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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco III. A META: O REINO DOS CÉUS 4. UMA VISÃO ESOTÉRICA DO Reino nOS ENSINAMENTOS de JesusEm linguagem corrente, a expressão “Reino” transmite a idéia de uma área de domínio dentro da qual o reino é delimitado e também da extensão de poder que seu governante, o Rei, exerce. Alguns autores[1] sugerem que o termo grego original, basileia, transmite mais o conceito de domínio. Assim, quando Jesus falava do ‘Reino’, estava se referindo às condições ou situações em que o domínio de Deus imperava. Essa interpretação é especialmente importante para entendermos a mensagem de Jesus. Ainda que a expressão “Domínio de Deus” seja mais apropriada para transmitir o conceito original da expressão grega, decidimos manter a expressão “Reino de Deus” nesta obra em virtude de seu uso corrente em nossa tradição. Verificamos, portanto, que as conotações do mundo terreno acabam colorindo as imagens que são apresentadas sobre o Reino dos Céus. A verdade é que o mundo espiritual é totalmente diferente do mundo terreno, não estando sujeito às nossas limitações. O Reino de Deus não tem fronteiras nem limites, pois inclui todo o universo com todos os seus planos de manifestação, além do imanifesto que está totalmente além da nossa compreensão. Se o Reino não pode ser limitado no espaço, também não pode ser limitado no tempo. As esperanças de um Reino futuro, na Terra, com o retorno do Cristo, ou no outro mundo, após a morte, fizeram com que milhões de cristãos ao longo dos séculos voltassem sua atenção para a direção errada. Quando Jesus anunciou que o Reino dos Céus está próximo (Mt 3:2), ele não estava se referindo necessariamente a uma proximidade temporal nem, tampouco, fazendo uma proclamação apocalíptica. O entendimento errôneo de suas palavras levou grande número de devotos a esperar por um iminente retorno do Cristo, a vaticinada parousia, para estabelecer um reino de Deus na terra.[2] Como, com o passar do tempo, esse retorno material de Jesus não ocorria, os teólogos passaram a interpretar as palavras bíblicas como o anúncio do fim dos tempos, quando deverá supostamente ocorrer o temido juízo final. A simples verdade é que Jesus procurou nos alertar que o Reino estava, e ainda está, muito próximo de todos nós, pois pode ser encontrado em nossos corações aqui e agora. Por isso disse que o Reino de Deus está no meio de vós (Lc 17:20-21) e “o Reino do Pai está espalhado pela terra e os homens não o vêem” (To 113). Não percebemos o Reino porque procuramos por ele fora de nós, enquanto ele só pode ser encontrado em nosso próprio coração. Como o homem pode perceber o Reino? O Salvador, seguindo seu método de instrução característico, dá-nos os ingredientes para o entendimento e não o prato feito. Ao dizer que “meu Reino não é deste mundo” (Jo 18:36), Jesus estava indicando que o Reino, sendo um conceito espiritual, só pode ser percebido num sentido espiritual. Para alcançar o Reino, o homem não precisa morrer e tornar-se espírito, como muitos acreditam. O Reino pode e deve ser alcançado aqui e agora, com a elevação da consciência de nosso plano material para o plano espiritual. É por isso que Paulo disse que ‘o Reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça, paz e alegria no Espírito Santo’ (Rm 14:17). Os místicos que vislumbram ou até mesmo penetram no Reino descrevem suas experiências como de imensa paz e harmonia, bem-aventurança indescritível, amor incondicional e total, compreensão da realidade sobre o nosso mundo e de outras dimensões, a certeza da imortalidade e a percepção de que tudo e todos fazem parte de um grande Todo, que é Deus. As experiências místicas são de diferentes tipos e ocorrem em diferentes níveis, confirmando as palavras de Jesus de que a casa de meu Pai tem muitas moradas. É por isso que Jesus também se refere ao Reino dos Céus, no plural, indicando a diversidade de experiências que nos aguardam quando alcançarmos o estado de consciência do Reino. Como o Reino de Deus não é deste mundo, logicamente não pode ser percebido por nossos sentidos terrenos. Mas sendo um Reino espiritual ele está ao alcance de todos aqueles que desenvolveram os sentidos espirituais. Esses sentidos não