Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS 

O cristão devoto, desejoso de seguir os passos do Mestre, defronta-se com uma barreira quase intransponível de desinformação a respeito do instrumental transformador disponível em nossa tradição. Os ensinamentos da igreja, ao longo dos séculos, não foram de muito ajuda para seus fiéis. Ao contrário, as instruções e normas eclesiásticas dificultaram o trabalho dos buscadores leigos que não tinham o amparo da literatura e da tradição das ordens religiosas, principalmente das monásticas.  

A orientação tradicional normalmente dada aos leigos era ter fé nos dogmas da igreja, ir à missa todos os domingos e dias santos, confessar, comungar, rezar, não pecar e, uma vez feito tudo isto, ter mais fé ainda na Graça de Deus para que pudessem receber a devida recompensa na outra vida, no paraíso. A necessidade de autotransformação não era enfatizada. O estudo não era incentivado. Na verdade, por muitos séculos a igreja romana proibiu aos leigos a leitura da Bíblia e preconizou que o estudo de outros livros, que não aqueles poucos publicados com sua permissão, era extremamente perigoso e podia desencaminhar a alma, levando-a para o inferno.[1] 

As práticas espirituais complementares abertas aos leigos tendiam a promover a devoção e não a razão e o entendimento, como as ladainhas, procissões e romarias. Os protestantes, pela natureza mesma de sua origem como movimento de protesto contra os abusos e distorções da igreja romana, sempre deram mais atenção à vida espiritual do que seus irmãos católicos. Contrastando com a proibição de leitura da Bíblia imposta por Roma, os protestantes consideravam a leitura das escrituras sagradas um dever de todo cristão. Uma conseqüência dessa orientação é que os povos protestantes sempre mostraram índices de alfabetização e de instrução mais altos do que os católicos.

Talvez uma das razões por que a orientação do clero aos fieis seja tão tímida e limitada no Caminho da Perfeição deva-se à ênfase dada em sua doutrina ao aspecto transcendente da Divindade. Visto sob esse prisma, Deus estaria no alto dos céus, além do alcance dos homens, e para chegar até Ele precisaríamos da intermediação da santa madre igreja com todos os seus santos. Daí o caráter extremamente devocional e passivo da tradição ortodoxa: o homem deve entregar a sua sorte a Deus, colocando-se neste mundo aos cuidados da igreja.  

Contrastando com a posição ortodoxa, o buscador da verdade deve estar cada vez mais consciente do aspecto imanente de Deus, pois Ele está sempre em nosso coração “pois é Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade” (Fl 2:13). Na verdade, somos uma emanação Dele, e não estamos separados do Pai em nenhum momento. A impressão de separação, a grande ilusão, é inteiramente devida a nossa consciência ainda imperfeita e dualista. O processo de metanoia visa transformar os nossos conteúdos mentais para que nossa percepção possa se estender até aqueles planos interiores onde podemos alcançar a consciência da Unidade, sabendo, então, por experiência pessoal, e não por elucubrações intelectivas, que somos unos com Deus. 

Em que pese a pouca eficácia transformadora do instrumental ortodoxo, da forma como é geralmente apresentado pelo clero, deve ficar claro que, em sua origem, este instrumental era embasado nos ensinamentos do Mestre e na prática de seus seguidores. Com o tempo e diante da nova orientação dada pela hierarquia clerical à vida religiosa dos cristãos, esses métodos foram sendo deturpados e tirados do contexto em que deveriam ser praticados. O resultado é conhecido: as verdadeiras práticas foram sendo esquecidas, e as utilizadas tornaram-se de pouca ajuda para a transformação interior. 

Procuraremos, a seguir, oferecer algumas considerações visando resgatar as práticas da igreja primitiva, colocando-as numa linguagem mais acessível ao leitor moderno. Essas práticas, porém, deveriam ser adotadas dentro do contexto em que foram originalmente concebidas e ser utilizadas como um todo, pois que formam um conjunto orgânico em que cada elemento serve de suporte e reforço aos outros, levando, assim, o praticante aos objetivos desejados. 

Antes de examinarmos as práticas transformadoras da tradição interna, é indispensável ter bem claro que a premissa fundamental dessas práticas é derivada de um ponto central de nossa fé cristã, qual seja, que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Dessa premissa, surge o corolário bastante negligenciado, apesar de óbvio, de que o homem também é um criador. Ao longo de nossas existências criamos o mundo exterior, o ambiente em que vivemos, pela força de nossas ações e pensamentos, conscientes e inconscientes. Infelizmente, em nossa ignorância e movidos pelo egoísmo, criamos principalmente de forma negativa, haja vista a desarmonia, os problemas e sofrimentos que nos perseguem como conseqüência de nossa atividade criadora insensata. 

