Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

II. O LADO INTERNO DE UMA TRADIÇÃO 

Os evangelhos canônicos 

Pode parecer estranho, à primeira vista, a referência à Bíblia como uma fonte primária da tradição esotérica, em vista da opinião corrente de que os ensinamentos do Mestre relatados nos evangelhos eram destinados ao grande público, “aos muitos,” e que os ensinamentos internos ministrados aos discípulos não foram incluídos na Bíblia, sendo transmitidos somente pela tradição oral. Esse é um erro muito comum que precisa ser corrigido. 

A palavra ‘bíblia’ (biblia) em grego significa ‘livros’. A Bíblia, portanto, era a expressão coloquial usada para referir-se aos ‘livros’ que haviam sido escolhidos pela Igreja, dentre os muitos evangelhos e documentos existentes, para representar o Cânon,[1] ou seja, a expressão oficial da ‘Boa Nova,’ como referendada pela Igreja. Se houve uma escolha entre diversos documentos, isso significa que alguns ou mesmo muitos documentos foram preteridos pelas autoridades eclesiásticas, apesar de muitos deles terem sido escritos ou compilados por autoridades tão competentes quanto às dos ‘evangelhos canônicos.’ Essa escolha, ou melhor dito, esse veto, deve-se ao fato desses documentos conterem informações ou ensinamentos que divergiam das doutrinas preconizadas pelos bispos mais influentes da época.[2] 

O leigo geralmente associa a palavra Bíblia aos quatro evangelhos. Na verdade, a Bíblia contém o Antigo e o Novo Testamento, sendo esse último o relato da Boa Nova de Jesus, o que em parte explica a idéia popular sobre a Bíblia como sinônimo de evangelho, pois esse termo, ‘evangelho’ (euaggelion), é a palavra grega que expressa a idéia de ‘boa nova’.[3] O Novo Testamento, no entanto, é composto de vinte e sete documentos, dentre os quais os quatro evangelhos ocupam posição de destaque. 

Os três primeiros evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) são referidos como sinóticos porque narram a vida e ministério de Jesus segundo uma ótica semelhante, enquanto o quarto evangelho, atribuído a João, é diferente, sendo considerado esotérico. Dentre os sinóticos, apenas um terço do conteúdo é comum aos três. Cinqüenta por cento do material contido em Lucas é exclusivo, trinta e quatro por cento em Mateus e dez por cento em Marcos. Daí, admitir-se que a redação de Marcos precedeu a dos outros dois, que se apoiaram nele no que diz respeito aos relatos sobre a vida de Jesus. 

A autoria dos evangelhos nem sempre é bem explicada aos leigos. Cada evangelho não é o produto monolítico de um único autor. Na verdade, sabemos hoje em dia que eles são o fruto da contribuição de vários autores, ao longo de muitos anos, tendo passado por diferentes versões até chegar ao formato atual. A autoria, no entanto, é atribuída ao autor que, de acordo com a tradição, teria fornecido a primeira camada ou versão da parte principal da obra. Esses fatos são admitidos até mesmo pelas autoridades eclesiásticas.[4] 

A versão atual do Evangelho de São João também passou por um complexo processo de incorporação e editoração semelhante aos sinóticos. Para muitos ele incorpora uma fonte anterior, um Evangelho de Sinais.[5] Na Introdução da Bíblia de Jerusalém ao Evangelho segundo São João, somos informados que: 

“A ordem na qual se apresenta o evangelho cria certo número de problemas.  É possível que essas anomalias provenham do modo como o evangelho foi composto e editado: com efeito, ele seria o resultado de uma lenta elaboração, incluindo elementos de diferentes épocas, bem como retoques, adições, diversas redações de um mesmo ensinamento, tendo sido publicado tudo isso definitivamente, não pelo próprio João, mas, após sua morte, por seus discípulos; dessa forma, estes teriam inserido no conjunto primitivo do evangelho fragmentos joaninos que não queriam que se perdessem, e cujo lugar não estava rigorosamente determinado.”[6] 

Os estudiosos bíblicos concordam que a redação dos evangelhos como os conhecemos hoje, pelo menos os de Mateus, Lucas e João, resultaram da estruturação dos ensinamentos de Jesus na sua tradicional forma de logia e parábolas, dentro de um arcabouço do que seria a história da vida de Jesus. Foi essencialmente essa combinação que criou toda uma série de problemas de interpretação bíblica, que perdura até hoje. Tanto as logia como os relatos da história do Cristo tinham uma grande importância simbólica e, certamente, foram escritos originalmente sob inspiração. Infelizmente, mesmo assim, as autoridades eclesiásticas querem a todo custo que o texto bíblico seja interpretado como um relato da história de Jesus, devendo ser aceito literalmente. 