podem ser definidos, precisamente pelo fato de serem espirituais. No entanto, podem ser referidos de forma simbólica, oferecendo imagens que possibilitam ao buscador uma percepção intuitiva de seu significado. Os sentidos espirituais têm um paralelo com os sentidos físicos. Geralmente o primeiro sentido espiritual desenvolvido corresponde ao olfato. Deus e o mundo espiritual, o Reino de Deus, são percebidos como um perfume inefável. No mundo terreno os odores têm o efeito de nos atrair ou repelir. Quanto mais deliciosa a fragrância mais somos atraídos por ela. Como no mundo espiritual o foco máximo de atração é a presença do Pai celestial, o interesse crescente do devoto pelas coisas espirituais evoca a imagem de um perfume extraordinário e irresistível. O sentido espiritual do olfato manifesta-se como uma atração pela introspeção, oração e meditação, em que o indivíduo busca a solidão e o silêncio para encontrar a Deus. No curso natural do desabrochar interior, outros sentidos espirituais vão desabrochando. Em muitos casos, a audição e a visão espirituais desenvolvem-se a seguir. Porém, as percepções mais profundas do Reino dos Céus só ocorrem com o desenvolvimento dos correspondentes tato e paladar espirituais. O estágio intermediário do desenvolvimento da audição e da visão espirituais representa uma grande conquista, mas oferece grandes perigos. O devoto passa a ouvir sons diáfanos, vozes angélicas e até mesmo instruções de natureza espiritual. Com o tempo passará a perceber, também, imagens de outros planos. Inicialmente são luzes e vultos indistintos, mais tarde, cenas e seres diversos. Essas conquistas naturalmente trazem grande satisfação ao devoto, aumentando sua fé e determinação de seguir o Caminho. Porém, tudo na vida tem seu preço. O preço dessa conquista são duas armadilhas perigosas: (a) a possibilidade do desvirtuamento de imagens e mensagens obtidas no plano astral,[3] que podem levar o devoto a confundir certas entidades astrais, cascões de pessoas desencarnadas ou formas-pensamentos de nossos condicionamentos anteriores, com anjos ou mensageiros do alto; e (b) a inflação do ego, com o desenvolvimento do orgulho espiritual, a desdita e a perdição de muitos discípulos avançados. Talvez como proteção contra os perigos do desenvolvimento prematuro da audição e da visão espirituais, a providência divina faz com que muitos devotos passem da atração irresistível pelo mundo divino, devido ao perfume espiritual, para o desenvolvimento do tato espiritual. Em alguns casos, só com amadurecimento conferido pela conquista do tato e do sabor espirituais que, no devoto, desabrocha a audição e a visão espirituais. Mas em que consiste o tato espiritual? Quando o devoto passa a dedicar-se de todo coração à busca de Deus, procurando de todas as formas acatar a vontade do divino Pai, chega um determinado momento nesse relacionamento em que ele passa a sentir a presença de Deus em suas orações ou meditações, até que, finalmente, essa Presença concede uma graça especial que é sentida pelo devoto como um abraço inefável. Essa experiência é referida como o sentido do tato espiritual. Nas palavras de um monge católico que parece ter passado por ela: “O toque divino pode ser sentido como se Deus tivesse descido do alto e nos envolvido num abraço, ou nos abraçado a partir de dentro e colocado um grande beijo no meio de nosso espírito. Nossa própria identidade se esvai e, por um instante, Deus é tudo em tudo.”[4] Essa, no entanto, não é a mais alta percepção do Reino. Uma experiência ainda mais profunda pode ocorrer com o que chamaríamos de sentido do paladar espiritual. Tendo recebido a imensa graça de ser abraçado por Deus, o próximo passo é unir-se a Ele, fundindo-se no Supremo Bem. Essa experiência confere uma bem-aventurança inefável, que os místicos de todos os tempos tentam descrever com pouco sucesso. Esse indescritível sabor espiritual ocorre de duas formas, uma temporária e outra permanente. A primeira seria equivalente à Eucaristia, em que o devoto absorve o corpo espiritual do Cristo e, com isso, sente-se unido à Presença divina por algum tempo. A segunda seria equivalente à Câmara Nupcial mencionada no Evangelho de Felipe, em que ocorre o casamento indissolúvel da alma com o Supremo Noivo, o