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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco V. O MÉTODO DE TRANSFORMAÇÃO9. A PORTA ESTREITA E O CAMINHO APERTADO O objetivo da vida do homem é, como já foi visto, entrar, ou melhor, retornar ao Reino dos Céus. Esse Reino não é deste mundo, como disse Jesus, [1] e se encontra em toda parte, mas os homens não o reconhecem. O Reino está dentro de cada ser humano; ele é a dimensão espiritual da manifestação e pode ser adentrado quando o homem expande a sua consciência além dos limites usuais do mundo de nomes e formas expresso pela mente concreta.Jesus nos convida a trilhar esse caminho: [2] “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à Vida. E poucos são os que o encontram.” (Mt 7:13-14). A expressão usada por Jesus para descrever o caminho da perfeição, como sendo A porta estreita e o caminho apertado, é mais um exemplo da felicidade de sua terminologia. A Porta Estreita transmite a idéia de que só pode passar por ela quem não tiver carregando bagagens volumosas, ou seja, quem obedecer ao requisito básico de renunciar ao mundo, deixando para trás seus apegos à vida passada.Passar pela Porta Estreita é iniciar o caminho da perfeição. Para alcançar a meta o postulante terá que percorrer o caminho apertado, o ‘caminho do fio da navalha’ como é descrito nas tradições orientais. Esse caminho está cheio de perigos, devendo o viajante permanecer constantemente atento para não cair nas armadilhas existentes nos dois lados da via. Por isso, os excessos em qualquer direção são prejudiciais para o postulante, como alertou o Buda, ao ensinar o Caminho do Meio, livre dos extremos da vida de licenciosidade, por um lado, e das asceses rigorosas com punições e até mesmo macerações do corpo, por outro. Nesse sentido Jesus disse ainda: “Em verdade, em verdade te digo quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3:3). A expressão simbólica ‘nascer de novo’ (alterada na Bíblia de Jerusalém para ‘nascer do alto’) refere-se ao renascimento espiritual que ocorre quando o homem é iniciado nos mistérios divinos, tornando-se simbolicamente uma ‘criancinha’. A criança é inocente e verdadeira, sem condicionamentos limitadores, não tendo, portanto, uma grande ‘bagagem’, facilitando, assim, sua passagem pela porta estreita. Existem também uma interpretação de sentido ocultista na expressão do Mestre de que “estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à Vida.” Para aqueles que postulam que Jesus teria sido iniciado nos Mistérios egípcios, a expressão pode se referir ao local dos ritos na Grande Pirâmide onde eram conferidas as iniciações. Como essas iniciações provocavam expansões de consciência, verdadeiras iluminações, que permitiam ao iniciado a experiência da unidade e da eternidade, elas eram referidas como a “Vida”. Para chegar ao local da iniciação o discípulo tinha que atravessar uma estreita passagem: “A chamada Câmara do Rei ... se não era a ‘câmara das perfeições’ do túmulo de Cheops, era, provavelmente, o recinto onde tinha admissão o neófito depois de atravessar a estreita passagem do alto e a grande galeria com a extremidade pouco elevada, que gradualmente o preparavam para a fase final dos Mistérios.” [3]O caminho largo e espaçoso, por sua vez, não deve ser interpretado como sendo exclusivamente o dos ‘pecados capitais’, que sem dúvida afundam o homem ainda mais nas trevas da ignorância e do sofrimento. Para o aspirante espiritual que, como o jovem rico referido nos evangelhos (Mt 19:16-22; Mc 10:17-22; Lc 18:18-23), já obedece os preceitos básicos da lei, o que falta é a renúncia ao mundo, simbolizada na parábola pela renúncia aos bens materiais e, por outro lado, dedicação ao trabalho de autotransformação (seguir Jesus). O caminho largo e espaçoso, para o aspirante, representa o caminho da sabedoria convencional, sancionado em alguns casos pelas escrituras e santificado pela prática. Nele procura-se a segurança e a identificação com a cultura e a estratificação social prevalecentes, com suas quatro preocupações centrais: família, riqueza, honra e religião. [4]A família era considerada o esteio da sociedade judaica, tradição essa que perdura em nossos dias. A maior parte das famílias conhecia e vangloriava-se de sua genealogia. Jesus, porém, conclamava seus seguidores a abandonar suas famílias e segui-lo. Ele deu o exemplo, pois, ao ser alertado de que sua mãe e seus irmãos o aguardavam, virou-se para aqueles que o ouviam e disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3:34-35). Para Jesus, o discipulado envolvia uma clara escolha entre a dedicação estreita à família e o mais amplo amor à coletividade, ou seja, à família humana. Para seus contemporâneos, deve ter sido chocante a afirmação de Jesus de que não veio trazer paz à terra, mas sim divisão: “Pois doravante, numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas, e duas contra três” (Lc 