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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco III. A META: O REINO DOS CÉUS 3. O SIGNIFICADO DO REINO PARA A ORTODOXIA O Reino para a Igreja Em primeiro lugar, deve ficar claro que estamos usando o termo ‘igreja’ com sua conotação hierárquica usual dentro de nossa tradição e não no seu sentido original. O termo original grego, eklhsia tinha o significado de assembléia, da qual participavam igualmente todos os que estavam reunidos. Nos primórdios do cristianismo, significava a comunidade fraterna dos seguidores de Jesus, os praticantes de seus ensinamentos. A comunidade inteira, irmanada pelo ideal fraterno do amor, compartilhava das tarefas e do poder. Os diferentes ministérios eram exercidos por todos, em consonância com os dons carismáticos de cada um. Com o passar do tempo, os líderes das comunidades cristãs começaram a utilizar o termo igreja para retratar a hierarquia em comando. Foi instituída uma divisão clara entre a hierarquia clerical, que detinha todo o poder, referida como ‘igreja’, e a comunidade dos fiéis, que devia obedecer às instruções do clero sob o comando de seu bispo. Dentro desse esquema, as grandes virtudes do leigo passaram a ser apresentadas como a fé na doutrina e a obediência ao clero, ficando a prática dos ensinamentos de Jesus em segundo plano. É a essa igreja restrita, hierárquica e totalitária que nos referimos a seguir. A importância do Reino na mensagem de Jesus não podia ser negada pela ortodoxia, mesmo não sendo realmente entendida. Passemos a palavra aos teólogos para que expressem sua sincera perplexidade sobre o real significado do conceito que sabem ser central nos ensinamentos do Salvador e que, ao longo dos quase vinte séculos da história das igrejas cristãs, vem sendo interpretado de diferentes maneiras: “Não é fácil definir com precisão o que significa realmente a expressão ‘reino de Deus’. Ao longo da história da teologia, a interpretação desta expressão mudou muitas vezes, de acordo com a situação e o espírito da época. A palavra ‘reino’ é expressão arcaica que não desperta nenhuma ressonância em nossa atual experiência da realidade. A expressão precisa ser retraduzida para poder exprimir seu significado. Por isto, o problema que diz respeito à mensagem de Jesus sobre o reino é de como superar a distância hermenêutica[1] entre o que o reino de Deus significava no ensinamento de Jesus e o que significa hoje para nós. Jesus nunca definiu o reino de Deus com uma linguagem discursiva. Apresentou sua mensagem do reino em parábolas. As parábolas devem ser vistas como a escolha por parte de Jesus do mais adequado veículo para a compreensão do reino de Deus.”[2] Os autores do texto acima não esclarecem o significado da expressão, porém, compensam sua perplexidade com o uso generoso do jargão teológico. Mais adiante, esses autores sugerem uma interpretação sobre a natureza paradoxal do reino, que se lhes configura como algo que se inicia no presente, mas que ainda está por vir: “Embora a presença histórica do reino, dentro e através do ministério de Jesus, seja fortemente afirmada, deve ainda vir a consumação do que agora é apenas experimentado de maneira antecipatória. Embora Jesus tenha ficado na tradição dos grandes profetas, sua mensagem é profundamente influenciada pelas expectativas apocalípticas da época. Apesar disto, não compartilhou do pessimismo dos escritores apocalípticos no tocante a este mundo, mas descreveu de maneira realista o poder do mal. Sua mensagem do reino de Deus só pode ser entendida em seu contraste com o reino do mal, que está em ação neste mundo, permeando tudo. Jesus entendeu sua missão como a destruição e derrubada das potências do mal para trazer uma libertação que tende a acabar com todo o mal e à transformação da criação inteira.”[3] Esse tipo de consideração teológica obscura não é restrito aos autores desse texto. Idéias semelhantes permeiam os escritos da maioria dos teólogos, fazendo com que, em alguns casos, suas tentativas de explicar a natureza do reino beirem a incoerência: “(Jesus) pregava algo novo: a chegada da plenitude dos tempos, do ‘Reino’ que realizava de modo eminente as profecias da Salvação. O ensinamento de Jesus continha sem dúvida mais que um anúncio, mas estava centrado nessa mensagem, a da misericórdia divina, que tornava próxima dos homens a salvação escatológica.