Cristo interior. A partir de então, o místico sentirá constantemente a presença divina, quer esteja em meditação ou envolvido em assuntos do mundo terreno. Se o Reino só pode ser percebido com os sentidos espirituais, o objetivo prioritário de todo devoto deveria ser o desenvolvimento desses sentidos. Felizmente a tradição esotérica acumulou considerável experiência sobre esse assunto, que procuramos apresentar de forma sistemática nas três últimas seções deste livro. Jesus provavelmente estava se referindo aos diferentes níveis de experiência do Reino quando nos ensinou a sublime oração em que invocamos o “Pai Nosso” para que “venha a nós o vosso Reino assim na terra como nos céus.” O místico geralmente vislumbra e penetra no Reino quando no estado de consciência alterado que poderíamos chamar de “céu”.[5] Esse é o estado contemplativo que será examinado mais adiante, em que o devoto, ao silenciar inteiramente a mente, consegue perceber as vibrações dos planos espirituais que se encontram acima da mente concreta.[6] Porém, só nos estágios mais avançados é que o místico consegue entrar no Reino estando na terra. Quando entra no derradeiro estágio místico, referido como a via unitiva, em que percebe ser uno com Deus, cada momento de sua vida, não importa o que esteja fazendo, será como viver sempre no céu. Esse estágio é conhecido dos místicos como a prática da presença de Deus. Deve ficar claro, porém, que o aspirante não precisa esperar pelo estágio final do caminho espiritual, a via unitiva, para começar a ter alguma experiência de como é possível viver no céu aqui na terra. Assim como os vislumbres do Reino se desenvolvem lentamente com a experiência contemplativa, da mesma forma, os efeitos do aprofundamento meditativo se farão sentir gradativamente na vida cotidiana. Um crescente sentimento de paz e harmonia passará a envolver o buscador. Um suave contentamento com a vida, mesmo em face de vicissitudes, demonstrará a profunda confiança que o devoto sente para com a justiça e o amor divinos. Seu entendimento intuitivo do Plano de Deus[7] fará com que o espírito de dever seja desenvolvido cada vez mais. Assim, passará a executar suas tarefas na vida familiar, social e profissional com amor e dedicação, procurando fazer tudo da melhor maneira possível, pois sabe que todo ato seu é uma pequenina contribuição para a economia do universo, para a expressão do bom, do belo e do justo na Terra. O principiante que busca orientação sobre o Reino na Bíblia precisará de muita paciência, estudo e meditação para alcançar o entendimento desejado, porque a linguagem usada por Jesus em suas instruções e referências sobre o Reino pode ser frustrante, não só para os principiantes, mas também, para muitos teólogos como vimos na seção anterior. A linguagem das parábolas, carregada de símbolos e imagens, tinha como objetivo, não só velar os ensinamentos internos, mas, ainda mais importante, preparar a humanidade para a nova etapa do processo evolutivo que estava se iniciando. Na era anterior, que estava terminando aproximadamente na época em que Jesus ministrava na Palestina, o grande objetivo para a humanidade rude e primitiva de então era o controle das paixões e o aprendizado da vivência harmônica em grupos heterogêneos. Assim, foi necessária a instituição de regras de conduta e padrões morais rígidos para uma população ainda em sua infância espiritual. Essas regras eram as leis mosaicas, cujos 613 preceitos regiam a conduta do homem em quase todas as situações de sua vida. O objetivo da instrução religiosa poderia, então, ser resumido como sendo “obediência à lei”. Com o advento do ministério de Jesus, coincidente com o início da Era de Peixes, uma nova meta parecia estar sendo indicada para o progresso da humanidade. Não bastava mais ser obediente à lei, ser um homem justo, como se dizia na época, para progredir espiritualmente. A grande meta passou a ser, então, o desenvolvimento da razão e do discernimento, com vistas a produzir homens mais maduros. A humanidade devia aprender a pensar por sua própria conta e usar seu livre arbítrio para escolher entre diferentes alternativas o que seria mais apropriado para si. Isso não quer dizer que Jesus não pregasse o controle da natureza inferior. Muito pelo contrário, o