Sabemos, no entanto, que a opinião oficial da Igreja quanto a historicidade dos evangelhos não é a mesma apresentada internamente entre os membros mais esclarecidos do clero. Um douto padre católico, professor de teologia, que pediu para permanecer anônimo, escreveu ao autor, com seus comentários a uma versão preliminar deste texto: “a interpretação simbólica e alegórica esteve em voga entre os Santos Padres desde os primeiros tempos da Igreja. Não é nenhum segredo na Igreja Católica que a Bíblia está repleta de mitos, símbolos e alegoria que precisam ser interpretados. Já o Papa Pio XII dissera que seria preciso levar em consideração os gêneros literários na Bíblia, somente uma pequena parte dos quais é historiografia.”  

Para o estudante do lado esotérico da tradição cristã deve ficar claro que tanto as parábolas e os ditados de Jesus, como a vida do Cristo devem ser interpretados de acordo com certas chaves da milenar simbologia sagrada. Os relatos da vida do Cristo devem ser entendidos como servindo a um propósito ainda mais transcendente do que os dados biográficos da vida de Jesus. O fato de a Bíblia ter sido escrita em linguagem simbólica apresenta um certo perigo para o leitor moderno. Esse perigo reside nas traduções e adaptações que periodicamente são feitas com o propósito de tornar a linguagem da Bíblia mais acessível ao público. Adaptações da linguagem e das imagens utilizadas seriam úteis se a Bíblia contivesse meramente um relato histórico ou uma coletânea de estórias. No entanto, esse não é o caso. Traduções, adaptações e tentativas de modernização da linguagem invariavelmente modificam os símbolos e as alegorias dos relatos, deturpando ou obscurecendo a mensagem velada por trás do simbolismo. 

O Cristo é um ser divino que se encontra de forma latente ou pouco ativa no coração de cada um de nós. Cristo, porém, revelou a plenitude de sua estatura no personagem histórico Jesus. No entanto, a grande importância da história do Cristo, não são os poucos fragmentos da historiografia de Jesus, mas sim a revelação dos estágios avançados da evolução da alma, que passa por cinco grandes iniciações: nascimento, batismo, transfiguração, crucificação e ressurreição e, finalmente, a ascensão. Esses estágios anteriormente só eram revelados em segredo nos ritos dos Mistérios Maiores. Portanto, os relatos da vida do Cristo oferecem um precioso mapa do tesouro para todo aspirante que deseja seguir o Mestre. O que está sendo relatado são os grandes marcos da vida espiritual de cada um de nós, a história viva de cada alma que um dia chegará a se tornar um Cristo, e não simplesmente a história de um grande personagem do passado. Uma interpretação iniciática da vida do Cristo é apresentada no último capítulo deste livro. 

A redação final dos evangelhos tendeu a enfatizar os relatos da vida do Cristo, minimizando a importância de seus ensinamentos. Vê-se, assim, que os evangelhos canônicos não apresentam os ensinamentos de Jesus em sua forma original, como também não apresentam todos os ensinamentos do Mestre. Isso é dito, de forma alegórica, ao final do Evangelho de João: “Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam” (Jo 21:25). Não sabemos ao certo porque os evangelhos omitem muitos ensinamentos de Jesus: se devido à ausência de registro por parte de seus discípulos, o que não parece verossímil, em virtude da existência da tradição oral, ou por terem sido deliberadamente excluídos, pelo fato de não serem compreendidos pelos editores finais dos evangelhos ou, ainda, por apresentarem contradições com a doutrina da Igreja que já estava em processo de elaboração. 

