Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS

21 - ORAÇÃO E MEDITAÇÃO 

A oração sempre foi a base de toda a prática religiosa e a meditação, a fundação da vida espiritual. O homem como ser reflexivo pode voltar sua mente para explorar sua própria natureza e para comunicar-se com o que transcende a si mesmo. Daí as práticas da oração e da meditação, sobre as quais a literatura de nossa tradição está repleta de referências.  

Alguns autores parecem não distinguir entre oração e meditação, usando um só termo para abranger os dois conceitos, como Teresa de Ávila. Poderíamos dizer, de forma simplificada, que oração é uma prática para falar com Deus, enquanto a meditação é a prática em que procuramos ouvir a Deus. Se adotarmos esses parâmetros, a oração é de longe a prática mais usual das pessoas religiosas. Deve ficar claro para todo devoto que Deus não precisa de adoração, de louvor e de ação de graças. Ao contrário, é o homem que precisa dos benefícios associados a essas práticas. Esse entendimento deve orientar sua vida interior e seu relacionamento com Deus. 

Teresa de Ávila, mística de grande realização espiritual, escreveu sobre os tipos de oração em seu clássico livro Castelo Interior ou Moradas.[1] Ela sugere que a mais elementar é a oração mecânica repetitiva, como habitualmente se reza o terço entre os católicos. Geralmente, os devotos que rezam o terço ou os Pai-Nossos e Ave-Marias impostos como penitências por seus confessores repetem as palavras destas orações apenas com os lábios, enquanto a mente está distante entretida em outros assuntos mais prosaicos. Obviamente, o efeito espiritual de tal prática é bastante reduzido. Nesse sentido Jesus nos instruiu: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes” (Mt 6:7-8). 

Por outro lado, uma oração como o Pai Nosso, quando proferida lentamente pelo devoto, procurando vivenciar em seu coração o significado de cada palavra e de cada idéia, torna-se um poderoso instrumento de elevação espiritual.[2] O Pai Nosso, por exemplo, pode levar-nos às alturas espirituais quando recitado em atitude meditativa.[3] No entanto, não basta a enunciação oral ou mental das palavras da oração. O mais importante é nossa intenção e prática de vida relacionada com as idéias contidas na oração. A paráfrase anônima a seguir exemplifica esse conceito: 

“Se em minha vida não ajo como filho de Deus, fechando meu coração ao amor.

Será inútil dizer: PAI NOSSO.

Se os meus valores são representados pelos bens da terra.

Será inútil dizer: QUE ESTAIS NO CÉU.

Se penso apenas em ser cristão por medo, superstição e comodismo.

Será inútil dizer: SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME.

Se acho tão sedutora a vida aqui, cheia de supérfluos e futilidades.

Será inútil dizer: VENHA A NÓS O VOSSO REINO.

Se no fundo o que eu quero mesmo é que todos os meus desejos se realizem.

Será inútil dizer: SEJA FEITA A VOSSA VONTADE.

Se prefiro acumular riquezas, desprezando meus irmãos que passam fome.

Será inútil dizer: O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE.

Se não me importo em ferir, injustiçar, oprimir e magoar aos que atravessam o meu caminho.

Será inútil dizer: PERDOAI AS NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO.

Se escolho sempre o caminho mais fácil, que nem sempre é o caminho do Cristo.

Será inútil dizer: E NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO.

Se por minha vontade procuro os prazeres materiais e tudo o que é proibido me seduz.

Será inútil dizer: LIVRAI-NOS DO MAL...

Se sabendo que sou assim, continuo me omitindo e nada faço para me modificar.

Será inútil dizer: AMÉM.” 

Outra oração muito útil é aquela atribuída a São Francisco, que invoca os mais altos ideais da vida espiritual: 

“Senhor, fazei de mim instrumento de Tua paz;

Onde houver ódio que eu leve o amor;

Onde houver desespero que eu leve o perdão;

Onde houver discórdia que eu leve a união;

Onde houver tristeza que eu leve a alegria.

           Ó Mestre! Fazei que eu procure mais:

           Consolar que ser consolado,

           Compreender que ser compreendido,

           Amar que ser amado.

Porque é dando que se recebe,

É perdoando que se é perdoado,

E é morrendo que nascemos para a vida eterna!” 

De acordo com Teresa de Ávila, o próximo passo na escala espiritual é a oração mental, o grande sustentáculo dos devotos e buscadores da verdade por boa parte do Caminho. Nessa modalidade de oração a pessoa conversa com Deus, abrindo seu coração para suas necessidades e anseios. É através da oração mental que buscamos a ajuda de Deus, confiantes nas palavras de Jesus: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá” (Mt 7:7-8). Apesar de Deus estar no âmago de nosso ser e conhecer todas as nossas necessidades antes mesmo que possamos enunciá-las, existe uma lei espiritual pela qual devemos nos engajar em tudo aquilo que aspiramos, inclusive por meio da invocação do auxílio de Deus. 