As chaves do Reino legadas por Jesus permitem reverter esse processo de criação negativa e estabelecer uma rotina consciente e inteligente de criação positiva. O processo positivo inicia-se com a decisão e a determinação da personalidade de buscar a Deus. Esse processo é acelerado quando o Cristo interior é devidamente invocado para canalizar seu infinito poder criador para a realização da meta final do homem, a perfeição. 

Após extenso estudo da literatura disponível, da vida dos místicos e de ingente busca interior em meditação concluímos que são doze as chaves do Reino. Essa conclusão parece ser corroborada por alguns indícios internos. O número doze tem o significado esotérico de completude, de totalidade. Os doze meses do ano, os doze signos do zodíaco, as doze horas do dia e da noite, por exemplo, apresentam a idéia de completude. No cristianismo primitivo esse número ocorre em diferentes contextos. Assim, simbolicamente, Jesus teria tido doze apóstolos, uma extensão do simbolismo judaico das doze tribos de Israel. Em Pistis Sophia, encontramos doze pares de emanações em quase todos os planos, assim como doze pares de Mistérios. Não seria de estranhar, portanto, que o método transformador de nossa tradição seja baseado em doze instrumentos. 

OS INSTRUMENTOS TRANSFORMADORES

Facilitadores

Operativos

Estudo

Amor a Deus

Oração e Meditação

Vontade

Lembrança de Deus

Purificação

Atenção

Renúncia

Rituais e Sacramentos

Discernimento

Prática das Virtudes

 Os instrumentos transformadores da tradição cristã podem ser agregados em dois conjuntos de seis. Chamamos os seis primeiros instrumentos de facilitadores e os outros seis de operativos. Verificamos também que os dois grupos expressam as duas etapas que os místicos da idade média chamavam de via negativa e via positiva já mencionadas anteriormente. Os instrumentos facilitadores abrem o caminho, promovendo a purificação dos veículos do homem e o estabelecimento de uma vibração conducente à vida espiritual. Os instrumentos operativos, como o nome indica, estão voltados para a promoção da transformação propriamente dita. 

Vistos sob esse prisma, o primeiro grupo de instrumentos facilitaria a promoção daquilo que os antigos gregos chamavam de kenosis, o esvaziamento da personalidade das coisas do mundo, para que o segundo grupo pudesse favorecer o preenchimento da alma com a luz divina. Os dois grupos de instrumentos parecem trabalhar em uníssono para efetuar a mudança do homem velho no homem novo que Paulo preconizava: 

“Como é a verdade em Jesus, nele fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior - o homem velho, que se corrompe ao sabor das concupiscências enganosas - e a renovar-vos pela transformação espiritual da vossa mente, e revestir-vos do Homem Novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4:21-24). 

Posto que o ser humano é um conjunto de princípios integrados, os instrumentos transformadores devem ser operados de forma orgânica, pois estão intimamente relacionados. Todo progresso na prática de qualquer dos instrumentos se fará sentir na prática dos outros, porém, um mínimo de proficiência em cada um é necessária para que não ocorram distorções ou estrangulamentos no processo de transformação do buscador. 

Parece haver um certo ritmo na utilização dos instrumentos dos dois grupos. O uso do primeiro estabelece a tônica, que é desenvolvida no do segundo, consolidada na utilização dos dois seguintes, aprofundada pelo quinto e, finalmente, temperada ou harmonizada pelo uso do último. Buscando um paralelo em nossa vida quotidiana, verificamos que eles se parecem com os principais sistemas de um carro. O primeiro é o motor de partida, o segundo o acelerador, o terceiro a direção, o quarto os sistemas estabilizadores, o quinto o sistema de injeção turbo ou a tração nas quatro rodas e, finalmente, o sexto, o freio.  

Quanto aos instrumentos facilitadores: o fundamento da vida espiritual é a fé, comparável ao motor de partida do nosso veículo hipotético; o amor a Deus acelera nossa viagem espiritual; a vontade nos mantém firmes na direção certa; a purificação é o sistema que refrigera o motor da alma e estabiliza a marcha de nosso veículo, suavizando os percalços da estrada; a renúncia das coisas do mundo, alivia o peso do carro, eqüivalendo a uma nova injeção de combustível no motor, o que permite maior progresso; finalmente, o discernimento é o freio necessário para que o buscador não derrape nas curvas de uma ascese excessiva nem de uma aceleração do fanatismo, que pode comprometer a segurança do motorista (a alma) e dos transeuntes que compartilham a estrada da vida conosco. 