Qualquer curioso pode obter prova insofismável de que existem muitos ensinamentos perdidos de Jesus, alguns certamente de caráter oculto, a partir de um estudo atento do Novo Testamento.[7] Um autor declara: “Em comparação com o número de vezes em que afirmam que Jesus lecionou, uma quantidade surpreendentemente pequena de versículos menciona que lições foram essas. Alguns escritores relatam que Jesus ensinou durante várias horas, mas não incluem uma só palavra sobre o que foi dito.”[8] Um exemplo flagrante é a passagem da multiplicação dos pães, em que Jesus ensinou à multidão por grande parte do dia, mas nada é relatado sobre o que foi dito, além do lacônico comentário de Lucas no sentido de que Jesus ‘falou-lhes do Reino de Deus’ (Lc 9:11). 

A maioria das igrejas cristãs prega que a Bíblia é isenta de erros e que os autores dos evangelhos foram divinamente inspirados;[9] assim, todas as palavras deste livro devem ser aceitas literalmente e sem discussão.[10] Na Igreja Católica, um corolário dessa posição é a infalibilidade de seu magistério. As igrejas protestantes, em sua grande maioria, encamparam a proposição da Igreja de Roma. 

Essa posição dogmática prestou um grande desserviço à nossa herança cristã. Os leigos, face às inúmeras contradições encontradas na Bíblia, quando lida literalmente, desistem de interpretá-la e entendê-la,[11] refugiando-se na premissa de que todos esses assuntos são dogmas de fé e devem ser aceitos, até mesmo quando a razão protesta. Com isso a verdadeira mensagem da Bíblia, que está encoberta por um véu de alegoria, foi inicialmente colocada de lado e finalmente esquecida.[12] Dessa forma, os ensinamentos do Mestre, com sua mensagem salvífica, foram, na prática, relegados a segundo plano. Essa atitude perdura até os dias de hoje como atesta um autor moderno pertencente ao clero romano: “Uma das primeiras características da leitura cristã da Bíblia, é considerar esta última como um livro de história, não como uma coleção de pensamentos -- uma história cujo centro é Cristo.”[13] 

Contrastando com essa posição ortodoxa temos a opinião de um profundo estudioso da matéria, o bispo Leadbeater da Igreja Católica Liberal: 

“A partir destes poucos (textos mal traduzidos, a Bíblia), foi edificada uma estrutura insegura de uma doutrina desarrazoada que, examinada à luz da razão, mostra-se imediatamente indefensável. O verdadeiro e nobre ensinamento do Cristo está bem claro nas própria escrituras. Elas nos falam constantemente de uma doutrina oculta que não foi revelada ao público. Há muito tem sido costume negar isso e ostentar que o cristianismo nada contém que esteja além do alcance do intelecto mais mediano. É seguramente uma vergonha para o cristianismo dizer que não há nada nele para o homem que pensa.”[14] 

O primeiro passo, portanto, para que se possa resgatar os ensinamentos esotéricos de Jesus que se encontram no Novo Testamento é estabelecer firmemente a premissa de que tanto os relatos sobre a vida de Jesus como seus ensinamentos devem ser interpretados, e que as chaves para essa interpretação podem ser obtidas. Essa premissa não é uma posição moderna. Já no segundo século de nossa era, Clemente de Alexandria, um dos mais respeitados e cultos padres da Igreja primitiva, ensinava que devemos procurar entender a mensagem essencial de Jesus por trás dos relatos dos evangelhos e da tradição oral:  

“Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência, devemos buscar e aprender o significado oculto neles.”[15]  

Em outra ocasião Clemente indicou que existe um significado secreto nos ensinamentos de Jesus e que os mistérios da fé não devem ser divulgados a todos, portanto, como “essa tradição é relatada exclusivamente àquele que percebe o esplendor da palavra, é necessário ocultar num Mistério a sabedoria divulgada que o Filho de Deus ensinou.”[16] 

Nesse século, Geoffrey Hodson, outro grande erudito da Bíblia, produziu um estudo monumental sobre o significado oculto das escrituras sagradas.[17] Em suas palavras,  

“Aqueles que consideram as escrituras e mitologias do mundo como uma combinação de história, alegoria e símbolo evidenciam que respostas plenas para essas e outras questões urgentes relativas à vida humana, experiências e destino estão contidas debaixo da superfície dos textos escriturais. Eles afirmam, ademais, que tais respostas são dadas plenamente ali com significados subjacentes, e que a impotência relativa do cristianismo ortodoxo de hoje na presença dos males mundiais tão evidentes é devida à insistência oficial na crença da Bíblia como revelação divina, verbal, desde o Gênesis até o Apocalipse. Se a ortodoxia estivesse disposta a examinar as escrituras como parábolas, que revelam verdades e leis espirituais, ao invés de insistir em que o texto, em sua interpretação literal, é expressão divina e, portanto, verdade absoluta, ela não estaria sujeita aos ataques que lhe são desferidos.  Quando, além disso, a crença implícita na letra da Bíblia está estabelecida como essencial à salvação da alma, é intensificada uma natural repulsão da aceitação de dogmas, alguns dos quais violam o fato e a possibilidade.”[18] 