O devoto ainda centrado em sua personalidade e apegado às coisas do mundo tende a voltar-se para Deus como a instância última de suprimento de suas necessidades e anseios materiais e sentimentais. Quando as necessidades e aspirações são legítimas ou altruístas e o pedido é suficientemente fervoroso, elas poderão ser atendidas de forma tal que venhamos a reconhecer a dádiva Divina. Muitas vezes, porém, os pedidos são direcionados para coisas mundanas, que Deus, em sua onisciência, sabe que não atendem aos nossos verdadeiros interesses. Nesses casos, se os pedidos forem insistentes, poderemos conseguir o que pedimos, mas não da forma como queríamos ou no momento que esperávamos, mas da forma e na hora que for mais útil para o nosso aprendizado espiritual. Com freqüência, queremos coisas que vão contra o nosso verdadeiro interesse, por isso adverte-nos um monge católico espiritualmente maduro: “A oração não é um meio para fazermos de Deus o escravo de nossas ambições, mas para fazer de nós os servos de Seu amor.”[4] 

Quando, porém, pedimos aquilo que está em conformidade com a vontade de Deus, nossos pedidos adquirem uma força inusitada, pois entramos em sintonia com o Plano Divino. “A oração fervorosa do justo tem grande poder” (Tg 5:16). Por isso, devemos pedir ajuda a Deus para conhecermos nossos defeitos e negatividades, que são as correntes que nos aprisionam neste mundo. O passo seguinte será pedirmos Sua ajuda para superarmos esses entraves ao nosso progresso espiritual. Se pedimos com fervor, teremos, com certeza, a Sua ajuda, que poderá se manifestar de muitas maneiras ou formas inusitadas, até mesmo por meio de livros ou conferências ou de pessoas que, de forma amigável ou não, apontam nossos defeitos ou através de sonhos simbólicos ou inspirações durante a meditação, etc.  

As palavras de um conhecido instrutor espiritual sobre a oração são especialmente pertinentes neste particular: “A prece não deve ser, como é para tantos religiosos não esclarecidos, nada mais do que um pedido para que seja concedido algo em troca de nada, um pedido de benefícios pessoais imerecidos e pelos quais não se trabalhou. Ela deve ser, primeiro, uma confissão da dificuldade ou mesmo do malogro do ego em encontrar corretamente o seu próprio caminho através da sombria floresta da vida; segundo, uma confissão da fraqueza ou mesmo da incapacidade do ego em enfrentar os obstáculos morais e mentais em seu caminho; terceiro, um pedido de ajuda para o esforço do próprio ego em busca da auto-iluminação e auto-aperfeiçoamento; quarto, uma resolução de lutar até o fim para abandonar os desejos inferiores e superar as emoções grosseiras que erguem tempestades de areia entre o aspirante e seu eu mais elevado; e, quinto, uma deliberada auto-submissão do ego, ao admitir a necessidade imperiosa de um poder mais alto.”[5] 

A verdadeira oração, quando expressa os anseios do coração do devoto, tende a criar uma estado místico, uma atmosfera de quietude e paz, que traz conforto e alento à vida interior. Esse estado interior deve ser considerado como uma bênção. Poderíamos dizer que o teste da eficácia da oração do coração é a paz interior que ela confere. No período de oração desligamo-nos de nossas preocupações e interesses mundanos e voltamos nosso coração para o Alto, recebendo nutrição para a alma, o pão espiritual de cada dia que o Supremo Consolador está sempre pronto a nos conceder.[6] Esse estado de paz interior deve ser compartilhado com os outros, mesmo com aqueles que procuram nos fazer mal, como nos ensinou Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44). 

O buscador dá um passo considerável no Caminho quando introduz a meditação em sua prática espiritual. A meditação é um processo que visa promover a aquietação da mente, possibilitando uma progressiva penetração nas camadas mais profundas da consciência. A prática da meditação é bem mais simples do que as pessoas pensam. Ao invés das práticas usuais dos iogues orientais, que podem passar horas imóveis na posição de lótus (sentados no chão com as pernas cruzadas), nós ocidentais podemos conseguir os mesmos estados de consciência sentados numa cadeira, com os pés no chão e com a espinha ereta. Existem vários manuais de meditação que podem orientar os primeiros passos daqueles que desejam iniciar essa prática imprescindível da vida espiritual. [7] 

Dentre os diferentes tipos de meditação, algumas podem ser consideradas como práticas de aquietação da mente, em que o meditador procura concentrar-se na sua respiração ou observar de forma desapegada a passagem dos pensamentos. A prática mais comum é a meditação analítica, também chamada de meditação ‘com semente’, em que o meditador procura concentrar seus pensamentos analíticos exclusivamente no tema escolhido (a semente). Finalmente, a prática mais elevada é a meditação ‘sem semente’, ou meditação do ‘vazio,’ como dizem os budistas, ou contemplação como é chamada na tradição cristã, em que o meditador procura manter sua mente absolutamente serena, para que, livre de pensamentos, ela se torne transparente e capaz de receber a pura luz da percepção direta.  