Mestre, por seu exemplo e seus ensinamentos, deixou claro que a disciplina é um requisito essencial para a vida espiritual. Porém, essa disciplina não devia mais ser imposta de fora para dentro, por meio de um código moral herdado do passado, devendo ser obedecido compulsoriamente. A disciplina devia refletir o entendimento do indivíduo de que a obediência voluntária ao mais alto código de ética possível era o primeiro passo no Caminho. Se estudarmos atentamente a linguagem de Jesus em suas parábolas e assertivas, conhecidas como logia, veremos que o Mestre procurava sistematicamente induzir seus ouvintes a pensar e tirar suas próprias conclusões. E mais, de forma também sistemática, confrontava o público com situações onde demonstrava que agir estritamente de acordo com os preceitos da tradição não era necessariamente a opção correta, como veremos a seguir. Em termos atuais, Jesus seria considerado um revolucionário, pois subverteu a lei (mosaica) e a sabedoria convencional, confrontou as autoridades (religiosas) e promoveu uma verdadeira revolução ética que afetou pela raiz o comportamento do povo. Seu trágico fim nas mãos das autoridades constituídas não é nada surpreendente, tendo em vista seu ministério revolucionário. Podemos imaginar que o mesmo teria acontecido se ele tivesse nascido uns quinze séculos depois, na Europa, durante a inquisição. O leitor atento poderia contrapor que o objetivo de Jesus de desenvolver a capacidade de raciocínio e de discernimento de seus seguidores teria como corolário o desenvolvimento do ego. Sem dúvida, um intelecto aguçado e crítico tende a produzir uma personalidade forte, o que favorece o aparecimento do orgulho e do egocentrismo. Jesus, porém, conhecendo a natureza humana, sabia que uma personalidade forte, apesar de seus perigos, é necessária para que o indivíduo possa passar para o próximo estágio, o da entrega voluntária ao Eu Superior, ao Cristo interno. Esse estágio parece ser a meta para a humanidade, na Era de Aquário, o desenvolvimento da intuição a partir de uma mente desenvolvida e crítica. Por essas razões, em vez de procurar descrever o Reino, Jesus falava a seu respeito em parábolas, uma linguagem toda especial para esse propósito. Seus ensinamentos sobre o Reino não visavam primordialmente transmitir informações de natureza descritiva, que permitiriam formar, quando agregadas, uma imagem pictórica ou conceitual do Reino. Como o Reino é um estado de consciência, as parábolas de Jesus tinham o propósito de induzir seus ouvintes ao estado de consciência em que Deus impera. Nesse sentido, as parábolas se assemelham aos koans da tradição zen budista, em que proposições aparentemente ilógicas servem como trampolim para um salto de consciência, do plano mental concreto para o plano intuitivo.[8] Nas parábolas sobre o Reino dos Céus, percebe-se que Jesus falava em sentido figurado, usando uma simbologia que procurava transmitir idéias do mundo espiritual, por meio de imagens comuns ao povo daquele tempo, incluindo, principalmente, os temas centrais da vida rural e religiosa. Porém, as parábolas só produziam seus frutos de despertar espiritual quando os ouvintes remoíam em seu íntimo as imagens apresentadas, procurando perceber o sentido mais profundo do que estava sendo aludido alegoricamente. Assim, se procurarmos analisar as alegorias e os símbolos apresentados por Jesus, veremos que, aos poucos, o Reino, ou seja, o estado de consciência em que existe uma total harmonia com a vontade de Deus, passa a ser uma realidade em nossa mente e, mais ainda, em nosso coração. O comportamento ético sugerido por Jesus em suas parábolas e aforismos, tão radical quando comparado à moralidade tradicional, deve ser entendido como a conduta de indivíduos que aceitam morrer para o mundo a fim de viver de acordo com o verdadeiro amor a Deus e aos homens. Vejamos, portanto, a interpretação de algumas das principais parábolas sobre o Reino, buscando compor um quadro mais amplo do mundo dos céus que já existe potencialmente em cada um de nós, mas que não o realizamos ainda. A natureza espiritual do Reino foi indicada quando Jesus declarou que ‘Meu Reino não é deste mundo’ (Jo 18:36). O ‘mundo’ a que se refere Jesus é um estado de consciência alterado em que os pares de opostos são unificados, em que o egoísmo dá lugar ao altruísmo e o indivíduo percebe ser uno com todos os seres. Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: “A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!, pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós”. (Lc 17:20-21) Jesus disse: “Se aqueles que vos guiam dizem ‘Vejam, o Reino está no céu’, então, os pássaros do céu vos precederão; se eles vos dizem que está no mar, então, os peixes vos precederão. Pois bem, o Reino está em vosso interior, mas também está em vosso exterior. Quando vos conhecerdes, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, então estareis na pobreza e sereis a própria pobreza”. (To 3) Seus discípulos lhe disseram: “Quando virá o Reino?” (Jesus disse:) “Ele não virá porque estamos esperando por ele. Não será uma questão de dizer ‘eis que está aqui’ ou ‘eis que está lá’. Pois bem, o Reino do Pai está espalhado pela terra e os homens não o vêem.” (To 113) Quando se alcança o entendimento de que o Reino não é um lugar físico e que não será encontrado num futuro distante, mas sim que ele existe aqui e agora, dentro de nossos corações, os ensinamentos de Jesus ficam mais claros, revelando-se um conjunto de diretrizes que, se forem seguidas com verdadeira dedicação, levarão à libertação da alma aprisionada no caos, como é dito em Pistis Sophia.[9] O importante é o reconhecimento de que não precisamos esperar até o fim do mundo para entrar no Reino, como muitos ainda acreditam. O fato de que o Reino já existe latente dentro de cada um de nós, como um estado de espírito sublimado, foi magistralmente transmitido na parábola da semente de mostarda que germina e cresce quando ocorrem as condições propícias, tornando-se um arbusto frondoso que dá abrigo aos pássaros (àqueles que voam pelas alturas espirituais). Essa parábola está relacionada à passagem em Ez 17:22-23, que conta como o cedro do Líbano cresce e chega às alturas, produzindo frutos e sombra sob a qual habitam as aves do céu. ‘O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce é a maior das hortaliças e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos’ (Mt 13:31-32) (semelhante em Mc 4:30-32 e Lc 13:18-19). A mesma idéia da pequenina essência espiritual que cresce e transforma a natureza das coisas externas é transmitida pela parábola do fermento adicionado a três medidas de farinha. A farinha é a substância material da personalidade do homem com seus três corpos: físico, emocional e mental, que deve ser transformada, ou fermentada, para que a consciência possa crescer até atingir a plenitude do Cristo em nós. ‘O reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e pôs em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado’ (Mt 13:33) (semelhante em Lc 13:20-21 e To 96). Discernimento e renúncia são necessários no caminho que leva ao Reino. Esse aspecto é enfatizado em duas parábolas que apontam para o objetivo da vida do homem, a parábola do tesouro escondido e a parábola do comerciante de pérolas. Percebe-se nesses textos que o Reino é realmente um tesouro escondido no interior do ser humano, a ser descoberto po cada um de nós. O corpo onde esse tesouro está enterrado deve ser trabalhado e revolvido até encontrar-se a essência divina ali escondida, numa alusão ao eterno chamado para que o homem conheça a si mesmo. ‘O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai, vende tudo o que possui e compra aquele campo’ (Mt 13:44) Num estreito paralelo com a parábola anterior, a pérola na parábola a seguir simboliza o tesouro espiritual, a gnosis, pelo qual devemos sacrificar todos outros bens, como faz o comerciante perspicaz. Essa imagem da pérola como tesouro precioso, objetivo da busca de todos os homens, está descrita com riqueza de detalhes no Hino da Pérola (vide Anexo 2). ‘O Reino dos Céus é ainda semelhante a um negociante que anda em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra’ (Mt 13:45-46). Em algumas ocasiões, Jesus falava do “homem” como se estivesse se referindo ao Reino. Isso se explica pelo fato de que o “homem” simboliza o Homem Celestial, o arquétipo do Homem Perfeito (o Logos). A versão dessa parábola apresentada no Evangelho de Tomé parece mais completa do que na versão de Mateus (Mt 13:47-49). E ele disse: ‘O homem é semelhante a um pescador prudente que lança sua rede ao mar e retira-a cheia de peixinhos. O pescador prudente encontra no meio deles um peixe grande de excelente qualidade. Ele joga todos os peixinhos ao mar e escolhe o peixe grande sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça’ (To 8). Nesse caso, o Homem Celestial seria o pescador prudente, o pescador de almas, que constantemente lança sua rede ao mar da vida. Os peixinhos que ai encontra, ou seja, os homens comuns que ainda não cresceram em estatura espiritual, são lançados de volta ao mar da vida terrena, ao mundo do cotidiano, para seguirem seu curso normal de crescimento. Porém, quando o pescador encontra um peixe grande, a pessoa que alcançou a gnosis, guarda-o em seu reino, fora das águas turbulentas das paixões do mundo. Jesus disse: ‘O Reino do Pai assemelha-se ao homem que queria matar um gigante. Ele tirou a espada da bainha em sua casa e enfiou-a na parede para saber se sua mão poderia realizar a tarefa. Então, matou o gigante’ (To 98). O homem é o ser espiritual real que anseia matar aquele gigante que lhe impede de alcançar o Reino, a personalidade que escraviza a alma, mantendo-a prisioneira no mundo por eras sem fim. A espada desembainhada é a verdade, e a mão firme capaz de atravessar a parede de nossos condicionamentos materiais é a vontade. Jesus disse: ‘O Reino do (Pai) assemelha-se a (uma) mulher que carrega um vaso cheio de farinha. Enquanto estava andando pela estrada, ainda muito distante de casa, a alça do vaso se quebra e a farinha se espalha pelo caminho. Sem dar-se conta, ela não notou o acidente. Chegando à casa, pousou o vaso no chão e viu que estava vazio’ (To 97). A mulher é a alma. Essa é geralmente descrita como sendo do gênero feminino, em contrapartida ao Espírito, ou Cristo, seu noivo, que é masculino. O vaso é o receptáculo da personalidade, o corpo, que está cheio de farinha, ou seja, da substância material de nossa natureza inferior, os desejos e pensamentos que resultam em apegos que alimentam a personalidade. A alça do vaso é o egoísmo, que mantém o recipiente da personalidade ligado ao materialismo. Quando o egoísmo é rompido, a farinha (os apegos) que alimenta a personalidade vai se perdendo pela estrada da vida, ficando para trás no caminho que leva à Casa do Pai. Esse esvaziamento era descrito pelos primeiros místicos de nossa tradição como sendo a kenosis, um processo necessário para esvaziar inteiramente a taça, ou vaso, dos apegos, tornando-a pura e pronta para ser preenchida com a gnosis. Na parábola, a alça do egoísmo é rompida quando a alma está trilhando o caminho ainda distante da casa do Pai. Ao chegar em casa, depois da longa peregrinação terrena, a alma deposita o vaso aos pés do Pai, e verifica que ele está vazio das coisas do mundo e pode ser preenchido, então, com os tesouros do Reino. Esse conceito é adotado por Paulo em sua Epístola aos Coríntios, em que o corpo é comparado ao templo exterior, que é a morada de Deus. Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (1 Co 3:16) Se Deus habita em nosso interior, podemos inferir que o Reino é o estado de consciência de nossa verdadeira natureza divina. Paulo complementa esse conceito na Epístola aos Efésios (Ef 4:11-13), quando indica que os santos devem se aperfeiçoar para a ‘edificação do Corpo de Cristo’, até alcançarem ‘o estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo’. Esse corpo existe em todos nós em estado latente e será o veículo para alcançarmos o estado de graça suprema, representado pela entrada no Reino, quando ocorre a união do exterior com o interior, a união da alma com o Cristo interno. Uma parábola que causa certa perplexidade é a dos trabalhadores na vinha (Mt 20:1-16), contratados ao longo do dia com o mesmo salário. O dono da vinha é o Senhor dos céus e da terra. Ele convida todos os que estão disponíveis para trabalhar na vinha, ou seja, participar da execução do plano divino na terra, ao longo das eras. O salário simbólico fixado em um denário, a recompensa do tesouro do Reino, é o mesmo, quer os trabalhadores tenham iniciado sua labuta transformadora (o caminho da perfeição) na primeira hora, quer no meio, quer no final da longa peregrinação terrena. O