Os maiores estudiosos da Bíblia insistem que ela é uma fonte de ensinamentos ocultos e, como todas as escrituras sagradas, deve ser interpretada de acordo com uma simbologia milenar conhecida dos grandes seres que foram inspirados a escrevê-las.[19] Essas verdades sempre foram conhecidas dos sábios da tradição oculta judaica, como indicam as palavras de Moses Maimonides, um grande talmudista e historiador do século XII de nossa era: 

“Cada ocasião em que você encontra em nossos livros um conto cuja realidade parece impossível, uma história que é repugnante à razão e ao bom senso, então esteja certo de que ela contém uma imperscrutável alegoria velando uma profunda verdade misteriosa; e quanto maior o absurdo da letra, mais profunda a sabedoria do espírito.”[20] 

Mais contundente ainda é a admoestação do livro sagrado da sabedoria esotérica da Cabala, o Zohar, que diz: 

“Ai ... do homem que vê na Torá, isto é, na Lei, somente simples exposições e palavras usuais! Porque, se na verdade ela somente contém isso, nós igualmente seríamos capazes hoje de compor uma Torá muito mais merecedora de admiração ... As narrativas da Torá são as vestimentas da Torá. Ai daquele que toma essas vestimentas como sendo a própria Torá! ... Existem algumas pessoas tolas que, vendo um homem coberto com uma bela roupa, não levam sua consideração mais além e tomam a vestimenta pelo corpo, enquanto lá existe uma coisa ainda mais preciosa, que é a alma... Os sábios, os servidores do Rei Supremo, aqueles que habitam as alturas do Sinai, estão ocupados exclusivamente com a alma, que á a base de todo o resto, que é a própria Torá; e no tempo vindouro eles serão preparados para contemplar a Alma daquela Alma (i.e. o Deus) que sopra na Torá.”[21] 

O enfoque de que a Bíblia deve ser interpretada como um repositório de alegorias sobre assuntos espirituais, contrasta com a posição assumida por um segmento importante dos eruditos bíblicos deste século. A tendência moderna é a busca do Jesus histórico, iniciada por Schweitzer no início do século,[22] impulsionada por Bultmann, um teólogo que procurou salvar o edifício da ortodoxia das insistentes investidas da ciência e da história com sua proposta de depurar a Bíblia de seus elementos mitológicos,[23] e consolidada mais recentemente pelos membros do ‘Seminário sobre Jesus’ que chegaram a propor uma versão do Novo Testamento, sugerindo quatro categorias para classificar as palavras atribuídas a Jesus e concluíram, depois de sete anos de trabalho, que provavelmente mais de oitenta por cento das palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos não seriam autênticas, ainda que muitas pudessem expressar suas idéias.[24] 

A busca do Jesus histórico deve ser vista como uma saudável oscilação do pêndulo da verdade, afastando-se da posição extremada da ortodoxia que, desde os primórdios do estabelecimento de sua posição, insistia que a Bíblia era inexpugnável e que devia ser interpretada literalmente, exceto quando uma interpretação mítica era apresentada pela própria Igreja para justificar os dogmas estabelecidos. A busca do Jesus histórico vem possibilitando o acúmulo de muitas informações esclarecedoras sobre a cultura da Palestina helenizada do tempo de Jesus, bem como uma pletora de dados novos sobre os relatos da Bíblia tornados possíveis pelo novo instrumental usado pela crítica bíblica moderna, incluindo até mesmo a forma literária dos originais gregos conhecidos.

