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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS17 - PURIFICAÇÃO A purificação parece ser o ponto alto de toda a ascese da via negativa, o processo de purgação pelo qual os místicos procuram evitar as vibrações negativas e mudar radicalmente de vida para merecerem ser admitidos na Presença de Deus. A necessidade de purificação é enfatizada em todas as tradições. No entanto, todos os mestres advertem que, na prática, os devotos tendem a cometer exageros na ascese, desperdiçando seus esforços no objetivo errado. Todas as práticas de ascese devem ser voltadas para reforçar a vontade de fazer a coisa certa, ou seja, promover a ausência de desejo por objetivos inferiores, ao mesmo tempo em que procuram reverter as tendências estabelecidas pelos comportamentos errôneos adotados durante muitas vidas. O poder escravizador das tendências mundanas foi aludido na passagem lapidar de Paulo: “Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. Na realidade, não sou mais eu que pratico a ação, mas o pecado que habita em mim. Eu sei que o bem não mora em mim, isto é, na minha carne. Pois o querer o bem está ao meu alcance, não porém o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero” (Rm 7:15,17-19) Todo ser humano compartilha com o apóstolo Paulo a perplexidade de insistir em manter padrões de comportamento e atitude negativos, mesmo depois de saber que são destrutivos e trazem infelicidade para nós e para os outros. Paulo explica essa compulsão como advindo do “pecado que habita em nós.” O pecado nada mais é do que a natureza inferior com suas imagens entrincheiradas por trás das defesas da obstinação, do orgulho e do medo que nos aprisionam num círculo vicioso. Por isso o processo de purificação deve procurar atingir a raiz do problema, o “pecado que habita em nós.” O homem, porém, sempre achou mais fácil fazer coisas externas do que efetuar as necessárias mudanças em seu interior. Desde a mais remota antigüidade preferia as asceses, o uso de cilícios, sacrifícios e jejuns à prática das virtudes. Uma tocante passagem do profeta Isaías demonstra que os verdadeiros ensinamentos espirituais, com suas devidas prioridades, sempre estiveram ao alcance da humanidade: “Não continueis a jejuar como agora, se quereis que a vossa voz seja ouvida nas alturas! Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniqüidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne?” (Is 58:4, 6-7). Conhecendo essa tendência milenar de excessos na ascese, Jesus declarou: “Um burro, girando uma pedra de moinho, caminhou cem milhas. Quando ele foi solto, percebeu que ainda estava no mesmo lugar. Existem homens que fazem muitas jornadas, mas sem fazer nenhum progresso em qualquer direção. Quando o crepúsculo os surpreende, não encontram nenhuma cidade nem vilarejo, nenhum produto humano nem fenômeno natural, poder nem anjo. Labutaram em vão, os coitados!”[1] As tradições orientais são ainda mais específicas ao tratar do assunto. Vemos assim, nos Ioga Sutras de Patanjali, que a krya ioga, ou ioga preliminar, conhecida como yamas e nyamas, ou proibições e prescrições, tem um papel fundamental. O iogue não conseguirá fazer muito progresso enquanto não preparar suficientemente seus veículos para a jornada interior. Alguns iogues e certas tradições monásticas, em seu zelo de purificar as tendências materiais, buscam na mortificação do corpo um meio rápido para alcançar esse fim. [2] Todos os mestres são contra exageros nesse particular. O Senhor Buda, depois de verificar por experiência própria que a excessiva mortificação do corpo com longos jejuns o havia debilitado a ponto de não poder se concentrar na meditação, preconizou o Caminho do Meio, em que o buscador deve evitar os extremos de licenciosidade e de maceração do corpo, mas viver com disciplina e controle da mente, pois é a mente que controla o corpo. Procurando retificar os conceitos errôneos existentes em sua época sobre a purificação, Buda ensinou: “O costume de andar nu, os cabelos trançados à maneira dos ascetas, os jejuns, o dormir no chão ao relento, o cobrir-se com cinzas ou poeira, o sentar-se imóvel nos calcanhares (em penitência), as prosternações, nada disso purifica o mortal que não se livrar do desejo e da dúvida.”[3] Essa mesma idéia já era propalada pelo Bhagavad Gita: “Há pessoas que, espontaneamente, se martirizam e mortificam seu corpo, o que nenhuma Escritura Sagrada aconselha nem prescreve; tais pessoas são hipócritas, vaidosas, cheias de paixão, e desejam obter recompensas e louvores”.