[4] Na pregação sobre o ‘mistério do Reino de Deus’ (Mc 4:11), ou sobre o ingresso na ‘vida’, revela-se chegada a hora de os homens se defrontarem com a divina misericórdia. Sim, é verdade que Deus reina desde sempre, sobre o céu e a terra, sobre Israel e sobre as nações pagãs, mas além disto Ele prepara um Reino Escatológico, todo feito de consolação exuberante e de experiência de Seu amor, e é o que Jesus anuncia como aproximado enfim do homem.”[5] Num esforço ingente para transmitir aos seus leitores um conceito que parece não ter entendido, o autor dessa passagem balança entre o aqui e agora e o futuro ‘escatológico’, tateando com o respaldo de citações bíblicas: “Na mensagem de Jesus, o ‘Reino de Deus’, a salvação escatológica, era algo que já chegara com sua pessoa e que, tendo embora uma futura manifestação gloriosa, não estava ligado apenas a essa condição epifânica[6] e futura. A mensagem de Jesus fora preparada no Antigo Testamento quanto à idéia de um Reino de Deus iniciado dentro da história. Abrir-se-ia com o Messias, disseram os Profetas, a nova e eterna Aliança, em que Deus fixaria seu santuário em Israel, dali estabelecendo seu reinado sobre todos os povos, numa era de santidade e paz. O Reino de Deus, que Jesus proclama, transcende a concepção da felicidade terrena, erigida sob o signo do triunfo político de Israel. Neste sentido difere das interpretações comuns dadas aos dias do Messias. Mas também não se identifica simplesmente com a expectativa do Reino da ressurreição, após o Juízo Final. De um lado anuncia ele que em dia ainda futuro se perceberá que o Filho do homem está às portas (Mc 13:32). Mas desde já o Filho do homem veio à terra, e o advento do Reino de Deus é qualquer coisa ‘que não se deixa observar’, pois está presente entre os homens (Lc 17:20-21)”[7] Os teólogos afirmam que existem várias referências aparentes ao fim dos tempos e do julgamento final nos evangelhos. A descrição dos sinais dos fins dos tempos é apontada com freqüência como sendo a parábola da figueira, reproduzida quase sem modificações nos três evangelhos sinóticos. Aprendei da figueira esta parábola: quando o seu ramo se torna tenro e as suas folhas começam a brotar, sabeis que o verão está próximo. Da mesma forma também vós, quando virdes todas essas coisas, sabei que ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo que esta geração não passará sem que tudo isso aconteça. Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão. Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai. (Mt 24:32-36; e passagens semelhantes em Mc 13:28-29; Lc 21:29-31). Um bom e dedicado teólogo não poderia se esquecer de garantir um papel para a Igreja no Reino, ainda que esse último não esteja bem definido[8]. Como já dizia S. Jerônimo, o poder das palavras ressonantes é bem maior do que se poderia imaginar no mundo, tanto no seu tempo como agora. “É o reino ora presente que cria a igreja e a conserva constantemente viva. Por isto, a igreja é o resultado da vinda do reino de Deus ao mundo. O poder dinâmico do Espírito, que torna eficazmente presente a intencionalidade salvífica e final de Deus, é verdadeira causa da comunidade chamada igreja. Embora o reino não possa ser identificado com a igreja, isto não significa que o reino não esteja presente nela. Podemos dizer que a igreja é uma realização ‘inicial’, ‘proléptica’ ou antecipada do plano de Deus para a humanidade. Na expressão do Vaticano II, ‘ela se torna na terra o germe inicial do Reino’. Em segundo lugar, a igreja é um instrumento ou sacramento, através do qual este projeto de Deus no mundo se realiza na história”.[9] Um dos principais responsáveis pelos conceitos materializantes e apocalípticos do Reino dentre os teólogos foi Agostinho, uma das figuras centrais da ortodoxia, que escreveu várias obras, sendo que sua “Cidade de Deus” foi, desde então, especialmente influente na literatura da Igreja. Agostinho apresentou o símbolo primordial do pecado, que produziu o mito da queda de Adão como sendo o pecado original. Foi dele, também, a idéia especulativa de que a Igreja seria o Reino de Deus, um Reino englobando a totalidade da humanidade redimida, sendo essa entidade chamada por ele de Cidade de Deus, a cidade dos santos. Esse Reino de Deus não era necessariamente a Igreja como existia então, mas como seria no fim dos tempos. Alguns séculos depois, os teólogos da Idade Média passaram a conceber o Reino de Deus como a Igreja com sua hierarquia clerical no mundo.