Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS

25 - PRÁTICA DAS VIRTUDES 

Humildade 

O desenvolvimento da humildade é especialmente importante para os discípulos que começam a fazer progresso no Caminho. Essas pessoas, tendo passado por purificações rigorosas, efetuado renúncias penosas, estudado longas horas e praticado regularmente a meditação, sentem, com razão, que já fizeram algum progresso ao deixar para trás suas fraquezas mais grosseiras. Além disso, seus estudos e meditações possibilitam um maior entendimento das verdades eternas. Essas são, no entanto, as circunstâncias favoráveis, o solo fértil, para o crescimento do orgulho, a pior erva daninha no jardim de virtudes do discípulo.[1] 

O orgulho exacerba o sentimento de separatividade. O orgulhoso julga-se melhor do que os outros, por isso sente-se superior aos demais. Quando está acometido desse desequilíbrio de percepção da realidade, o orgulhoso torna-se vítima da vaidade, procurando todas as oportunidades para mostrar o conhecimento adquirido e as suas supostas virtudes. É dito que o orgulho já fez tropeçar muitos discípulos avançados, que não só caíram, mas que se juntaram aos Irmãos da Mão Esquerda, tendo condenado suas almas a um infortúnio indescritível. Por isso é dito que: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4:6). 

O buscador intelectual que, com o tempo, passa a ser conhecido como erudito ou especialista, sendo cortejado e constantemente solicitado a dar orientação espiritual, proferir palestras e escrever sobre assuntos de natureza espiritual, é vítima fácil do orgulho. São esses e todos aqueles que recebem dons especiais, tais como vidência, clariaudiência ou cura, os que devem ficar especialmente atentos às palavras do Mestre: “Àquele a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mais será reclamado” (Lc 12:48). Portanto, os que já fizeram algum avanço num determinado aspecto da busca, em vez de sentirem-se orgulhosos, deveriam humildemente verificar se estão fazendo jus aos dons que receberam da Providência Divina.[2] 

Segundo um velho adágio, “os loucos se precipitam onde os anjos temem entrar,” por isso pode-se ver o quanto o desenvolvimento da verdadeira humildade é ajudado pelo discernimento. Enquanto o orgulhoso tende a olhar para baixo e se comparar com os que estão em situação inferior em termos de realização, o humilde prefere olhar para cima, procurando perceber como ainda está distante dos irmãos mais velhos da humanidade que alcançaram a perfeição. Se fizermos isso com honestidade, veremos que a distância que nos separa dos Mestres é muitíssimo maior do que a que nos separa dos nossos desafortunados irmãos menos preparados prisioneiros da sensualidade e da maldade, que servem como referência para nossos sentimentos de grandeza.  

Se estudarmos a vida dos grandes seres, veremos que eles nunca demonstram orgulho, empáfia ou intolerância. A verdadeira grandeza de seu caráter vem acompanhada de uma humildade e mansidão naturais, pois o Mestre sabe que toda virtude vem de Deus, do Pai que habita em nosso interior e para o qual servimos de instrumento para a manifestação divina. Lao Tsê já dizia a esse respeito:  “A virtude suprema é como a água. A água e a virtude são benfazejas a milhares de criaturas. Elas ocupam os lugares mais baixos, que os homens detestam. Ocupam-se onde ninguém quer permanecer.”[3] 

Estamos falando, porém, da verdadeira humildade, que implica na habilidade de discernir aquelas áreas em que estamos melhor preparados para ajudar nossos irmãos e aquelas em que não temos esta capacitação. Muitos aspirantes, inclusive certos religiosos, entregam-se à falsa humildade quando, com suas fanáticas e desequilibradas asceses castigam o corpo e humilham a personalidade, demonstrando com isto orgulho de ser mais humildes de que seus outros irmãos mais comedidos na virtude. 

A humildade é uma das virtudes favoritas da tradição cristã em geral e das ordens religiosas em particular.[4] Numa das ordens monásticas mais antigas e mais influentes no mundo católico, a beneditina, fundada por S. Bento no final do século V e inspirada na experiência de S. Pacômio, o organizador das comunidades cenobitas do século IV, das quais se originaram várias ordens monásticas posteriores, as regras de conduta eram bem rigorosas no que tange a humildade. Os graus de humildade preconizados pela ordem são apresentados a seguir, de forma resumida, usando na medida do possível as palavras de seu manual. 