[4] Como os homens tendem a imaginar a Deidade como uma extensão de seus pequeninos “eus”, susceptível à lisonja, procuram acrescentar às suas asceses toda sorte de oferendas propiciatórias, que vão desde presentes para a igreja, acender velas para os santos, rezar o terço, até “pagar promessas” de todos os tipos. Jesus, repetindo a sabedoria milenar já expressa no Antigo Testamento, disse: “Misericórdia é que eu quero e não sacrifício” (Mt 12:7). A maior parte dos excessos das disciplinas físicas utilizadas para promover a purificação poderia ser evitada se o processo de condicionamento da personalidade fosse levado em consideração. Existe hierarquia em todos os sistemas do universo, inclusive em nossa personalidade: o corpo físico é governado pelas emoções, e esses dois pelos pensamentos conscientes e os condicionamentos inconscientes. Portanto, a verdadeira ascese tem que visar primordialmente a mente e não o corpo físico. Quando nos conscientizamos de que certas atitudes, tais como a busca do poder, da riqueza, do status, da sensualidade, enfim, de que todas as atitudes egoístas são prejudiciais ao progresso espiritual, damos o primeiro grande passo para a purificação. O grau de pureza expresso em nossas ações, palavras e pensamentos refletem nossas intenções e motivações ulteriores. É por isso que Jesus disse no Sermão da Montanha, “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5:8). Os puros de coração são aqueles seres simples e sinceros que agem espontaneamente sem segundas intenções. Como diz um místico: “Quando não há egoísmo, ambição e medo no coração humano, todas as atividades externas do homem serão boas. Às vezes, as impurezas em nossos motivos são tão sutis e intangíveis que passam despercebidas.”[5] Os processos de purificação e de renúncia, assim como tudo mais no verdadeiro caminho espiritual, devem andar de mãos dadas com o amor. O devoto não pode, em nenhum momento, sentir ódio ou aversão a seu corpo físico, acreditando que o corpo é a fonte de seus problemas. Ao contrário, o corpo físico deve ser encarado com simpatia, pois é um instrumento maravilhoso, um verdadeiro milagre de harmonia e beleza oferecido pela natureza e sem o qual não teríamos a possibilidade de progredir no Caminho. Assim como seria imaturo e pouco inteligente de nossa parte sentir vergonha de nosso comportamento quando éramos bebês, quando fazíamos nossas necessidades fisiológicas na fralda, assim também não é lógico uma atitude de condenação de nosso corpo, das nossas emoções e pensamentos enquanto personalidades imaturas. Nossa atitude, ao contrário, deve ser de grande compaixão, encarando nosso eu inferior como o ser primitivo que é, adotando para com ele a mesma postura de compreensão e firmeza amorosa que temos ou que deveríamos ter para com nossos filhos. É a mente, mais do que o corpo, que deve ser disciplinada. A disciplina exige profunda compreensão dos processos de condicionamento que nos levam a fazer o mal que não desejamos ao invés do bem que queremos. A purificação do corpo, no entanto, deve ser promovida levando em conta as devidas prioridades relacionadas com a purificação das emoções e dos pensamentos. A tarefa mais importante, nesse particular é dissociar-nos da identidade com o corpo. Devemos pensar em nós como a alma que usa um corpo físico. Para tanto, será útil lembrarmos que não somos nós que temos sede, fome, sono, etc., mas sim o corpo físico. A alimentação apropriada impede a contaminação do corpo. Por alimentação apropriada devemos entender alimentos saudáveis, leves e, principalmente, em quantidade moderada, para assim mantermos a saúde em vez de satisfazermos a gula. Uma alimentação pesada e excessiva dificulta a digestão, a saúde e a meditação.[6] Como a verdadeira purificação é interior, isso significa que toda ascese exterior é desnecessária? As disciplinas exteriores podem ser úteis, como instrumentos complementares, para as práticas interiores, desde que usadas com o devido equilíbrio. Por exemplo, é conhecido na tradição monástica que os jejuns e as vigílias são instrumentos importantes na ascese. Os jejuns e as vigílias, afetando aspectos ainda pouco conhecidos da fisiologia humana, podem facilitar ou mesmo provocar estados alterados de consciência quando o corpo e a psique parecem estar perto de seus limites. Esse parece ser também o princípio que levam os dervixes[7] a efetuar seus rodopios na tentativa de induzir estados exaltados de consciência. Dentre as práticas monásticas da Igreja Oriental, como as realizadas em Monte Athos na Grécia, encontramos as vigílias, conhecidas entre eles como agrypnia (sem dormir), que são os serviços litúrgicos e preces durante toda a noite. Nessas ocasiões, a constância da lembrança de Deus, em meio a preces auxiliadas pela vibração de devoção de toda a congregação do mosteiro e facilitada pela alteração psico-fisiológica do cansaço, tende a criar uma atmosfera psíquica propícia para os contatos interiores. O mesmo parece ocorrer após jejuns mais prolongados, que servem para quebrar o domínio das demandas do corpo sobre a mente. Ainda que esses processos sejam difíceis de explicar, a prática dentro de certos limites mostra sua utilidade.