Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS

22 - LEMBRANÇA DE DEUS 

A alta vibração obtida durante o período de meditação diário tende geralmente a diminuir quando a pessoa volta-se para as exigências da vida cotidiana. O objetivo do devoto é manter essa vibração elevada ao longo do dia, como é sugerido no Evangelho de João: “Permanecei em mim como eu em vós” (Jo 15:4). A instrução evangélica continua, indicando o que ocorre quando o homem consegue manter essa sintonia com Deus: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vós o tereis” (Jo 15:7). Para alcançar esse propósito, Paulo recomenda a prática da oração permanente, instando: “Orai sem cessar” (1 Ts 5:17). 

No livro anônimo Relatos de um Peregrino Russo, o autor narra como entende a oração interior, a oração do coração que transforma o homem. Dentre as várias passagens interessantes destaca-se uma sobre a importância da oração permanente e como ela pode ser alcançada: 

“É preciso lembrar-se de Deus em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas. Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe; se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti; se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm, admira, glorifica Aquele que tudo criou; se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e lhe agradece, a Ele que provê a tua existência. Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor: assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre”.[1] 

Se permanecêssemos conscientes de nossa natureza divina última, estaríamos mergulhados permanentemente na lembrança de Deus, pois Deus é imanente. Para que esse processo tenha um poder transformador em nossa vida ele deve ser vivencial e não meramente intelectivo. Quando essa lembrança passa a ser uma realidade em nossa vida, somos submetidos, a cada momento, ao esmeril divino que desbasta as arestas de nossas imperfeições. A realidade, porém, é que a maior parte dos aspirantes mantém a atenção, o dia todo, na sua natureza inferior, esquecido do seu Eu Superior. Para que haja progresso no Caminho são necessários exercícios de recordação de nossa verdadeira natureza divina, ou seja, a lembrança de Deus. Esses exercícios são muito mais valiosos do que sua aparente simplicidade sugere.[2] 

A ‘Lembrança de Deus’ é uma prática recomendada por algumas ordens monásticas, como a carmelita. No monaquismo da igreja cristã oriental, esse exercício é conhecida como Mneme Theou (lembrança de Deus). Para essas ordens, Mneme Theou é um componente essencial na vida de transformação da mente (metanoia). A mente inteiramente voltada para Deus não deseja pensar a respeito de nada mais. A todo momento e em qualquer situação, quando ela precisa de ajuda para resolver seus problemas, volve-se não para as pessoas ou as coisas do mundo, mas para Deus.[3] 

O processo de centralização em Deus foi chamado de “orientação magnética para Deus” por um bispo russo conhecido como Theophanis, o recluso, que no final do século passado traduziu o original grego de Philokalia[4] para o russo, acrescentando vários textos adicionais. Theophanis escreveu como essa orientação magnética para Deus pode ser desenvolvida: 

“O objetivo é nos esforçarmos em direção a Deus; inicialmente isso é feito só na intenção. Deve ser feito em nossa vida real -- uma gravitação natural que é doce, voluntária e permanente. Esse é o tipo de atitude que nos mostra quando estamos no caminho certo. Só se torna claro que Deus está nos tocando quando experimentamos essa aspiração viva; quando nosso espírito vira as costas para tudo o mais e fixa-se Nele deixando-se levar. 

No início isso não vai acontecer; a pessoa fervorosa ainda está inteiramente voltada para si mesma. Apesar de ter-se ‘decidido’ por Deus, isso só ocorre em sua mente. Então, quando seu coração começa a se purificar e assumir a atitude correta, ele passa a trilhar o Seu caminho com amor e contentamento. A alma começa, então, a retirar-se de tudo mais como que do frio e a gravitar em direção a Deus, que a aquece. 

Esse princípio de gravitação é implantado na alma fervorosa pela Graça divina. Por sua inspiração e orientação a atração cresce em progressão natural, nutrida internamente mesmo sem o conhecimento da própria pessoa. Passa a ser, então, uma profunda felicidade estar sozinha com Deus, longe dos outros e esquecida das coisas externas. Ela adquire o reino de Deus dentro de si mesma, que é paz e alegria no Espírito Santo.”[5] 

Dada a realidade da vida moderna, com a constante premência de tempo para realizar inúmeras atividades, pode parecer-nos que o método de lembrança de Deus foi mais apropriado para a época em que a vida era mais tranqüila, e quando os homens podiam voltar-se para a introspeção, mesmo que estivessem cuidando de seus afazeres mais simples e menos estressantes daquela época. Porém, quanto maior a demanda do mundo, maior a necessidade de estarmos constantemente sintonizados com Deus para mantermos o alto nível vibratório que conduz à transformação (metanoia), que por sua vez leva à união ou ioga. Por isso Jesus dizia: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41). 

