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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco V. O MÉTODO DE TRANSFORMAÇÃO11. OS PRIMEIROS PASSOS O despertar Jesus costumava referir-se aos homens comuns como se estivessem ‘mortos’[1] ou ‘dormindo’.[2] O que caracteriza esses estados é que neles a consciência está total ou parcialmente embotada e o indivíduo ainda não deu o primeiro passo na senda de retorno, agindo como semi-autômato, levado por seus condicionamentos. Sendo a jornada espiritual um processo de constante expansão de consciência, o primeiro passo deve ser necessariamente o despertar espiritual, ou seja, o redirecionamento da vida para os objetivos espirituais. É interessante lembrar que Buda, após alcançar o estado de plena iluminação, se autodenominava ‘o desperto,’ pois havia despertado inteiramente sua natureza divina inata. O que seria capaz de fazer o homem comum despertar espiritualmente e, assim, reverter a tendência para uma vida autocentrada e voltada a maior parte do tempo para a gratificação dos sentidos e as preocupações relacionadas com posição social, segurança e conforto? A providência divina, que tudo prevê e provê, sempre de forma natural, valendo-se de mecanismos inerentes ao processo da vida, proporciona os meios que capacitam esse despertar. A regra geral do despertar espiritual implica num lento processo em que as frustrações resultantes do atrito entre as expectativas e as realidades da vida vão amadurecendo gradativamente o indivíduo. Ele reconhece a lei de causa e efeito e desenvolve o discernimento, o que lhe permite distinguir as coisas passageiras das permanentes, as ilusórias das reais. Esse processo geralmente leva muitas vidas e deve ser retomado em cada encarnação, até que a alma assuma um compromisso irreversível com a vida espiritual. A partir de então, é estabelecida uma tendência de anseio espiritual capaz de fazer com que, em outras vidas, o caminho seja retomado mais cedo e em circunstâncias mais favoráveis. Essa é, portanto, a aparente exceção à regra: o caso de indivíduos que, já na infância ou juventude, demonstram uma inclinação inabalável para a vida espiritual. Esse caso, está estritamente dentro dos limites da lei de causa e efeito. As almas dessas pessoas estão colhendo o que plantaram em vidas anteriores e terão a ocasião e as condições para efetuar um rápido progresso rumo à perfeição em cada nova encarnação. Chega um determinado momento da vida do homem em que, não importa quais as suas condições externas de vida, a divina insatisfação toma conta de seu coração. É como se a alma tivesse saudades de um outro mundo, de outra vibração, mais condizente com sua verdadeira natureza. A natureza está antecipando o despertar que em breve deverá ocorrer. Na Bíblia, esse processo é simbolizado pela pregação de João Batista (Jo 1:23-31), o precursor do Cristo, que anuncia a iminente chegada do Salvador. O termo ‘despertar’ deve ser compreendido numa perspectiva mais abrangente, expressando a passagem da alma por diversos estágios na senda. O estágio do ‘despertar’ pode ser imaginado como um ponto de inflexão na curva evolutiva de cada ser humano, em que a tendência para a estagnação ou mesmo para queda na materialidade é revertida, resultando numa nova orientação no sentido da luz. A alma ‘desperta’ inúmeras vezes ao longo de sua peregrinação pelo mundo. Esse despertar é especialmente importante em duas ocasiões: a primeira, quando o homem, em cada encarnação, sente-se cansado da busca de prazeres materiais e decide reorientar sua vida; a segunda, quando já no caminho da busca espiritual, desperta seu ser de luz, o Cristo interior. Paulo referiu-se claramente a esse nascimento quando escreveu a seus discípulos: “meus filhos, por quem eu sofro de novo as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4:19). Esse estágio, foi descrito por Jesus como o renascimento: um evento iniciático que confere simplicidade e inocência tais que o discípulo é comparado a uma criancinha, como vemos nesta memorável passagem: “Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3:3). O despertar também pode ser visto sob o prisma do atendimento ao chamado de Deus, que, desde o princípio da vida humana, procura se fazer ouvir em nossa consciência. A natureza superior do homem procura prevalecer sobre a natureza inferior, para trazer paz de espírito e verdadeira felicidade à alma. Isso porque, enquanto o homem preocupar-se em atender os ditames de sua natureza inferior não encontrará harmonia nem felicidade. O processo do despertar também está representado na literatura esotérica como uma carta enviada pelo pai ou pelo rei, como no Hino da Pérola (Anexo 2). Essa idéia também foi expressa por Paulo quando escreveu: “Nossa carta sois vós, carta escrita em nossos corações, reconhecida e lida por todos os homens. Evidentemente, pois, uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações!” (2 Cor 3, 2-3).
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