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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS19 - DISCERNIMENTO O desenvolvimento do discernimento é considerado como fundamental por todas as tradições. Na tradição cristã, como mantida nos mosteiros orientais, considera-se de suma importância o desenvolvimento do discernimento, para que o praticante possa distinguir entre as coisas certas e erradas ou, em termos mais esotéricos, as coisas do mundo real, que são eternas e muitas vezes invisíveis, das coisas deste mundo, que são passageiras e ilusórias. Como dizia Paulo: “Não olhamos para as coisas que se vêem, mas para as que não se vêem, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2 Co 4:18). Jesus, usando linguagem parabólica, fustigou seus ouvintes pela falta de discernimento nas coisas importantes da vida interior, em contraste com a percepção acertada que tinham dos fatos externos: “Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e por que não discernis o tempo presente?” (Lc 12:56). É dito em Aos Pés do Mestre[1] que o discernimento é a primeira qualidade que deve ser desenvolvida no Caminho, pois será necessária a cada passo até a última etapa da iluminação. Ainda que na teoria pareça fácil efetuar a escolha entre o certo e o errado, na prática ela não é tão fácil, porque a mente do homem do mundo está condicionada por toda uma vida, ou melhor, muitas vidas, voltadas para a gratificação dos sentidos e a busca do prazer, poder e posição social. Como a escolha é efetuada pela mente, os conteúdos mentais, principalmente as imagens e condicionamentos do inconsciente, passam a colorir a mente como se fossem lentes através das quais o mundo é percebido pela pessoa. Portanto, o discernimento tem que se tornar um processo consciente comandado pela razão, para que as escolhas não sejam automáticas, comandadas pela memória do passado, que refletem os velhos condicionamentos, geralmente de natureza material.[2] A vontade própria do corpo físico, que prefere o descanso ao trabalho, a vontade do corpo astral, que prefere as emoções fortes das paixões em vez das vibrações mais sutis do coração, a vontade do corpo mental concreto, que medra no orgulho e no egoísmo, são as vozes da natureza inferior que devem ser dominadas pela vontade da natureza superior que discerne entre o certo e o errado e escolhe sempre o que ajuda na evolução da alma. Por isso foi dito: “Discerni tudo e ficai com o que é bom” (1 Ts 5:21). A escolha entre o real e o ilusório, ainda que inicialmente difícil, é somente a primeira etapa do exercício do discernimento. Tão logo haja o despertar espiritual, esses dois pólos tornam-se cada vez mais claros para o aspirante. A nova meta do discernimento passa a ser, então, o estabelecimento de prioridades: escolher dentre duas coisas boas a que for mais importante. Vale mencionar a passagem bíblica em que Marta, ocupada com os afazeres da casa, reclama com Jesus que sua irmã Maria Madalena, em vez de ajudá-la, ficava aos pés do Mestre ouvindo atentamente suas palavras. Jesus, então, disse: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10:41-42). Essa questão é abordada em Aos Pés do Mestre com a linguagem singela e direta que lhe é peculiar: “Precisas distinguir não somente o útil do inútil, mas ainda o mais útil do menos útil. Alimentar os pobres é uma boa obra, nobre e útil; porém, alimentar-lhes as almas é ainda mais nobre e mais útil.”[3] O discernimento deve ser exercitado nas questões mais fundamentais da vida. Para o buscador leigo, ao contrário dos monges protegidos no claustro, as práticas espirituais oferecem algumas dificuldades iniciais. Confrontado com as justas demandas familiares, a pressão da vida profissional no mundo moderno e os atrativos da vida de lazer após um dia cansativo, o buscador pode ter dificuldade em encontrar tempo e energia suficiente para as práticas espirituais em sua rotina diária. São nessas ocasiões que devemos nos lembrar das palavras de Jesus: “Onde está o teu tesouro aí estará também teu coração” (Mt 6:21). Para o verdadeiro buscador não deve haver dúvida quanto à sua prioridade máxima. Se ele for sincero em seus objetivos será sempre possível dedicar uma ou duas horas por dia, ainda que distribuídas em dois ou mais períodos ao longo do dia, para fazer aquilo que mais alegra seu coração, ou seja, aproximar-se cada vez mais do Pai. Por outro lado, a verdadeira vida espiritual requer a devida atenção a nossos deveres, sejam eles profissionais ou familiares, bem como ao cuidado de nosso corpo e mente. Os compromissos assumidos devem ser devidamente cumpridos como parte da vida espiritual. Porém, sempre haverá tempo para as práticas espirituais quando houver interesse, não importa quão ocupados estejamos. Isto pode ser facilmente verificado no caso de pessoas extremamente ocupadas que, por exemplo, quando sofrem um ataque de coração, mudam sua rotina por recomendação médica