No entanto, como a história nos ensina, o pêndulo retificador tende a oscilar para o outro extremo quando as resistências às mudanças são demasiado fortes, necessitando o uso de força considerável para vencer a oposição de posições consideradas imutáveis por vários séculos. Isso ocorreu, por exemplo, com o movimento feminista neste século, o movimento para a dissolução dos impérios coloniais e o movimento pela igualdade de direitos de todos os grupos raciais e étnicos. Porém, a providência divina, em sua inexorável tendência para a harmonia, faz com que, no seu devido tempo, as posições extremadas dêem lugar a posições mais abrangentes e harmônicas. Assim, a busca pelo Jesus histórico deverá passar por nova fase em que será incorporada em sua metodologia o estudo da simbologia milenar das escrituras sagradas e procurar-se-á encontrar a verdade sobre o ministério de Jesus e não a mera subserviência às posições dogmáticas da Igreja. 

Em seu estudo ímpar sobre a interpretação da vida e dos ensinamentos de Jesus, Geoffrey Hodson alerta que Jesus foi realmente um personagem histórico, e que a Bíblia inclui alguns incidentes sobre sua vida na Palestina. Porém, esse autor insiste que o importante não é o fato histórico, mas sim seu significado místico: 

“Os evangelhos, particularmente os sinóticos e S. João, são muito mais documentos místicos do que históricos. Essa é a idéia que falta em todas as exposições da estória evangélica. A ênfase é colocada erroneamente sobre o histórico, quando deveria ser posta sobre o Jesus místico, o veículo escolhido, o maravilhoso jovem hebreu sobre cuja vida, imperfeitamente registrada, toda a estrutura do cristianismo está fundada. As muitas passagens lembrando os ensinamentos profundamente esotéricos de Jesus, inclusive o sermão da montanha, estão entre as jóias preciosas da sabedoria que ele legou à humanidade em geral e, especialmente, a todos os aspirantes, para os quais a história de sua vida pretende descrever a plena experiência e realização espiritual. Assim considerada, a historicidade, ainda que seja importante num sentido, cede lugar inteiramente ao reconhecimento da pérola inestimável de sabedoria que o relato evangélico contém”.[25] 

Tendo em vista essas considerações, partimos da hipótese de que Jesus, seguindo a tradição milenar dos grandes Mensageiros da Luz, incluiu em sua mensagem todos os ensinamentos necessários para despertar os que estão mortos para o Espírito e preparar progressivamente os peregrinos para que possam encontrar e, finalmente, trilhar a Senda da Perfeição para, no seu devido tempo, ingressar no Reino dos Céus. Esse trabalho em dois níveis, o ministério público e a instrução interna dos discípulos, exigiu, por parte de Jesus, um cuidado todo especial para que os segredos do ‘Reino’ não fossem divulgados abertamente aos muitos, pois esses não estavam preparados para recebê-los. Isso explica porque Jesus pregava ao público por meio de parábolas e metáforas, que incluíam verdades profundas para os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir. 

Porém, como efetuar essa interpretação? Algumas chaves para a interpretação das escrituras alegóricas são conhecidas: 

  • Todos os eventos registrados, supostamente históricos, também ocorrem interiormente. Cada evento descreve uma experiência subjetiva do homem.

  • Cada pessoa que figura proeminentemente na história representa uma condição da consciência e uma qualidade de caráter.

  • Cada estória é considerada como descrição da experiência da alma ao passar por certas fases da sua jornada evolutiva para a Terra Prometida. Quando os seres humanos são os heróis, a vida do homem no seu estágio normal de desenvolvimento está sendo descrita. Quando o herói é semidivino, a tônica é colocada sobre o progresso do Ser divino no homem depois dele ter começado a assumir poder preponderante. Quando, entretanto, a figura central é um Mensageiro Divino ou descendente de um aspecto da Deidade, suas experiências narram aquelas do Eu Superior nas últimas fases da evolução do homem divino em direção à estatura do homem perfeito.

  • Todos objetos e certas palavras têm significado simbólico especial. A linguagem sagrada das Escolas de Mistério é formada de hierogramas e símbolos mais do que de palavras, sendo o seu significado constante no tempo e no espaço.[26] 

Assim, cientes de que a Bíblia esconde um tesouro de informações que podem ser desveladas com base no estudo das alegorias e símbolos conhecidos, consideramos o Novo Testamento como uma das fontes do lado interno da tradição cristã.