Pai da grande família humana estende a sua misericórdia igualmente a todos que se engajam no trabalho, que é o aprimoramento de suas próprias almas. Outra imagem do Reino apresentada por Jesus é a parábola das bodas nupciais (Mt 22:1-14). Nessa parábola, o rei é Deus, e seu filho, para quem o banquete nupcial é preparado, é o Cristo, o noivo de todas as almas puras preparadas para a união com o divino. Os servos são os irmãos mais velhos da humanidade, os Mestres e Hierofantes que percorrem todas as regiões da Terra procurando os ‘convidados’ para o banquete de luz. Esses servos, apesar de toda sua dedicação, amor e sabedoria, nem sempre conseguem tocar o coração dos homens e demonstrar a importância e especial privilégio que é o convite para participar da festa divina. Os homens, em sua cegueira, não só recusam o convite como chegam ao ponto de maltratar e até matar esses servos fiéis do Senhor. Quando o Rei é informado de que seus servos haviam sido maltratados e assassinados por aqueles que foram convidando para as bodas, é dito que ele fica “irado”. Essa ira é um véu, pois Deus é sempre absolutamente sereno e imperturbável, e a raiva mencionada é a operação da lei de causa e efeito, que atua automaticamente como instrumento da justiça de Deus, trazendo conseqüências especialmente danosas para aqueles que maltratam os enviados divinos. Essas conseqüências são descritas na parábola como a destruição dos homicidas e o incêndio de sua cidade. Ora, como o banquete nupcial está sempre preparado, se os primeiros convidados não querem comparecer, outros são constantemente chamados por todos os caminhos e encruzilhadas da vida. Porém, ai daquele que comparecer sem a veste nupcial de absoluta pureza e renúncia do mundo. Ele será lançado na escuridão exterior de outra encarnação na Terra, o lugar onde causamos sofrimento a nós mesmos, onde há ‘choro e ranger de dentes’. A parábola termina com o lembrete de que muitos são chamados a entrar no Reino, porém, os requisitos para a admissão à cerimônia nupcial são tão estritos que poucos são escolhidos. Os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram: ‘Quem é o maior no Reino dos Céus?’ Ele chamou perto de si uma criança, colocou-a no meio deles e disse: ‘Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus’ (Mt 18:1-4). A questão da pureza como requisito para entrar no Reino é também expressa como a inocência das crianças. A instrução de Jesus é de que para entrar no Reino precisamos ser como as criancinhas. Esse era um termo técnico para os iniciados nos mistérios, usado no mediterrâneo e no oriente médio na época de Jesus. O Mestre, nessa alegoria, parece estar dizendo que só pode entrar no Reino quem for iniciado nos mistérios. As crianças também representam a inocência e liberdade de condicionamentos, que faz com que hajam sem malícia e com total naturalidade, as atitudes necessárias para que os homens possam perceber a essência divina por trás de toda manifestação. A parábola das dez virgens (Mt 25:1-13) presta-se a muitas interpretações. A mensagem central dessa parábola é a necessidade de atenção e preparação constante, ‘porque não sabemos nem o dia nem a hora.’ As noivas são todas as almas que anseiam unir-se ao noivo celestial. Algumas são insensatas e não trazem o combustível necessário para que suas lâmpadas possam brilhar. O azeite representa, por um lado, o óleo com que o iniciado é ungido e, por outro, a substância espiritual que arde no coração do discípulo. Quando a cerimônia de núpcias é iminente, deve ser efetuada uma avaliação da capacidade de brilho da luz interior (a lâmpada). Se o azeite for pouco, ou seja, se os méritos acumulados forem insuficientes, as noivas deverão sair a procura dos que ‘vendem o azeite,’ o que pode ser interpretado como a própria natureza interior do homem. Nesse caso, as noivas perderão aquela cerimônia de núpcias, mas poderão alcançar seu objetivo supremo mais tarde. O ponto crítico dessa parábola, bem como da anterior, é a participação no banquete de núpcias. As cinco noivas imprudentes também podem ser vistas como os cinco sentidos quando não estão suficientemente fortalecidos pela Graça do Espírito, ou seja, pelos sacramentos simbolizados pelo óleo usado na unção.