente, refluindo depois para o inconsciente. Como o bebê e a criança ainda não têm capacidade para interpretar de forma madura esses acontecimentos e colocá-los em sua devida perspectiva, suas reações são necessariamente imaturas, mas nem por isto deixam de criar imagens e estabelecer mecanismos de defesa.  

A criança parece ser insaciável, sempre quer mais, achando que o mundo foi feito para ela, e que a mãe e o pai devem estar sempre a sua disposição para gratificar seus desejos e sua necessidade de aconchego e amor. Essa é a sôfrega busca da felicidade pelo pequenino ser que está sendo introduzido à realidade da vida. Porém, apesar do seu amor aos filhos, os pais são, como todos os demais seres humanos, imperfeitos em seu entendimento da natureza humana e, principalmente, em sua capacidade de demonstrar amor e atenção. Dessa forma, a reação dos pais em certas circunstâncias pode fazer com que a criança interprete uma negativa ou uma censura como indicação de que seu pai ou sua mãe não gostam mais dela.  

Sendo um escudo protetor fabricado pelo homem para camuflar e proteger seu eu inferior, a máscara geralmente costuma ser negada pelas pessoas que não a conhecem ou não querem reconhecê-la, pois julgam-na cômoda. Como o objetivo da máscara é justamente esconder as negatividades da natureza inferior, sem que haja a identificação e a retirada consciente dessa barreira, o trabalho de autotransformação não pode atingir a raiz do problema. 

Jesus sempre condenou a falsidade e a hipocrisia, exemplificada no comportamento dos fariseus e levitas. Porém, os ensinamentos do Mestre não eram voltados exclusivamente para situações momentâneas de sua época, mas eram dirigidos a seus seguidores de todos os tempos. Por isso, devemos buscar no âmago de nosso ser toda falsidade que por ventura possamos abrigar. Sabemos, no entanto, que a falsidade da máscara não é uma decisão consciente do indivíduo. A máscara é um condicionamento arquivado nas profundezas do inconsciente, que vem à tona como uma reação a certas situações do cotidiano. Antes que o indivíduo se dê conta já falou ou agiu de acordo com a sua programação inconsciente. Essa é uma das principais razões porque o indivíduo precisa de muita coragem, humildade e trabalho ingente para identificar a máscara, compreender que a proteção que oferece é efêmera e implica em altos custos para a saúde emocional, e que deve ser retirada para que o indivíduo possa participar da vida de forma saudável e responsável.  

Os mecanismos de defesa não só dificultam o reconhecimento das falhas do eu inferior como, em alguns casos, obstruem a manifestação de certos aspectos do Eu Superior. Isso será mais facilmente compreendido se examinarmos a concepção que temos de Deus. A imagem do Pai Celestial feita pelo adulto é geralmente uma decorrência da característica mais marcante que guarda de seus genitores. Se essa imagem for de pai e mãe amorosos, compreensivos e protetores, a tendência será estender essa impressão para o Supremo Pai-Mãe da humanidade. Nesse caso, a imagem de Deus será a de uma autoridade condescendente propensa a atender todas as vontades.  

No caso de crianças com pais autoritários e severos, essa percepção será transferida para Deus, a autoridade suprema, a quem passarão a temer, procurando ilogicamente se esconder do Pai Celestial, por medo de serem castigadas por suas faltas. Como todos nós estamos cientes de termos cometido muitos pecados, a insegurança sobre o seu perdão leva-nos a temer mais do que amar a Deus. Essa atitude de medo de Deus e de insegurança sobre o outro mundo faz com que o indivíduo erga barreiras protetoras para mantê-lo afastado daquela Deidade que teme. Como o Eu Superior é a expressão de Deus no íntimo de nosso ser, a conseqüência, nesse caso, é o impedimento do livre fluxo de todas as energias superiores. A personalidade acaba controlando tanto ou mais a expressão do Eu Superior do que a do eu inferior. 

A identificação e subseqüente demolição dessas barreiras à livre expressão da energia espiritual espontânea requer um esforço consciente, muita coragem e determinação por parte do indivíduo, porque ele se sentirá inicialmente desnudo, desprotegido e desamparado. A tendência da personalidade é resistir a essa abertura, porque ela nos torna vulneráveis às imagens que guardamos da autoridade paterna e de Deus quando éramos jovens, imaturos e indefesos. Quando esse despojamento do ego ocorre, o homem torna-se aberto e sensível como uma criança, o que lembra as palavras de Jesus: “Se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18:3). Uma vez decidida e permitida a abertura, ainda que cautelosamente a princípio, o indivíduo passará a experimentar uma vida muito mais rica, dando expressão a seus verdadeiros sentimentos e facilitando uma interação mais saudável com as pessoas em sua vida. 