“(1) Pondo sempre o monge diante dos olhos o temor a Deus, evite, absolutamente, qualquer esquecimento e esteja, ao contrário, sempre lembrando de tudo o que Deus ordenou. (2) Não amando a própria vontade, não se deleite o monge em realizar os seus desejos, mas imite nas ações aquela palavra do Senhor: ‘Não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou’ (Jo 6:38). (3) Por amor de Deus, submeta-se o monge, com inteira obediência, ao superior. (4) No exercício dessa mesma obediência, abrace o monge a paciência de ânimo sereno nas coisas duras e adversas mesmo que se lhe tenham dirigido injúrias. (5) Não esconda o monge ao seu abade os maus pensamentos que lhe vêm ao coração ou o que de mal tenha cometido ocultamente. (6) Esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema, e em tudo que lhe seja ordenado fazer se considere mau e indigno operário. (7) O monge se diga inferior e mais vil que todos, não só com a boca, mas também o creia no íntimo pulsar do coração. (8) Só faça o monge o que lhe exortam a regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores. (9) Negue o falar à sua língua, entregando-se ao silêncio, nada diga, até que seja interrogado. (10) Não seja o monge fácil e pronto ao riso. (11) Quando falar, faça-o suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz. (12) Não só no coração tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no próprio corpo; quer esteja sentado, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, considerando-se a cada momento culpado de seus pecados.”[5] 

Na literatura dos padres da igreja primitiva, preservada no compêndio conhecido como Philokalia,[6] há inúmeras referências à humildade, destacando-se uma passagem de St. Hesychios, o Padre. 

“Como a humildade é por natureza algo que enobrece, algo que é amado por Deus, que destrói em nós quase tudo que é mal e odioso a Ele, por essa razão ela é difícil de ser atingida. Ainda que seja possível encontrarmos alguém que de alguma forma pratique muitas virtudes, dificilmente descobriremos o odor de humildade nele, não importa o quanto procuremos. A humildade é algo que só pode ser adquirido com muita diligência. Na verdade, as Escrituras referem-se ao diabo como ‘imundo’ porque desde o princípio ele rejeitou a humildade e assumiu a arrogância. 

“Se estamos preocupados com a nossa salvação, há muitas coisas que o intelecto pode fazer para nos assegurar essa dádiva abençoada da humildade. Por exemplo, podemos lembrar-nos dos pecados que cometemos por palavra, ação e pensamento. A verdadeira humildade também é realizada pela nossa meditação diária sobre as realizações de nossos irmãos, pela exaltação de suas superioridades naturais e pela comparação de nossos dons com os deles. Quando o intelecto percebe dessa forma como somos destituídos de mérito e como estamos longe da perfeição de nossos irmãos, passaremos a nos considerar como pó e cinza, e não como homens, mas como um tipo de cão vadio, com mais defeitos sob todos os aspectos e inferior a todos os homens na terra.”[7] 

        Para ser verdadeiramente humilde, o homem deve renunciar ao que considera mais valioso, ou seja, às suas conquistas interiores. Assim fazendo, ele renuncia os louros das vitórias passadas e vive com afinco no presente, com os olhos fixos na meta de perfeição indicada para o futuro. E como a essência da perfeição é a consciência da unidade, sabemos que ela não pode ser alcançada enquanto o discípulo tiver algum resquício de sentimento de separatividade, ou seja, de orgulho. Portanto, a humildade afasta as negatividades do coração assim como uma lâmpada dispersa a escuridão de uma sala.  

Uma forma efetiva de promover a humildade é creditar todas as nossas realizações ao Mestre, ao Cristo interior, de quem recebemos inspiração para a realização das tarefas mais sublimes e importantes em nossa vida. Qualquer que seja a habilidade pessoal de que mais nos orgulhemos, ela nada mais é do que uma pálida manifestação da criatividade do Eu Superior. Se agradecermos o Mestre por esse dom estaremos nos conscientizando de que nada mais somos do que um canal para a expressão da energia criativa do Cristo, a quem todo o sucesso em nossa vida deve ser creditado.[8] Por isso Jesus dizia: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas” (Mt 11:29).


[1] Vide A Different Christianity, op.cit., pg. 189.

[2] “Sê humilde se queres adquirir sabedoria; sê mais humilde ainda quando a tiveres adquirido. Sê como o oceano que recebe todos os rios e riachos. A calma imensa do oceano não se perturba, recebe-os e não os sente.” A Voz do Silêncio, op.cit., pg. 91.

[3] Lao Tsê, O Livro do Caminho Perfeito (Tao Tê Ching), (S.P.: Pensamento)

[4] Em Imitação de Cristo é dito: “Deus protege e livra ao humilde; ama-o e consola-o; inclina-se para ele; dá-lhe abundantes graças e, depois do abatimento, eleva-o à glória, descobre-lhe seus segredos e, com doçura, a si o atrai e convida.” Op.cit., pg. 114.

[5] Claude Jean-Nesmy, São Bento e a vida monástica (RJ: Livraria Agir Editora, 1962), pg. 132-37.

[6] Palmer, Sherrard & Ware (tr. e ed.), The Philokalia (Londres: faber and faber, 1979), 5 vol.

[7] The Philokalia, op.cit., Vol I, pg. 173-74.

[8] No livro Imitação de Cristo esta prática é formulada da seguinte forma: “Considera cada coisa de per si como derivada do sumo bem; e, por isso, tudo se deve atribuir a mim (Cristo), como à sua origem. De mim, como fonte perene, o pequeno e o grande, o rico e o pobre tiram água viva; e os que me servem recebem graça sobre graça.” Op.cit., pg. 198.

 

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