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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco VII. TRILHANDO O CAMINHO27 - A VIDA DO CRISTO COMO O CAMINHO Terceira iniciação: a transfiguração A terceira iniciação é geralmente representada na vida de Jesus pela transfiguração. É possível que esse acontecimento tenha sido inserido no lugar errado no relato bíblico, pois, no texto de Pistis Sophia, a transfiguração ocorre após a ressurreição de Jesus dos mortos como parte do processo de iluminação suprema do Mestre, simbolizado pela ascensão ao céu.[1] Nas duas hipóteses, a transfiguração retrata o processo de iluminação, que na terceira iniciação é parcial, enquanto na quinta é total e definitiva. O relato menciona que a cena ocorre num monte (Mt 17:1-8), o que significa uma elevação do estado de consciência. Assim como na primeira iniciação os pastores de alma estavam presentes, também nessa ocasião os predecessores de Jesus no caminho da perfeição (Moisés e Elias) participam desse momento de glória. Mas, se a transfiguração realmente tiver ocorrido como parte da quinta iniciação, qual seria, então, a passagem bíblica representativa da terceira iniciação? Certamente a eucaristia, o misterioso banquete divino. Jesus anuncia que desejava participar da páscoa com seus discípulos e que não a comeria até que ela se cumprisse no Reino de Deus (Lc 22:16). Ora, como foi dito anteriormente, o Reino de Deus é o estado de consciência da unidade, que é justamente alcançado quando a natureza superior do homem comunga com sua natureza inferior, o que é simbolizado pela eucaristia. A terceira iniciação seria, então, simbolizada pela comunhão do pão e do vinho dos doze apóstolos. Toda a cena e seus personagens, no seu sentido esotérico, deve ser entendida como simbólica. Jesus e seus doze apóstolos simbolizam a totalidade do ser humano, sendo a casa onde ocorre a ceia a representação do corpo físico, o templo de Deus. A ceia tem lugar no pavimento superior (Lc 22:11), ou seja, num estado de consciência elevado. Jesus representa a natureza divina do homem, o Cristo interior. Os doze apóstolos personificam as características do homem no mundo, com suas qualidades e fraquezas.[2] Pedro, por exemplo, representa a impulsividade e pusilanimidade do homem que ainda não aprendeu a controlar suas emoções. Judas, o traidor, com sua cobiça e ambição, simboliza o lado sombra que acompanha todo discípulo até as últimas etapas do caminho. João, o discípulo que Jesus amava, retrata a alma, a unidade de consciência, que busca a inspiração do Alto, simbolicamente reclinando sua cabeça (símbolo da mente) sobre o coração de Jesus (símbolo do Cristo interior), para aí permanecer no aguardo da Graça Divina. A sagrada eucaristia representa a integração do ser humano. Os aspectos da natureza humana, com suas negatividades e qualidades, os doze discípulos, recebem de Jesus, o pão e o vinho, símbolos da carne e sangue do Cristo, com a admoestação: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6:53). Obviamente Jesus estava falando em linguagem cifrada, indicando que a carne do Cristo significa o conhecimento espiritual, o sagrado alimento que confere iluminação ao intelecto humano. O sangue de Cristo simboliza a vida divina, o fluido essencial que constantemente se verte sobre todo o universo, sem a qual nenhum ser poderia viver. A consciência da divina presença no homem iluminado confere a certeza da imortalidade da natureza superior do homem, a vida eterna de que nos fala a Bíblia.[3] Após a exaltação conferida pela terceira iniciação, a inexorável lei divina da harmonia leva o iniciado a experimentar o seu oposto. No relato bíblico isso é apresentado como a experiência no Getsêmani, que ocorre apropriadamente após a ceia pascal (Mt 26:36-45). Jesus convida três de seus discípulos mais próximos a acompanhá-lo, para juntos orarem. Mas naquele momento de angústia, em que o iniciado descortina sua missão e os sacrifícios e sofrimentos que lhe sobrevirão, ele verifica que está só. Não conseguirá nenhum apoio externo ou interno nesse momento de solidão, o que é simbolizado nos evangelhos pelos discípulos dormindo durante a oração (Mt 26:40-45). Numa atitude normal a qualquer ser humano, ao perceber o intenso sofrimento que lhe aguardava, Jesus invoca a Deus e diz: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice” (Lc 22:42). Porém, como iniciado comprometido com a missão de redenção da humanidade, aceita as conseqüências de uma vida altruísta de total desapego, ainda que ao preço de sua própria vida, e submete-se humildemente à vontade divina. [1] Pistis Sophia, op.cit., pg. 93-95. [2] Alguns autores sugerem que os doze apóstolos representam os doze signos do zodíaco. Gaskell, um estudioso da simbologia esotérica propõe a seguinte correspondência: Pedro – a mente analítica inferior; André – fé e investigação; Tiago – esperança e progresso; João – amor e filosofia; Felipe – coragem e determinação; Bartolomeu – perseverança; Tomé – busca intelectual da verdade; Tiago Alfeu – modéstia e receptividade; Simão Zelote – gentileza e atenção; Judas, irmão de Tiago; mente aberta; Mateus – deliberação crítica; Judas – prudência. (vide G.A. Gaskell, Dictionary of the Sacred Language of all Scriptures and Myths (Londres: G. Allan & Unwin). [3] Vide G. Hodson, The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg. 41.
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