Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

III. A META: O REINO DOS CÉUS

3. O SIGNIFICADO DO REINO PARA A ORTODOXIA 

Tanto os evangelhos canônicos como os gnósticos indicam claramente que o ponto central do ensinamento de Jesus era a pregação do ‘Reino.’ Nos evangelhos sinóticos existem mais de cento e vinte referências sobre o Reino de Deus e o Reino dos Céus. Em inúmeras admoestações e parábolas o Mestre alerta que ‘O Reino de Deus está próximo.’ Com seu coração compassivo, convidava a humanidade sofredora a buscar refrigério e salvação no Reino. Nos apócrifos, além das expressões Reino, Reino dos Céus, Reino de Deus, foram usadas outras equivalentes: Mundo de Luz, Pleroma e Herança da Luz.  

Os evangelhos usam diferentes expressões para o “Reino”. Mateus geralmente prefere o termo, “Reino dos Céus,” Marcos e Lucas preferem “Reino de Deus,” enquanto Tomé usa “Reino do Pai.” Em João encontramos a expressão “Vida Eterna” num sentido semelhante ao Reino dos sinóticos. É provável que essas distinções sejam meramente literárias e reflitam a preferência dos compiladores e não de Jesus. Por isso, usaremos esses termos indistintamente, como sinônimos. 

Jesus, porém, não apenas pregava sobre o Reino, mas ensinava como nos prepararmos para nele entrar. Ele ainda nos convida a participar da glória do Reino, do qual somos herdeiros naturais, sem distinção de raça, classe social ou denominação religiosa. Para isso basta reivindicarmos nosso direito de nascença a essa herança. O chamado para nos acercarmos do Pai misericordioso provocou uma revolução espiritual no início de nossa era. Seus contemporâneos na Palestina e muitos milhões de seres, desde então, ficaram fascinados com a possibilidade de entrar no Reino de Deus. Infelizmente, relativamente poucos tiveram a coragem e a determinação para empreender a jornada rumo a essa meta. 

Todo ser humano, sendo em sua natureza última uma centelha ou expressão da própria Divindade, tem dentro de si uma programação ou condicionamento original que o leva a buscar suas origens para voltar ao estado de bem-aventurança e gozo de sua herança divina. Esse tema da orientação interior da alma é abordado com grande mestria no Hino da Pérola, apresentado no Anexo 2. Portanto, ao pregar reiteradamente que o Reino de Deus estava próximo, Jesus atendia ao anseio mais profundo da alma de todos seus ouvintes. 

Entre os estudiosos da Bíblia, incluindo os modernos buscadores do Jesus histórico, a questão do Reino parece ser um dos principais pontos de concordância. As palavras de Norman Perrin parecem resumir esse consenso: “O aspeto central do ensinamento de Jesus foi relacionado ao Reino de Deus. Não pode haver dúvida sobre isso e hoje nenhum erudito, na verdade, duvida-o. Jesus apareceu como aquele que proclamou o Reino; tudo o mais em sua mensagem e ministério condiciona-se àquela proclamação e dela deriva seu significado.”[1] 

Logo no início de seu ministério na Galileia, após seu batismo por João, Jesus disse: Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo (Mc 1:15). A indefinição sobre a ‘proximidade’ do Reino, geralmente interpretada num sentido temporal e alimentada pela tradição apocalíptica judaica, gerou a expectativa de um iminente fim dos tempos, com o tão temido juízo final. Algumas passagens da Bíblia são usadas para esse tipo de interpretação, como por exemplo: 

Enviando seus discípulos para pregar a Boa Nova, Jesus disse: “Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel. Dirigindo-vos a elas, proclamai que o Reino dos Céus está próximo  (Mt 10:6-7).

Nessas e em todas as outras referências sobre o Reino, Jesus não especifica nem define a natureza do Reino nem indica claramente o que significa essa proximidade. Isso não deveria surpreender aos buscadores dos ensinamentos ocultos de Jesus, porque o uso de linguagem simbólica, ou cifrada, é conhecido e esperado nos meios esotéricos. Mas, a grande maioria dos leitores da Bíblia, ao longo dos séculos, permaneceu confusa a esse respeito, e nisso tiveram a companhia de muitos teólogos.


[1] Rediscovering the Teachings of Jesus, op.cit., pg. 54.

 

 

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