[1] A palavra cânon vem do grego kanwn, que significava originalmente junco ou bambu usado para medir. Mais tarde, o sentido de medida assume uma conotação genérica de regra, preceito, praticamente de lei. Passou a ser usada pela Igreja com o significado de norma, regra de conduta, padrão, sendo nesse sentido que o termo ‘evangelhos canônicos’ era usado. Esse cânon tornou-se particularmente importante em vista da disputa entre a nascente hierarquia da Igreja e os grupos gnósticos, que, ao que tudo indica, estavam aliciando um número crescente de simpatizantes com suas doutrinas e seus evangelhos (Vide W. Schneemelcher, ed., New Testament Apocrypha (Louisville, USA: Westminster/John Knox Press, 1991), pg. 10-12.

[2] Uma das primeiras listas de documentos ‘canônicos,’ algo parecido com o Novo Testamento atual, foi proposta pelo Bispo Irineu, de Lion, com o beneplácito de alguns colegas, por volta de 180 d.C. Dois séculos mais tarde, o Bispo Athanasius preparou uma lista semelhante, ratificada pelos concílios de Hippo e de Cartago (M. Baigent, R. Leigh e H. Lincoln, Holy Blood, Holy Grail N.Y.: Dell, 1982), pg. 318. Uma abrangente história do ‘cânon’ da Igreja é apresentada no livro New Testament Apocrypha (op.cit., pg. 34-42).

[3] O termo ‘evangelho’ aparece muito pouco no Antigo Testamento e, mesmo assim, sem nenhuma conotação técnica, sendo usado para vários tipos de mensagens. Nas epístolas de Paulo, que são os primeiros documentos da tradição cristã, tanto o substantivo como o verbo (euaggelizesqai) adquiriram a conotação técnica referente à mensagem cristã e à sua proclamação. No Evangelho e nas Epístolas de João, nem o substantivo nem o verbo são usados, o que para os estudiosos é mais uma indicação de que a comunidade joanina estava fora da esfera de influência da área missionária de Paulo. Ainda que o termo seja usado nos sinóticos, nem sempre parece expressar exatamente a mesma coisa (Vide H. Koester, Ancient Christian Gospels: their history and development (Philadelphia, Pa.: Trinity Press, 1990, pg. 1-48).

[4] Vide a introdução aos evangelhos sinóticos na Bíblia de Jerusalém, a versão mais atualizada da Bíblia, preparada por uma grande equipe de teólogos com o respaldo oficial e o imprimatur do Vaticano.

[5] R. Funk e R. Hoover, The Five Gospels. The search for the authentic words of Jesus (N.Y.: Macmillan, 1993), pg. 16.

[6] Bíblia de Jerusalém (S.P.: Edições Paulinas, 1993), pg. 1981

[7] Por exemplo, as seguintes passagens indicam que Jesus ensinava sem, no entanto, mencionar o que ele dizia: Mt 9:35, Mt 15:34, Mt 16:21, Mc 1:21, Mc 1:39, Mc 2:2, Mc 2:13, Mc 6:2, Mc 6:6, Mc 8:31, Lc 2:46-47, Lc 4:15, Lc 4:31, Lc 4:44, Lc 5:17, Lc 5:3, Lc 6:6, Jo 4:40-42. Outras passagens registram umas poucas palavras, porém não todo o ensinamento de Jesus: Mt 4:17, Mt 4:23-25, Mt 10:27, Mt 21:23-46, Mc 1:14-15, Mc 4:33-34, Mc 10:1-52, Lc 13:10-21, Lc 13:22-35, Lc 20:1-47, Jo 7:14-53, Jo 8:2-59.

[8] M.L. Prophet e E.C. Prophet, Os Ensinamentos Ocultos de Jesus (R.J.: Nova Era, 1997), pg. 18

[9] Essa concepção não poderia estar mais longe da verdade quando consideramos que a Bíblia sofreu inúmeras modificações ao longo dos séculos, seja por parte de editores agindo por conta própria, seja por decisões em concílios. A maior sistematização dos textos, porém, ocorreu por ocasião do Concílio de Niceia, em 325, convocado e presidido pelo imperador Constantino, em virtude de crescentes dissensões sobre questões de fé que tinham importantes implicações políticas. Graças à autoridade do imperador, que seguidamente tinha que moderar discussões entre bispos exaltados e arbitrar soluções sobre questões doutrinárias sobre as quais quase nada conhecia, foi possível selecionar aqueles textos que viriam formar a base dos evangelhos a serem incluídos na Bíblia, os quais, mais tarde, ainda sofreram modificações. “Constantino, que tratava as questões religiosas somente do ponto de vista político, assegurou a unanimidade banindo todos os bispos que não quiseram assinar a nova profissão de fé.” (W. Nigg, The Heretics: Heresy Through the Ages (N.Y.: Dorset Press, 1962), pg. 127).