12:52). Essa passagem refere-se á própria natureza do homem. A casa é o ser humano. De um lado ficam dois: a alma e o Eu Superior, contrapondo-se a três: o corpo astral, o destino vinculado ao corpo etérico e o corpo físico. Como Jesus simboliza o Eu Superior, ou Cristo, esta passagem indica que quando o Cristo interior finalmente se manifesta no homem (a casa), o resultado é a divisão que leva à batalha entre a natureza superior e a inferior. [5] Trata-se da tradicional batalha entre a luz e as trevas, que é travada no interior do homem.Nem mesmo a sagrada obrigação dos judeus ortodoxos de enterrar os pais escapou da crítica do Mestre. Quando um possível seguidor, desejoso de juntar-se aos seus discípulos, disse que iria primeiro enterrar seu pai, Jesus retrucou: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos” (Lc 9:60), fazendo um jogo de palavras cujo sentido era alertar aqueles meramente preocupados com o cumprimento da letra da lei para o fato de que eles estavam mortos no sentido espiritual, e são esses mortos espiritualmente que estão preocupados com a morte física. As posses e as riquezas eram, para os judeus, símbolos de segurança e identidade, sendo consideradas, juntamente com a honra, indicação da recompensa divina para os justos. A riqueza, portanto, não só era o instrumento para o conforto dos ricos, mas um motivo para seu orgulho, pois os ricos se consideravam eleitos dentre os eleitos de Deus. Nesse contexto torna-se mais fácil entender porque Jesus disse: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!” (Mc 10:23). Esse comentário do Mestre não significava necessariamente que a riqueza em si fosse condenável, até mesmo porque alguns de seus discípulos eram abastados de acordo com os parâmetros da época (como Bartolomeu, também chamado Nicodemos, Mateus, Felipe, os irmãos Lázaro, Tiago, Madalena e Marta, José de Arimatéia e algumas mulheres que contribuíam financeiramente para o movimento [6]), mas simplesmente que os bens materiais eram mais uma amarra poderosa que prendia os homens à vida do mundo e dificultava a vida espiritual.[7] Existe um aspecto de nossas posses que geralmente não recebe a devida atenção, que são as nossas idéias. Muitas pessoas têm mais dificuldade para desapegar-se de suas idéias que de suas posses materiais. Por isso, cada um de nós pode ser o “homem rico” da parábola, apegado aos supostos tesouros de sua mente. É por isso que os padres da igreja primitiva e a tradição mística falam da necessidade de esvaziamento (kenosis) como a primeira etapa do caminho.A honra também agia de forma semelhante, minando a alma com sentimentos de orgulho. Era, de certa forma, uma conseqüência do status da família, da situação do nascimento e da riqueza, e seu reconhecimento social podia aumentar ou diminuir em função da postura do indivíduo perante a sociedade. A honra era a consideração mais importante que o indivíduo acreditava merecer em função do seu status. Numa sociedade de relativamente poucas opções para o consumismo, boa parte das ações daqueles que tinham poder econômico, político ou social eram voltadas para a aquisição, preservação e demonstração da honra. Jesus, no entanto, ridicularizava aqueles que buscavam a honra em seu comportamento social, como por exemplo ocupar o lugar de destaque num banquete [8] ou na sinagoga[9], esperar saudações nas ruas[10] e, pior ainda, realizar suas práticas religiosas para obter reconhecimento social.[11]A religião era o ponto mais alto do reconhecimento da sabedoria convencional. A crença entre os judeus de serem o povo eleito de Deus, em virtude da promessa divina feita a Abraão, levava à conclusão natural de que as práticas religiosas eram o elemento central para assegurar a herança no Reino dos Céus. João Batista, em sua linguagem contundente chama a atenção para esse engano: “Não penseis que basta dizer: Temos por pai a Abraão” (Mt 3:9). Jesus levou mais adiante o argumento de que o Reino não é exclusivamente, nem mesmo primordialmente, dos judeus, ao atestar a fé do centurião romano: “Mas eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa no Reino dos Céus, com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão postos para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mt 8:11-12). É, assim, fácil de entender a ênfase dada às práticas religiosas entre os judeus que julgavam que suas realizações no mundo eram indicações de que Deus começava a prodigalizar na terra o que seria consumado no céu. Jesus como sábio crítico social e arauto da verdade criticou, em diversas ocasiões, essa atitude de profunda miopia espiritual de seus conterrâneos. A mensagem de Jesus subverte esses valores culturais. Suas parábolas e provérbios, revertendo as expectativas criadas pela sabedoria convencional, provocaram perplexidade e animosidade entre os judeus, despertando ressentimentos entre os guardiões da cultura religiosa, ou seja, entre os levitas