e passam a dedicar uma ou duas horas por dia ao cuidado da saúde. Devemos encarar os exercícios espirituais como essenciais para a saúde de nossa alma. Ademais, a parte mais importante dos exercícios espirituais é a intenção. Podemos manter praticamente a mesma rotina de vida, tornando-a espiritual, quando dedicamos tudo o que fazemos a Deus. O objetivo último do discernimento é colocar a natureza superior do homem no comando de seu ser, revertendo o hábito estabelecido ao longo de centenas de encarnações de permitir que a natureza inferior decida em função de seus interesses próprios e venha a colher, como sói acontecer, os frutos amargos que resultam de suas escolhas insensatas. Por isso foi dito: “Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação” (1 Cor 11:28-29). Na etapa atual do desenvolvimento da maior parte das pessoas que têm suas vidas ainda governadas pela personalidade, mas que já estão desejosas de seguir o caminho espiritual, as difíceis escolhas que se apresentam a cada passo podem levar os indivíduos a achar que o melhor é não agir. A indefinição causada pela dúvida entre ação e inação só pode ser resolvida pelo discernimento, que é recomendado desde tempos imemoriais. No capítulo quinto do Bhagavad Gita encontramos algumas passagens sobre a ioga da renúncia que podem ser úteis ao buscador interessado em desenvolver seu discernimento. “7. Aquele que está purificado, harmonizado pela Yoga, cujo ser é o Ser de todos os seres, embora execute a ação não é por ela afetado. 10. Aquele que age colocando todas as ações no Eterno abandona o apego e não é mais atingido pelo pecado, assim como o lótus não é pelas águas. 16. Quando a ignorância é destruída pela Sabedoria do Eu, a Sabedoria, como o Sol, resplandece revelando a Suprema Verdade.”[4] As condições de vida dos buscadores leigos oferecem mais incentivos para o desenvolvimento do discernimento do que as dos monges. Os leigos no mundo moderno estão acostumados a questionar tudo, sendo essa uma atitude favorável para desenvolver o discernimento. As ordens monásticas, principalmente no ocidente, exigem tradicionalmente um voto de obediência de seus membros que deve ser cumprido à risca.[5] O indivíduo que se acostuma a obedecer, a seguir regras tradicionais, a não questionar, a esperar a orientação dos superiores tem naturalmente dificuldade para pensar por conta própria e, portanto, para desenvolver o discernimento. O hábito da obediência inquestionável pode levar a sérias implicações, tanto para o indivíduo que se submete ao domínio de outros, como para a sociedade, que acaba arcando com as conseqüências do comportamento de robôs humanos. O discernimento é a grande válvula de segurança da sociedade moderna no processo de busca da verdade, pois impede o domínio de uma mente sobre outra, evitando assim a tirania. Se por um lado a obediência cega às ordens dos superiores hierárquicos é extremamente perigosa para a vida espiritual, a obediência também pode ser entendida de uma forma mais abrangente, como o atendimento à vontade de Deus percebida pelo coração do buscador. É nesse sentido que místicos entendem a obediência como importante, pois, tendo vislumbrado o Reino dos Céus, percebido a vontade do Pai, só podem desejar de todo coração obedecer às mínimas insinuações que lhes sejam feitas em suas visões, como ordens do sábio e compassivo Salvador. O discernimento é imprescindível até mesmo nas atitudes compassivas de tolerância. Quando somos tolerantes com os outros, não precisamos deixar que eles se imponham a nós. Devemos avaliar as circunstâncias e prováveis conseqüências de nossos atos para, então, decidirmos com prudência até que ponto podemos ceder sem causar prejuízos a nós e ao próximo. Essa avaliação requer muito discernimento. Clemente de Alexandria, o grande sábio da Igreja Primitiva disse: “A consciência é o melhor guia para determinar precisamente se deve ser dito ‘sim’ ou ‘não’. A fundação sólida da consciência é uma vida reta juntamente com o aprendizado apropriado,”[6] ou seja o discernimento. O perfeito discernimento só pode ocorrer quando o indivíduo renuncia o egoísmo e age movido pelo dever e orientado pela Sabedoria do Eu superior, buscando sempre fazer a coisa certa sem apegar-se aos resultados da ação. [1] Krishnamurti, Aos Pés do Mestre (S.P.: Editora Pensamento, 1987) [2] Talvez por isso encontramos em Imitação de Cristo: “Não se deve dar crédito a qualquer palavra ou impressão; antes, com prudência e vagar, pondere-se cada coisa, diante de Deus.” Op.cit., pg. 23. [3] Aos Pés do Mestre, op.cit., pg. 21. [4] O Cântico do Senhor (Bhagavad Gita), op.cit., pg. 65-70. [5] “Grande coisa é viver na obediência, às ordens de um superior e não ser senhor de si.” Imitação de Cristo, op.cit., pg. 33. [6] Clemente de Alexandria, Stromateis (Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1991), pg. 26.
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