A prática contemplativa é uma das etapas mais avançadas do relacionamento com Deus, geralmente precedidas pela oração mental e pela meditação discursiva. A experiência de alguns anos de meditação discursiva é altamente desejável antes do indivíduo tentar a “meditação sem semente.” A prática meditativa requer um progressivo controle do corpo, das emoções e, finalmente, dos pensamentos. Essa autodisciplina deve ser desenvolvida gradualmente, sendo a meditação “com semente,” focalizada num tema determinado, o caminho natural para a etapa final, a concentração sobre o silêncio ou sobre o vazio, que é a contemplação. 

O aspirante espiritual, durante boa parte do caminho, faria grande proveito da meditação analítica, usando-a para descobrir as fraquezas e apegos da natureza inferior, que se constituem nos principais obstáculos ao seu progresso. Só podemos progredir na medida em que identificamos nossas fantasias e negatividades. Quando as reconhecemos, podemos, então, reeducar nossa criança interior levando-a a crescer. Essa prática é apresentada no Anexo 1. 

Os budistas, ao iniciarem suas práticas espirituais, costumam invocar três refúgios, que servem como fontes de força e inspiração. Eles se refugiam no Buda, no dharma e na sangha. O Buda simboliza a fonte da sabedoria e da compaixão; o dharma, o conjunto de ensinamentos que leva a iluminação; e a sangha, a comunidade de praticantes que assegura que esses ensinamentos permaneçam disponíveis a todos os buscadores. O devoto cristão poderia adotar uma prática semelhante, tomando refúgio em Cristo, na Gnosis e na Comunhão dos Santos, os Filhos da Luz. Cristo é a fonte da luz interior, a Gnosis é o conhecimento obtido pela iluminação interior e os Filhos da Luz são os verdadeiros discípulos que se tornam portadores e disseminadores da Luz no tempo e no espaço. 

De acordo com Teresa de Ávila, a oração mais elevada é a do silêncio. É um processo que visa desenvolver a contemplação. É nesse estado que o místico entra em contanto com outros planos espirituais, chegando a ter visões que muitos interpretam como visões de Deus e, mais tarde, alcança o coroamento de todo seu esforço, a união com Deus. A contemplação eqüivale ao que os orientais descrevem como samadhi, a comunhão consciencial do meditador com o objeto da meditação, que ocorre como um transe em que a dualidade é superada, possibilitando a percepção da Unidade.[8] 

É esse último tipo de oração que Jesus nos ensinou ao dizer: “Quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6:6). Em outras palavras, Jesus recomenda que retiremos nossa consciência para a caverna de nosso coração, para a essência de nosso ser, fechemos as portas dos sentidos e da mente, um óbvio paralelo ao recolhimento da quinta etapa do processo de ioga de Patanjali (pratyahara), e permaneçamos em silêncio, sem palavras e pensamentos, criando as condições para que a pura luz de buddhi, a intuição, possa filtrar-se dos planos mais elevados, de onde tudo vê em segredo, atravessando nossa mente totalmente aquietada, para finalmente deixar sua impressão em nosso cérebro, registrando assim o conhecimento superior, a recompensa do Pai, em nossa consciência.


[1] Teresa de Ávila, Castelo Interior ou Moradas (R.J.: Paulus, 1981)

[2] O tesouro espiritual que é a Oração do Senhor parece ter sua origem na tradição judaica. Os judeus tinham uma oração antiga conhecida como Kadish que guarda considerável semelhança com o Pai Nosso. De acordo com Webster, a Oração do Senhor pode ser construída quase verbatim do Talmud. Vide The Mystical Christ, op.cit., pg. 135.

[3] Vide, por exemplo, a ‘Paráfrase à Oração do Senhor’, em São Francisco de Assis. Escritos e biografias de São Francisco de Assis (Petrópolis: Vozes, 1988), pg. 100-102 e E. Norman Pearson, O Pai Nosso à Luz da Teosofia (S.P.: Palas Athena).

[4] Pierre-Ives Emery, A Meditação na Escritura, em Mergulho no Absoluto, op.cit., pg. 230.

[5] Paul Brunton, Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 219.

[6] Ver: The Mystical Christ, op.cit., pg. 139-41.

[7] Como livros introdutórios sobre meditação recomendamos: Clara M. Codd, Meditação, sua prática e resultados (Brasília, Editora Teosófica, 1992); Michael J. Eastcott, O Caminho Silencioso (S.P.: Pensamento) e Adelaide Garner, Meditação, um estudo prático (Brasília, Editora Teosófica, 1995). O principal e mais completo livro de meditação continua sendo os Ioga Sutras de Patanjali, que teria sido escrito entre dois mil e quatrocentos a quatro mil anos atrás, segundo alguns autores. Existem versões modernas, com comentários explicativos como a de I.K. Taimni, A Ciência da Ioga (Brasília, Editora Teosófica, 1996) e a de Rohit Mehta, Yoga. A arte da integração (Brasília: Editora Teosófica, 1995).

[8] Vide J. Hermógenes Andrade, A Meditação no Hinduísmo, em Mergulho no Absoluto, op.cit., pg. 52.

 

 

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