Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

II. O LADO INTERNO DE UMA TRADIÇÃO 

A tradição oral  

Como o próprio nome diz, a tradição oral é transmitida de boca a ouvido. Porém, com o passar do tempo, com o fito de proteger esse acervo de eventuais perdas ou possíveis distorções, parte dessa tradição foi escrita, tornando-se paulatinamente conhecida do público estudioso.  

Tudo leva a crer que os ensinamentos reservados aos discípulos foram transmitidos e conservados pela tradição oral. Isso significa que os discípulos iniciados por Jesus nos mistérios transmitiram esses ensinamentos reservados diretamente a seus próprios discípulos, que os ensinaram a outros e assim sucessivamente. É provável que pelo menos parte desses ensinamentos tenha sido colecionada e passada para a linguagem escrita, ainda que de forma velada. Como exemplo, cita-se o original do Evangelho de Mateus, ou Matias, como era conhecido naquela época, que Jerônimo traduziu do original em aramaico para o grego. Jerônimo comenta que teve muita dificuldade para entender o texto, porque esse havia sido escrito de forma cifrada, não possuindo ele a chave para decifrar os ensinamentos aí contidos. O texto original desse Evangelho foi, desde então, subtraído dos olhares curiosos do mundo.[1] 

        É provável que uma parte dos ensinamentos transmitidos pela tradição oral fosse a chave para a interpretação dos ensinamentos de Jesus que foram preservados nos documentos canônicos e não-canônicos. O conhecimento dessas chaves colocava à disposição dos estudiosos credenciados um imenso tesouro de informações sobre a natureza do ser, seu propósito de vida e indicações sobre como proceder às transformações necessárias para trilhar-se a Senda da Perfeição que leva ao Reino dos Céus. Parte desse acervo da tradição oral parece estar ainda preservada em alguns mosteiros, principalmente na Síria e na Grécia, aí, no Monte Athos. Esses centros de espiritualidade cristã ainda ensinam métodos e práticas que parecem remontar aos primeiros séculos da nossa era. Uns poucos pesquisadores tiveram acesso a essas comunidades e, após passarem algum tempo ali, relataram aquilo que puderam perceber e entender.[2]


[1] Blavatsky escreve em Isis sem Véu (op.cit., vol. III, pg. 164), que “Jerônimo encontrou o original hebreu (em caracteres hebraicos e na língua aramaica) do Evangelho de Mateus na biblioteca de Cesaréia, fundada por Pânfilo Martir. ‘Os nazarenos, que em Béria de Síria, usavam este Evangelho deram-me permissão para traduzi-lo,’ escreve Jerônimo em fins do século IV.

     O fato de os apóstolos receberem de Jesus ensinamentos secretos evidencia-se nas seguintes palavras de São Jerônimo, confessadas talvez em um momento de espontaneidade, quando, escrevendo aos bispos Cromácio e Heliodoro, ele se queixa: ‘Mui difícil foi a tarefa que Vossas Reverências me encomendaram (a tradução), pois o próprio apóstolo São Mateus não quis escrever em termos claros. Porque, se não se tratasse de um ensinamento secreto, teria acrescentado ao Evangelho alguns comentários seus; mas o escreveu em caracteres hebraicos, de seu próprio punho, dispondo estes de maneira tal que o sentido ficou velado, sendo perceptível somente às pessoas de maior religiosidade e, no transcurso do tempo, aos que houvessem recebido de seus antecessores a chave interpretativa. E esses nunca deram o livro a ninguém para ser copiado. Uns apresentavam o texto de certa maneira; outros de maneira diferente’ (citação retirada de “São Jerônimo,” V, 445; Dunlap, Sôd, the Son of Man, pg. 46).

     Em face dessas informações, Blavatsky conclui: “Jerônimo sabia que aquele era o Evangelho original e, sem embargo, cada vez mais se obstinou na perseguição aos ‘hereges.’ Por que? Porque admiti-lo significaria uma sentença de morte contra o dogmatismo da Igreja. É sabido que o Evangelho Segundo os Hebreus foi o único reconhecido durante os quatro primeiros séculos pelos cristãos judeus, pelos nazarenos e pelos ebionitas. E nenhum desses proclamou a divindade de Cristo.”

[2] Vide, por exemplo, Boris Mouravieff, Gnosis, Study and Commentaries on the Esoteric Tradition of Earstern Orthodoxy (Newbury, MA: Praxis Institute Press, 1990) 3 vol., e Robin Amis, A Different Christianity (Albany: State University of New York Press, 1995).

 

 

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