[8] O objetivo de todas as práticas de purificação envolvendo o corpo e a mente é criar condições favoráveis para o despertar do Cristo interior. Quando isso ocorre, o sucesso está garantido, pois o homem passará a contar com a ajuda divina para proceder às transformações necessárias de dentro para fora. A purificação promovida pela ação da natureza superior é o tema, geralmente pouco compreendido, da comensalidade de Jesus, como exemplifica a seguinte passagem: “Aconteceu que, estando Jesus à mesa em casa, vieram muitos publicanos e pecadores e se sentaram com ele e seus discípulos” (Mt 9:10). Os judeus ortodoxos insistiam em regras rígidas de segregação e purificação em seus hábitos alimentares. A aceitação por parte de Jesus da participação de publicanos (coletores de impostos) e de notórios pecadores à mesa, e sua negligência às regras de ablução exigidas antes das refeições, devem ser entendidas no sentido alegórico. Jesus representa o princípio divino no homem, e seus discípulos são os atributos e qualidades mais elevadas da mente. Os publicanos e pecadores representam os aspectos da natureza inferior, como o egoísmo, a ganância, o orgulho e a sensualidade. A casa representa o corpo físico, onde todos se encontram. A interação do princípio divino e dos atributos superiores da mente com os aspectos da natureza inferior, simbolizada pela refeição compartilhada, promove a regeneração e a transformação do homem exterior. Essa integração do superior com o inferior, ainda que anátema para o homem do mundo guiado pelo preconceito e pela sabedoria convencional, é o processo pelo qual ocorre a mudança de orientação do material para o espiritual. Em que pese os exercícios de ascese, a prática da verdade é o agente purificador mais seguro. Em nossa tradição, a frase de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32), resume o processo de purificação. Esse ensinamento é reiterado na epístola de Pedro: “Pela obediência à verdade purificastes as vossas almas para praticardes um amor fraternal sem hipocrisia” (1 Pd 1:22). Esse processo nada mais é do que a remoção de todas as falsidades e negatividades que obscurecem e abafam o Cristo interior. Portanto, a primeira etapa da purificação deve ser o autoconhecimento, como foi visto anteriormente. Esta mesma idéia é apresentada numa interessante passagem do Bhagavad Gita: “Não há, no mundo, outro agente de purificação igual à chama da Verdade Espiritual. Quem a conhece, quem a ela se dedica, será purificado das manchas da personalidade, e achará o seu Eu Real.”[9] O processo de identificação de nossas negatividades é bem mais complexo e delicado do que as pessoas geralmente imaginam. Tanto a repressão como o sentimento de culpa são contraproducentes. O processo requer, numa primeira etapa, a identificação, sem julgamento, das negatividades que condicionam nossas reações ao mundo exterior. Significa trazer o material inconsciente para o consciente, para então ser trabalhado. Essa é a tarefa mais delicada e difícil da verdadeira purificação que leva à autotransformação. Não podemos transformar aquelas negatividades que desconhecemos e que, em geral, negamos. Quando as negatividades são identificadas com o auxílio do Eu Superior, é possível reorientar as forças distorcidas, transformando-as em energias construtivas. O amor e a sabedoria do Cristo interior são essenciais nessa tarefa. Na medida em que tivermos êxito nesse processo de desbloquear as energias dos condicionamentos inconscientes, seremos capazes de manifestar cada vez mais plenamente o Cristo interior. Por isso foi dito que: “Se confessarmos nossos pecados, ele, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça” (1 Jo 1:9). O poder purificador da verdade também é aludido de forma contundente na passagem do Evangelho de Felipe sobre a raiz do mal: “(A maior parte das coisas) no mundo, enquanto suas (partes internas) estão ocultas, ficam de pé e vivem. (Se são reveladas), morrem... Enquanto a raiz está escondida ela brota e cresce. Se suas raízes são expostas, a árvore seca. Assim ocorre com todo nascimento no mundo, não só com o revelado, mas (também) com o oculto. Porque, enquanto a raiz da maldade está escondida, esta permanece forte. Mas quando é reconhecida ela se dissolve. Quando é revelada ela morre. É por isso que a palavra disse: ‘O machado já está posto à raiz da árvore’. Ele não só cortará -- o que é cortado brota outra vez -- mas o machado penetra profundamente até trazer a raiz para fora. Jesus arrancou inteiramente a raiz de todas as coisas, enquanto outros só o fizeram parcialmente. Quanto a nós, que cada um cave em busca da raiz do mal que está dentro de si, e que ele seja arrancado do coração de cada um pela raiz. O mal será arrancado se nós o reconhecermos. Mas se o ignorarmos, ele se enraizará em nós e produzirá seus frutos em nossos corações.”[10] [1] Evangelho de Felipe, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 147-48. [2] “Se não fazes violência a ti mesmo, jamais vencerás as tuas paixões. Enquanto arrastarmos este corpo frágil, não poderemos estar sem pecado, nem viver sem tédio e sem dor.” Imitação de Cristo, op.cit., pg. 83. [3] Dhammapada, op.cit., pg. 33. [4] Bhagavad Gita, op.cit., pg. 156. [5] The Mystical Christ, op.cit., pg. 172. [6] “Devemos também jejuar e abster-nos dos vícios e pecados bem como do excesso no comer e no beber.” São Francisco, op.cit., pg. 85. [7] Membros de uma fraternidade religiosa islâmica do oriente médio, derivada do sufismo, que apresenta certa semelhança com as ordens monásticas cristãs. [8] Vide A Different Christianity, op.cit., pg. 217-25. [9] Bhagavad Gita, op.cit., pg. 63. [10] Evangelho de Felipe, op.cit., pg. 158. _____________________________________
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