Um importante corolário do autoconhecimento é a possibilidade de utilização consciente de nosso imenso potencial criativo. Sabemos que o ser humano é altamente criativo. Porém, geralmente, associamos a capacidade criadora a coisas materiais, artísticas ou intelectuais. No entanto, a maior obra do homem é a sua própria vida. Vimos anteriormente que, pela inexorável operação da Lei de Causa e Efeito, todos nossos pensamentos, ações, palavras, sentimentos, intenções e desejos, conscientes e inconscientes, geram conseqüências diretamente associadas à causa inicial. Por isso, nossa vida atual nada mais é do que a conseqüência de nosso poder criativo no passado, ainda que em grande parte ativado de forma inconsciente. Nossa vida é uma resultante matemática precisa de todos os vetores de força que atuaram no passado e estão atuando no presente. 

A grande oportunidade para todo aquele que procura trilhar a Senda da Perfeição é a certeza de que pode mudar, passando a atuar de forma consciente na criação de sua realidade.[12] Porém, a imensa maioria dos seres humanos são criadores inconscientes, deixando que seu eu inferior, movido pelo egoísmo e o orgulho, seja o agente criador. Para por um fim a esse processo de criação negativa inconsciente, o buscador deve identificar todos os conteúdos negativos de seu inconsciente, fazendo-os aflorar ao consciente, onde podem ser compreendidos e, então, trabalhados. Com isso a energia que anteriormente permanecia reprimida ou manifestava-se de forma distorcida pode ser liberada e direcionada para seus propósitos originais construtivos. 

Além da identificação das negatividades e distorções inconscientes o processo de criação na Senda inclui a ativação do Eu Superior como agente criador consciente. Como nossa essência última é divina, temos em nosso interior tudo o que precisamos para alcançar nossas metas no Caminho da Perfeição. Quando devidamente invocado, o Eu Superior, que é o Cristo, pode fazer fluir a energia divina do Amor, da Sabedoria e do Poder que passam a trabalhar nossos veículos de manifestação, até que alcancemos, nas palavras de Paulo, “o estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4:13). Portanto, nossos desejos, aspirações e pensamentos podem ser usados de forma criativa para modelar o novo homem, que será, a partir de então, um agente consciente das forças do amor e da paz no mundo. 

A referência no Credo dos Apóstolos, de que Jesus, após a morte, desceu aos infernos, ressuscitou dos mortos e ascendeu ao céu, deve ser entendida como o caminho de todos os filhos de Deus rumo à libertação final. Primeiro devemos morrer para o mundo das falsidades da máscara, a seguir, descer aos infernos onde estão armazenados os arquivos de nossa natureza inferior, ressuscitando do mundo dos mortos, isso é, dos condicionamentos aprisionadores, para só então ascendermos ao céu de nossa natureza superior. Por isso Jesus disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). 

O papel e a importância relativa dos três “eus”, ou níveis de consciência (o eu adulto, o eu inferior e o Eu Superior), podem ser visualizados de forma alegórica na Figura 2 como sendo os três andares de uma casa de forma piramidal que simboliza o ser humano integral. O eu adulto paramentado com suas máscaras vive no andar térreo, o andar de nossa interface com o mundo exterior, onde são recebidas as pessoas com quem interagimos na vida diária, sejam elas nossos familiares, amigos ou desconhecidos. Esse pavimento, composto de vários aposentos, que são as imagens idealizadas para as diferentes situações de nossa vida cotidiana, é, geralmente, o único a que o eu tem acesso consciente. Os dois outros andares, o porão subterrâneo, onde se encontra escondida a nossa criança imatura, e o andar de cima, onde vive o Eu Superior, são invisíveis, tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. 

A maioria das pessoas passa a maior parte de sua vida circunscrita ao andar térreo. Elas vivem presas à máscara, governadas pelos condicionamentos inconscientes oriundos do eu inferior, simbolizados na Figura 2 pelos cabos que conectam as caixas armazenadas no subsolo. Essas caixas simbolizam as energias distorcidas e estagnadas das negatividades. As inspirações do Eu Superior passam geralmente despercebidas em virtude das paredes espessas que isolam a consciência do homem comum vivendo no mundo de ilusão da máscara. 