[10] Vide R.W. Funk, Honest to Jesus (Harper San Francisco, 1996), pg. 49-50

[11] A tentativa de entendimento da Bíblia por parte dos leigos é  fato recente na história. Um corolário dos dogmas e da manipulação da Bíblia é que a própria Igreja temia que os leigos e até mesmo o clero “estudasse” seus livros sagrados. O Papa Gregório I, conhecido como Gregório o Grande, durante seu papado de 590 a 604 condenou a educação para todos, a não ser o clero. Proibiu os leigos de lerem até mesmo a Bíblia e mandou queimar a biblioteca de Apolo Palatino, para que ‘a literatura secular não distraísse os fieis da contemplação do céu’. Essa ojeriza da ortodoxia aos livros já havia custado à humanidade a perda da imensa biblioteca de Alexandria, queimada pelos cristãos em 391, com todo seu acervo de aproximadamente 700.000 papiros e milhares de livros, incluindo as obras dos gnósticos como Basílides, Valentino e Porfírio (Helen Ellerbe, The Dark Side of Christian History, San Rafael, CA: Morningstar Books, 1995, pg. 46-48). “No princípio da Idade Média os dominicanos tomaram a posição simplista de proibir absolutamente a leitura da Bíblia, a não ser nas versões deformadas que autorizavam; e todos os que não obedeciam eram afastados da Igreja.” (Isabel Cooper-Oakley, Maçonaria e Misticismo Medieval, S.P., Pensamento, pg. 16).

[12] Um padre católico, escreve: “Um perigo, Jung alertou, é que a religião como credo perde contato com a proximidade da experiência. Formas codificadas e dogmatizadas da experiência religiosa original tendem a tornar-se idéias rígidas, elaboradamente estruturadas, que tendem a esconder a experiência. Quando isso ocorre, a religião torna-se uma atividade totalmente fora da experiência pessoal.” John Welch, Spiritual Pilgrims ( N.Y.: Paulist Press, 1982), pg. 79.

[13] Monge Pierre-Ives Emery, A Meditação na Escritura, em Frei Raimundo Cintra, Mergulho no Absoluto (S.P.: Edições Paulinas, 1982), pg. 249.

[14] A Gnose Cristã, op.cit., pg. 89.

[15] Clemente de Alexandria, On the Salvation of the Rich Man 5, em A. Roberts and J. Donaldson, eds., The Ante-Nicene Fathers: Translations of the Writings of the Fathers down to a.D. 325, Reprinted (Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1981), vol. II, pg. 592.

[16] Clemente de Alexandria, Stromata, vol. I, cap. xxi, pg. 388.

[17] Geoffrey Hodson, The Hidden Wisdom in the Holy Bible (Wheaton, Illinois: The Theosophical Publishing House, 1963), quatro volumes.

[18] The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg. 6.

[19] Peter Roche de Coppens, referindo-se à linguagem da Bíblia, escreve: “Ela é a linguagem simbólica e analógica dos Sábios, usada para descrever visões, intuições e êxtases obtidos em estados alterados de consciência, num estado de iluminação ou de consciência espiritual; ela á a língua esquecida da Mente Profunda, a linguagem das imagens, arquétipos e mitos que têm tantos significados diferentes e interpretações possíveis como existem estados de consciência, níveis de evolução e biografias pessoais.” Divine Light and Fire, op.cit., pg. 7.

[20] The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg. xii.

[21] The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol I, pg. xii-xiii.

[22] Vide Albert Schweitzer, The Quest of the Historical Jesus: a Critical Study of Its Progress from Reimarus to Wrede (N.Y.: Macmillan, 1961), publicado originalmente em 1906.

[23] Rudolf Bultmann, “New Testament and Mythology” em Kerygma and Myth (N.Y.: Harper & Row, 1961), pg. 1-44.

[24] Vide a obra editada por R. Funk e R. Hoover The Five Gospels. The search for the authentic words of Jesus (N.Y.: Macmillan, 1993).

[25] The Life of Crist from Nativity to Ascension, op.cit., pg. 315

[26] Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg  85-99.

 

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