e fariseus. Nas palavras de um erudito moderno, Jesus “atacou o ‘caminho largo e espaçoso’ da sabedoria convencional como um meio inadequado para realizar uma transformação interna. Na verdade, ele considerou-a não só como uma cura inadequada mas como parte do problema. A sabedoria convencional torna-se facilmente uma armadilha, prendendo o ego com suas promessas de segurança e identidade, levando-o a preocupar-se com assuntos externos, limitando sua visão e estreitando seus interesses e compaixão. Jesus subverteu a sabedoria convencional pela raiz, vendo-a, juntamente com a autopreocupação que ela promovia, como o mais sério obstáculo a ser vencido pelo devoto que busca centralizar sua vida e conduta nos caminhos de Deus.” [12]A expressão ‘a porta estreita e o caminho apertado’ também transmite outro conceito profundamente oculto relacionado à possibilidade de experiências psíquicas em estados alterados de consciência. Isso ocorre quando, num determinado momento da prática espiritual, o devoto sente como se sua alma tivesse alçado vôo no qual experimenta uma expansão de consciência, percebendo a realidade em outros planos, onde pode receber instruções, experimentar visões beatíficas, penetrar na Luz, ou mesmo, sentir-se uno com Deus. Essa experiência mística é descrita por muitos como iniciando-se com a sensação de que o ser está passando em alta velocidade por um túnel estreito e escuro. Para trilhar-se o Caminho da Perfeição, deve-se, nas palavras de Paulo, deixar o homem velho morrer para que o homem novo possa nascer. [13] Essa é a idéia por trás das palavras de Jesus: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8:34). Isso significa uma transformação radical simbolizada pela expressão ‘morrer para o mundo’,[14] o que só pode ser feito atacando as causas e não os efeitos de nossas perturbações mentais. Nossas ações são efeitos, as causas são nossas atitudes mentais, que desencadeiam pensamentos e emoções que determinam nosso comportamento. Portanto, são esses estados mentais que devem ser mudados.O processo de transformação é longo e árduo, porque a personalidade autocentrada resiste por todos os meios a qualquer mudança, erguendo barreiras, apresentando dificuldades, racionalizando sempre com todo tipo de argumento o porquê não pode e não deve mudar. As dificuldades do caminho espiritual podem ser imaginadas como a subida de uma ladeira íngreme que se torna mais difícil quanto maior for o peso das tendências materiais que tivermos de carregar. Esse processo de transformação era conhecido no cristianismo primitivo como metanoia, posteriormente traduzido como ‘arrependimento.’ Neste sentido, em quase todos livros da tradição cristã, quando encontramos a palavra arrependimento, o que está sendo transmitido é a idéia de mudança de atitude, valores e orientação de vida, devido à mudança mental. [15]O caminho espiritual, portanto, é o processo de gradativa mudança do estado mental do homem, que deixa de ser autocentrado para tornar-se theoscentrado (centrado em Deus). Inicialmente a metanoia significa uma mudança nos pensamentos, do material para o espiritual. Chega um determinado momento em que a resistência inercial do mundo material é vencida e a alma, guiada pelo Cristo interior, alça vôo, transcendendo os pensamentos ordinários e voltando-se cada vez mais para Deus. A partir desse momento o progresso da alma será acelerado, à medida que a luz interior vai desabrochando até alcançar a meta final, a plenitude do Cristo. Parece que Paulo se referia a esse tipo de transformação radical da mente quando disse algo que lembra muito o dharma budista: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus” (Rm 12:2). Essa vontade parece ser a consecução da perfeição, uma perfeição tão sublime que transcende qualquer idéia que o homem possa dela ter em sua experiência de vida usual. Poderia ser imaginada como sendo a plena união de Espírito e matéria ou, vista sob outro ângulo, a plena manifestação do Espírito através da matéria. Essa meta foi alcançada pelos grandes Mestres, referidos como “homens justos que chegaram a perfeição” (Hb 12:23), que expressam o divino amor, poder e sabedoria num grau muito além do concebido pelo homem comum. [1] Jo 18:36. [2] No primeiro século de nossa era, a tradição cristã é referida em Atos (9:2) como o Caminho. [3] Stanisland Wake, “The Origin and Significance of the Great Pyramid”, citado por H.P. Blavastky em A Doutrina Secreta, vol. II, pg. 23. [4] Marcus Bog, Jesus. A New Vision (Harper San Francisco, 1991), pg. 115 [5] Vide Pistis Sophia, op.cit., 343-44 [6] Vide Lc 8:1-3. [7] Vide Jesus, a New Vision, op.cit., pg. 104-105. [8] Lc 14:8-11 [9] Lc 11:43 [10] Mc 12:38-39 [11] Mt 6:1-2, Mt 6:5 e Mt 6:16 [12] Jesus. A New Vision, op.cit., pg. 116. [13] Cl 3:9-10. [14] Cl 3:5. [15] Vide, Pistis Sophia. Os Mistérios de Jesus, op.cit., pg. 32.
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