Para que a pessoa possa crescer espiritualmente, ela precisa abrir canais de comunicação com sua natureza divina que vive no andar superior. Porém, a vida espiritual está cheia de paradoxos: para subir é preciso antes descer, para alcançar a luz é preciso antes passar pela escuridão, para alcançar o superior é preciso antes conhecer o inferior.[13] Assim, o homem deve aprender que, para poder se banhar na luz do andar superior de sua ‘casa’, ele deve antes passar pelos corredores sombrios e labirínticos do porão de sua natureza inferior. O pior é que além de sombrios e tortuosos, estes caminhos subterrâneos estão atulhados de todo tipo de velharia empoeirada, que bloqueia a passagem. Esses objetos velhos são nossas memórias carregadas de energia emocional, que foram guardadas no inconsciente, mas não totalmente esquecidas, pois são elas que ativam nossos mecanismos de defesa e de negatividades. Esse mecanismo de resposta é simbolizado pelos cabos ligando as caixas do porão ao coração (centro de consciência) do eu adulto no andar térreo. 

Isso significa que para alcançar a plenitude da luz da natureza superior, o buscador terá que retirar tudo aquilo que atravanca seu caminho pelos subterrâneos do inconsciente da natureza inferior. Todo o material arquivado no inconsciente terá que ser levado para o andar térreo e submetido, com muita compreensão e compaixão, ao crivo da razão do eu adulto. Por isso, o processo é longo e laborioso, mas, à medida que o material for sendo trabalhado, os corredores da natureza inferior serão desbloqueados e, para nossa surpresa, irão adquirindo uma certa luminosidade que nos facilitará encontrar a próxima etapa do caminho até a porta estreita e escondida de comunicação com o andar superior. A outra surpresa é que a limpeza dos corredores subterrâneos do inconsciente promoverá, simultaneamente, uma transformação saudável do andar térreo.  

Com a continuação desse trabalho de verdadeira purificação, chegará o dia em que conseguiremos abrir a porta do andar superior, de onde promana a luz divina. Ainda no limiar da luz, perceberemos extasiados a beleza e a grandiosidade da natureza divina, que, em nossa consciência dual, atribuiremos a Ele, ao Cristo interior que nos aguarda pacientemente. Com o tempo, seremos convidados a entrar nesse recinto de luz e a comungar com o Cristo e, mais tarde, a nos unirmos a Ele, quando então nos será revelado o segredo supremo de que “Eu e o Pai somos Um”, terminando, então a ilusão da separatividade para todo o sempre.  

Assim como o andar subterrâneo de nossa casa está ligado ao térreo por uma imensa rede de cabos que transmitem os comandos da natureza inferior, pela lei das correspondências, podemos criar uma rede de comunicação de nossa natureza divina com nosso eu adulto. Esse trabalho é feito pela meditação sistemática e profunda.[14] Essa comunicação vai progressivamente neutralizando a ligação com as trevas que, pela ignorância, criamos ao longo de nossas vidas. O objetivo final do trabalho duplo de contato com a luz superior e de regeneração de nossa natureza inferior é a integração dos três “eus” num todo harmônico, agora sob o comando da natureza superior. Quando isso ocorre, a interação com o mundo é feita sem máscaras nem reações negativas, pois a criança imatura foi reeducada e integrada no adulto, possibilitando que todos atos, palavras e sentimentos sejam expressões da verdade e do amor divinos. 

Apesar da linguagem dessas considerações e elaborações psicológicas ser moderna seus fundamentos podem ser encontrados em linguagem simbólica em alguns documentos apócrifos dentre os quais Pistis Sophia. A atribuição da autoria do Evangelho de Tomé e do Livro de Tomé, o Contendor, ao “irmão gêmeo” de Jesus, oferece uma chave para o entendimento desses processos. No primeiro versículo do Evangelho de Tomé encontramos: “Todo aquele que entender estas palavras não experimentará a morte.” Isso significa que quem alcançar a gnosis reveladora obterá, consequentemente, o conhecimento da imortalidade da alma, com a qual associará o seu verdadeiro ser. Porém, alcançar a gnosis suprema significa fundir-se na Luz do Alto, ou seja, unir-se ao Cristo interior. Portanto, quando isso ocorre, a pessoa pode ser legitimamente considerada como “irmão gêmeo” de Jesus. Podemos chegar a essa conclusão examinando atentamente a passagem no Livro de Tomé, o Contendor: “Como foi dito que você é meu gêmeo e meu verdadeiro companheiro, examine-se a si mesmo para compreender quem você é ... Eu sou o conhecimento da verdade. Se você me acompanhar, ainda que não compreenda (isso), já passou a conhecer, e será chamado ‘aquele que conhece a si mesmo.’ Pois, quem não se conheceu, nada conheceu; mas quem se conheceu alcançou ao mesmo tempo conhecimento sobre as profundezas de todas as coisas.”[15]