Para nos lembrarmos de Deus, temos que esquecer de nós mesmos, de nossos pensamentos, de nossos interesses, de nossos insistentes medos e anseios. Esse processo está relacionado com a renúncia das lembranças passadas e das esperanças futuras, a fim de que possamos nos lembrar de Deus, agora no presente, como o centro de nossa vida. É também uma conseqüência do primeiro e maior mandamento, amar a Deus de todo coração, com toda a alma e de todo nosso entendimento (Mt 22:38). Se Deus é realmente o nosso maior tesouro, nele deverá estar sempre nosso coração,[6] como ocorre com as pessoas verdadeiramente apaixonadas. Esse é o espírito da lembrança de Deus.  

Quando o praticante engaja-se no processo de lembrança de Deus, ainda que inicialmente de forma imperfeita e com lapsos freqüentes durante o dia, ele inicia uma nova etapa no Caminho. Antes ele lutava contra seus demônios interiores sozinho. Agora ele terá um aliado permanente a seu lado, o próprio Senhor do Universo, a Luz infinita que automaticamente repele a escuridão, a Onisciência divina que vence toda ignorância. A partir de então o progresso será muito mais rápido, porque a Verdade é incompatível com a falsidade do mundo, o Amor com o egoísmo da personalidade. Como Deus é Verdade e Amor, enquanto estivermos sintonizados com Ele, as vibrações distorcidas do mundo material não terão lugar em nosso coração. Estaremos vivendo, então, numa vibração elevada, praticando naturalmente as virtudes divinas e avançando no Caminho da Perfeição. 

A lembrança de Deus pode dar-se de diferentes maneiras de acordo com o temperamento de cada homem. Ela pode aparecer como uma constante sintonia com Deus, em que a pessoa percebe a presença de Deus no íntimo de seu coração. Para o indivíduo que ama a natureza ou que tem um pendor poético, a lembrança pode ser a percepção de Deus na beleza de toda manifestação da natureza e em todos os seres. 

Para o devoto, pode ser mais natural viver com o Cristo a seu lado, em permanente comunhão, como se Ele fosse seu companheiro inseparável. Ele está sempre a nossa disposição; somos nós que temos que optar por nos mantermos a Seu lado, sem perder-nos em considerações mundanas e fúteis. Poderemos, também, observar nosso comportamento e nossas tendências, contrastando o Cristo interior que procura nos levar para o alto, com a personalidade, que nos puxa para baixo. E, quando alguma atividade demandar toda a nossa atenção, podemos oferecer ou dedicar a Deus aquela tarefa, pedindo que Ele guie o nosso coração para podermos realizá-la da melhor maneira possível.  

Deve ficar claro, no entanto, que a prática da presença de Deus não é uma mera técnica que possa ser adotada por qualquer um a qualquer momento. Ela é uma conseqüência do profundo amor a Deus sentido pelo devoto que, na alegria de seu anseio por comungar com o Supremo, procura estender o seu contentamento a todo momento e a toda ocasião.  

Muitos aspirantes, convencidos da importância da prática da lembrança de Deus, tentam incorporá-la à sua rotina diária, mas verificam que, por razões que não conseguem entender, não fazem muito progresso. Sentem como se seu coração não estivesse realmente engajado, como se lá dentro do coração algo estivesse dizendo que isso não é mesmo para ele. Esses casos, que infelizmente não são raros, geralmente são um reflexo da imagem que temos de Deus. Esse é um assunto de importância transcendental. Geralmente não nos damos conta de que a maior parte das práticas espirituais dependem do que sentimos a respeito de Deus e não do que pensamos a seu respeito. 