[10] Nem todos os estudiosos dentro da Igreja compartilham dessas posições confusas e, de certa forma, inconseqüentes. Aqueles que passam por experiências místicas geralmente conseguem transcender as limitações do dogmatismo e chegam intuitivamente ao entendimento do Reino como foi ensinado por Jesus. A citação a seguir demonstra essa assertiva, com um enfoque que muito se aproxima da interpretação esotérica a ser apresentada no próximo capítulo: “Jesus nunca definiu o reino de Deus. Descreveu o reino com parábolas e similitudes (Mt 13; Mc 4), com imagens como vida, glória, alegria e luz. Paulo, em Rm 14:17, apresenta uma descrição que está bem próxima de uma definição: ‘o Reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça, paz e alegria no Espírito Santo’. A declaração que Jesus faz do reino está, em última análise, enraizada em sua experiência do Abba (Pai em hebraico). A mensagem do reino foi-lhe ‘enviada’ durante a oração, por isto, está intimamente ligada e é determinada por sua experiência pessoal de Deus como Abba. Na experiência de Jesus, Deus era aquele que vinha com amor incondicional, como aquele que tomava a iniciativa e entrava na história humana de um modo e em um grau desconhecido dos profetas. Esta experiência de Deus decidiu toda a sua vida e formou o autêntico núcleo de sua mensagem do Reino. Num determinado momento de sua vida, Jesus deu-se conta de que Jhwh queria conduzir Israel, e finalmente todos os homens, àquela intimidade com ele que ele mesmo havia experimentado em seu relacionamento pessoal, que ele chamava de pai. Isto é expresso muito explicitamente no ‘Pai-Nosso’. Nele Jesus autoriza seus discípulos a imitarem-no, ao dirigirem-se a Deus como Abba. Agindo assim, fá-los participar de sua comunhão pessoal com Deus. Somente os que podem pronunciar este Abba com a disposição de uma criança poderão entrar no reino de Deus”.[11] Esse apanhado resumido da posição das autoridades eclesiásticas sobre o Reino parece indicar que a maioria dos teólogos permanece confusa e até mesmo perplexa a respeito da natureza do Reino, mas que alguns estudiosos dentro do clero chegaram intuitivamente a um conceito mais elevado. Os místicos, no entanto, nunca tiveram problema para entender o conceito do Reino, pois têm experiência própria do Reino de Deus no seu interior e o refletem em suas vidas. [1] Hermenêutica quer dizer interpretação dos textos sagrados. [2] R. Latouelle e R. Fisichella (ed.), Dicionário de Teologia Fundamental (edição conjunta das editoras Vozes e Santuário, 1994), pg. 738-39 [3] Dicionário de Teologia Fundamental, op.cit., pg. 740. [4] Para os teólogos, ‘escatologia’ significa a doutrina sobre a consumação do tempo e da história. O uso desse termo não é muito feliz, tanto em sua etimologia como em sua conotação teológica, pois, em grego, o significado primário da palavra (escató + logia) é ‘tratado acerca dos excrementos’, ou ‘coprologia’. Em seu sentido teológico, o termo escatologia é derivado da palavra grega eschaton, que significa final ou término, daí a doutrina do final dos tempos. [5] C.F. Gomes, Riquezas da Mensagem Cristã (R.J.: Lumen Christi, 1981), pg. 347. [6] No jargão teológico significa aparição ou manifestação divina. [7] Riquezas da Mensagem Cristã, op.cit., pg. 487-488. [8] Neste particular, vale o alerta de um místico: “Os teólogos se esquecem que servem melhor por meio do desabrochar de seus próprios poderes espirituais e não pela expansão e glorificação de suas instituições.” The Mystical Christ, op.cit., pg. 18. [9] Dicionário de Teologia Fundamental, op.cit., pg. 744 [10] Norman Perrin, Jesus and the Language of the Kingdom (Philadelphia: Fortress Press, 1976), pg. 63. [11] Estes três parágrafos, extremamente elucidativos, também citados no Dicionário de Teologia Fundamental, op.cit., pg. 742, foram escritos por outro autor, ao que parece H. Schermann (Gottes Reich, 21-64).
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