[1] Evangelho de Tomé, em J. Robinson, ed., The Nag Hammadi Library (Harper San Francisco, 1980), pg. 126-138.

[2] O Livro de Tomé, o Contendor, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 201.

[3] Vide, por exemplo O Diálogo do Salvador, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 249.

[4] C.G. Jung, Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo (Petrópolis, Editora Vozes), pg. 6.

[5] Jung declara em sua autobiografia: “Apesar da supressão da heresia gnóstica, ela continuou a florescer ao longo da Idade Média sob a aparência da alquimia” (pg. 97).  “As experiências dos alquimistas eram, em certo sentido, minhas experiências, e seu mundo era meu mundo. A possibilidade de uma comparação com a alquimia e a cadeia intelectual ininterrupta até o gnosticismo deu substância à minha psicologia” (pg. 205). Em C.G. Jung, Memories, Dreams, Reflections (N.Y., Vintage Books, 1963).

[6] Evangelho de Tomé, The Nag Hammadi Library, op.cit., versículos 21 e 37, pg. 129-130.

[7] Vide Não Temas o Mal, op.cit., pg. 24-25.

[8] Vide interessantes considerações sobre este tema em Susan Thesenga, O Eu Sem Defesas (S.P., Cultrix, 1997), pg. 126 e seg., e em Eva Pierrakos, O Caminho da autotransformação, op.cit., pg. 37 e seg.

[9] Não Temas o Mal, op.cit., pg. 94.

[10] O Eu Sem Defesas, op.cit., pg. 132-33.

[11] O Eu Sem Defesas, op.cit., pg. 131-2.

[12] Nossa capacidade de criação consciente é descrita por H.P. Blavatsky: “Assim como Deus cria, também o homem pode criar. Dando-se uma certa intensidade de vontade, as formas criadas pela mente tornam-se subjetivas. Alucinações, elas são chamadas, embora para o seu criador elas sejam tão reais como qualquer outro objeto visível o é para os demais. Dando-se uma concentração mais intensa e mais inteligente dessa vontade, a forma se torna concreta, visível, objetiva; o homem aprendeu o segredo dos segredos; ele é um mago.” Isis Sem Véu (S.P.: Pensamento), vol. I, pg. 150.

[13] Alguns místicos relatam a experiência de que quando encontram uma barreira para chegar à Presença Divina ascendendo a planos superiores, devem então reverter o processo procurando descer e mergulhar em sua própria natureza inferior. Vide: John Pordage, Sophia: The Graceful Eternal Virgin of Holy Wisdom (Londres, 1675), citado em Theosophic Correspondence of Louis Claude de Saint-Martin (Exeter, 1863), pg. 92-93. Outro místico descrevendo os caminhos misteriosos da alma diz: “Mas a maneira como a alma ascende do mundo interno para o eterno, é notável e maravilhosa. Ela não pode mover-se por si só nem mesmo um grau: a mesma Mão do Poder que a levou para baixo para ver as maravilhas de Deus nas profundidades [da natureza humana], deve agora carregá-la para o alto para ver Suas maravilhas nas alturas acima.” Thomas Bromley, The Way to the Sabbath of Rest, or the Soul’s Progress in the Work of the New Birth, citado por Arthur Versluis, em TheoSophia: Hidden Dimensions of Christianity (NY: Lindsfarne Press, 1994), pg. 205.

[14] O escopo da meditação será examinado em maior profundidade no capítulo 21. Uma meditação especial é sugerida no Anexo 1 para o conhecimento de si mesmo que, se feita com paciência e determinação, por algum tempo, poderá abrir novas perspectivas para a vida de cada um.

[15] Livro de Tomé, o Contendor, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 189.

 

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