Nossos sentimentos a respeito de Deus dependem da imagem que fazemos a seu respeito. Esta imagem não é o resultado do conceito que temos de Deus, que é nossa visão intelectiva, mas sim da imagem que formamos inconscientemente durante nossa infância, como uma extensão natural da imagem de nossos pais, a autoridade que conhecemos. Dependendo de como a criança é tratada pelos pais, se com disciplina rigorosa e castigos, com indulgência e permissividade ou com frieza e descaso, a criança, aos poucos, vai formando uma imagem sobre a autoridade que conhece, os pais. Essa imagem tende a ser transferida para a autoridade suprema, Deus. Assim, pais rigorosos e punitivos tendem a criar uma imagem de um Deus justiceiro, ao qual devemos temer e procurar manter distância, porque sua proximidade pode trazer castigos se ele observar nossas falhas, e como estamos conscientes de termos muitos defeitos, inconscientemente procuramos manter a autoridade suprema distante de nós. 

É importante, portanto, que descubramos qual a imagem que fazemos de Deus, para que a prática da lembrança de Deus possa ser realmente incorporada a nossa rotina diária como a expressão natural do anseio da alma pelo Supremo Bem. Se verificarmos que a imagem que temos de Deus, o que realmente sentimos a respeito do Pai Celestial, é muito diferente do conceito ou da idéia que temos, será necessário, antes de mais nada, confrontarmos a imagem distorcida com nosso conceito intelectivo, que provavelmente é mais próximo da realidade.[7] 

O objetivo último da prática da presença de Deus é levar-nos a agir no mundo como instrumentos do Alto. Não importa como Deus seja concebido: como o Ser Supremo que tudo abrange, ou como o Cristo interior, que comanda a personalidade, ou como o Mestre, instrumento do Divino, cuja missão é promover a salvação da humanidade sofredora. Quando nosso senso de responsabilidade nos impele a agir com motivação altruísta e total desapego pelo resultado de nossas ações, conscientes de que somos um instrumento da Vontade Divina, estaremos vivendo com Deus no coração e expressando o amor Divino por meio de nossas ações. 

Existe na tradição cristã algo que é às vezes confundido com a lembrança de Deus, que é a prática da presença de Deus. Enquanto a lembrança de Deus é um instrumento usado na senda mística, que tem por objetivo alcançar a união com Deus, a prática da presença de Deus é, na verdade, um corolário da consecução do objetivo último da união. Quando o místico alcança a união com Deus, o resultado natural será sentir a presença do Supremo Bem a todo momento, não importa se orando ou trabalhando.  

O exemplo clássico dessa prática é a experiência do Irmão Lourenço, místico humilde que entrou para um convento carmelita em Paris, no século XVII com a idade de 55 anos. Encarregado do serviço da cozinha, em breve tornou-se o confidente e orientador espiritual de seus companheiros mais instruídos no mosteiro. Seu segredo era simples: sua oração era simplesmente um sentido da presença de Deus, quando sua alma tornava-se insensível a tudo que não fosse o amor divino. O interessante, porém, é que ao término das sessões rotineiras de oração ele continuava sentindo-se na presença de Deus, louvando-o e dando graças a Ele com todo seu coração, vivendo em profunda alegria a todo momento. Até mesmo na cozinha, em meio ao buliço das panelas e da louça, do burburinho das conversas e solicitações, o Irmão Lourenço sentia a presença de Deus. Dizia que muitos monges não progrediam espiritualmente porque davam mais atenção a penitências e exercícios especiais do que ao amor a Deus, que era o fim de toda a vida espiritual.[8]


[1] Relatos de um Peregrino Russo (S.P.: Edições Paulinas, 1985), pg. 106.

[2] Vide Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 305.

[3]  A Different Christianity, op.cit., pg. 189-90.

[4] Philokalia é um compêndio clássico, em cinco volumes, de textos de vários autores dos primeiros séculos, a maior parte dos quais escritos em grego, versando sobre a piedade cristã e a vida mística.

[5] St. Theophan, o recluso, The Heart of Salvation, citado em A Different Christianity, pg. 293.

[6] Mt 6:21

[7] Para maior aprofundamento dessa questão recomendamos o livro O Caminho da Autotransformação, op.cit., capítulo 4: “O Deus real e a imagem de Deus”.

[8] Conversations & Letters of Brother Lawrence, The Practice of the Presence of God (Oxford: One World, 1993), pg. 17, 20-21.

 

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