O buscador está pronto agora para enfrentar uma nova etapa do caminho para subir pela estrada íngreme e acidentada que leva ao topo da montanha. Usando mais uma vez o paralelo sugerido do carro, desta vez com os instrumentos operativos, verificamos que o estudo constitui o motor de partida. Com a oração e a meditação começa a lenta aceleração da expansão de consciência. Como a estrada é estreita e tortuosa, conhecida por muitos como o ‘caminho do fio da navalha,’ a lembrança de Deus é a direção que permite manobrar pelos percalços do caminho mantendo sempre rumo ao alto. Nessa estrada o veículo não pode falhar, portanto os sistemas auxiliares devem ser confiáveis, o que demanda a constante auto-observação. Como a estrada vai se tornando cada vez mais íngreme, a ascensão nas últimas etapas só pode ser feita com tração auxiliar nas quatro rodas, propiciada pelos rituais e sacramentos. O sistema de frenagem é especialmente crítico nesse trajeto; a euforia do progresso nas alturas desenvolve seguidamente o orgulho e a ambição, que só podem ser neutralizados pela prática constante das virtudes. 

Essa interdependência ficará mais clara quando examinarmos cada instrumento em particular. Ela já era conhecida dos antigos padres da Igreja. Máximo, o Confessor, escreveu: 

“O prêmio do autocontrole é o desapego e o da fé, o conhecimento. O desapego dá origem ao discernimento e o conhecimento dá origem ao amor a Deus. A mente que teve sucesso na vida ativa avança na prudência, a que teve na vida contemplativa, em conhecimento.”[2] 

        Existe uma correlação entre os seis instrumentos facilitadores e os seis operadores. Sem exaurir o assunto, poderíamos dizer que o estudo confirma a fé; a oração leva ao conhecimento de Deus que alimenta o amor a Deus; a determinação facilita a lembrança de Deus; o exercício da auto-observação facilita a purificação; a morte para o mundo, que é a renúncia, possibilita o renascimento através dos mistérios (rituais e sacramentos); e a identificação do real, que é o discernimento, leva à manifestação do divino no homem, que é a prática das virtudes. 

Apesar da lógica seqüencial dos instrumentos nos dois grupos, eles podem e devem ser utilizados todos ao mesmo tempo. Em cada etapa da vida espiritual do buscador, um ou mais desses instrumentos terá maior importância. No início da busca espiritual, os instrumentos facilitadores devem ser enfatizados, com vista a adequar a personalidade, pela purificação, à nova vibração mais elevada da alma. Essa é a via negativa dos místicos, em que é efetuada a purgação de tudo o que é grosseiro e mundano e que impede a sintonização da alma com o Divino. O equilíbrio é a meta que só pode ser alcançada quando as distorções são superadas, já que essas criam obstáculos ao progresso, daí o desenvolvimento do discernimento ser tão importante na primeira etapa, e a prática das virtudes, na etapa mais avançada. 

A necessidade de interação operacional dos instrumentos será inevitavelmente sentida com o tempo. No início, é especialmente importante o esforço da personalidade no sentido de trabalhar os defeitos ou falhas de caráter. Com o passar do tempo, o indivíduo se dá conta que atinge um patamar de realização. Para progredir além desse ponto precisará de auxílio. E essa ajuda só poderá ser obtida da fonte de sua força, que é o Deus interior, o Cristo que aguarda por milênios, no âmago de nosso ser, que o invoquemos para que possa vir em auxílio da alma sofredora. Invocamos o Cristo interior por meio dos instrumentos operadores. Esses, quando ativados harmonicamente, proporcionarão vislumbres de consciência por intermédio dos quais a alma perceberá a Luz que transforma e salva a todos que a alcançam. 

A utilização apropriada do instrumental transformador visa levar o buscador a última etapa do caminho, a via mística. Com o tempo e a prática, o buscador se sentirá cada vez mais próximo da Presença Divina, até o momento em que tiver seus primeiros contatos interiores. Quando isso ocorre o progresso passa a ser consideravelmente mais rápido, pois o indivíduo não estará mais sozinho em sua batalha diária, mas será assistido pelo Mestre interior, na medida em que pedir essa graça fervorosamente em suas orações.


[1] Um exemplo claro desta atitude pode ser visto em Imitação de Cristo, o manual de vida espiritual mais importante da igreja romana nos últimos cinco séculos: “Melhor, sem dúvida, é o camponês humilde que serve a Deus que o filósofo orgulhoso, o qual, de si mesmo esquecido, considera o curso dos astros. Abstém-te do desejo desordenado de saber, pela muita distração e ilusão que dele advêm. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma.” Op.cit., pg. 14-15.

[2] Philokalia, op.cit., vol. I, pg. 25-6.

 

_____________________________________

Nosso Endereço:
Rua Anita Garibaldi, 29 - 10º andar - Centro
CEP 01018-020 - São Paulo, SP - Brasil