[10] Esse é realmente o mistério, ou sacramento, que Jesus ensinou e ministrou a seus discípulos e que possibilitava a entrada no Reino. E dizia: ‘O reino de Deus é como um homem que lançou a semente na terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra por si mesma produz fruto: primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. Quando o fruto está no ponto, imediatamente se lhe lança a foice, porque a colheita chegou’ (Mc 4: 26-29). Por esta razão vos digo isto, para que possais conhecer a vós mesmos. Pois o Reino dos Céus é como uma espiga de cereal depois de germinar no campo. Ao amadurecer ela espalha seus frutos, preenchendo mais uma vez o campo com espigas para o outro ano. Vós também, apressai-vos a colher uma espiga de vida para vós, para que possais ser preenchidos com o Reino.[11] A semente é a centelha divina que vivifica e habita em cada homem. Para germinar, essa ‘semente’ deve ser enterrada em solo fértil, ou seja, no corpo de um homem com condições cármicas propícias. Se o ‘solo’ for fértil, se for arduamente cultivado, mantido livre das ervas daninhas dos vícios e negatividades e regularmente irrigado com a água da vida, que constitui a prática dos ensinamentos do Senhor, a semente dará frutos. O processo de crescimento da planta é longo e eivado de riscos. Porém, se os riscos forem superados, no seu devido tempo, a planta oferecerá uma colheita generosa. A parábola dos talentos (Mt 25:14-30 e Lc 19:11-27) é uma das favoritas dos pregadores porque oferece um nível de significado bastante óbvio: que todos devem desenvolver seus dons e retornar à economia da natureza resultados alcançados de acordo com o número de ‘talentos’ que receberam. Se o Senhor dá a um servo cinco talentos numa determinada vida, é porque este servo, ao longo das existências passadas, mostrou-se capaz de utilizar essa quantia mais alta. O Senhor é absolutamente justo e investe em cada um sempre de acordo com os méritos do indivíduo (a cada um de acordo com a sua capacidade). O que a muitos causa perplexidade na parábola, no entanto, é o tratamento dado ao servo que só recebeu um talento e não o utilizou, mas enterrou-o no chão, desperdiçando a oportunidade de gerar alguma riqueza adicional para o Senhor. Ora, o Senhor é a Vida Una, da qual todos participamos. Quando desperdiçamos a oportunidade que nos é dada numa vida, por mais singelas que possam ser as condições dessa existência, representando o equivalente simbólico de um só talento, estamos trabalhando contra nós mesmos, daí a aparente severidade do Senhor. Mas por que tirar do que tem pouco e dar ao que tem muito? Quem tem poucos méritos e virtudes, se não os usa para superar sua condição de vida, os vícios e as tentações se encarregarão de retirar o pouco que tem de bom naquela existência, endurecendo sua alma e arrastando-o para uma vida de iniqüidade. Verificamos na vida prática que tudo o que não é usado tende a se atrofiar perdendo sua utilidade; esse princípio é conhecido dos cientistas como a lei da entropia. Porém, ao discípulo que tem muitas virtudes e as utiliza bem, quando engajado firmemente no Caminho Espiritual, mais lhe será dado, pois com cada nova realização criamos para nós mesmos maiores oportunidades para contribuir para a Vida Una. Entrar no Reino dos Céus significa experimentar uma grande expansão de consciência, em que os mais profundos segredos são desvelados e de onde advém uma bem-aventurança paradisíaca, que os místicos têm dificuldade para descrever, como podemos deduzir das palavras do apóstolo Paulo falando de sua experiência: “Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos, foi arrebatado ao terceiro céu -- se em corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe! E sei que esse homem -- se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe! -- foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir” (2 Cor 12:2-4). O conhecimento de que o Reino dos Céus está em nosso interior,[12] aparentemente esquecido pela doutrina ortodoxa, estava bem presente entre os padres da Igreja primitiva, como indica a seguinte passagem de Simeão, o novo teólogo, pautada por sua rica linguagem devocional. “Aprendeste, meu amigo, que o Reino dos Céus está em teu interior, se o quiseres, e que todos os bens eternos estão em tuas mãos. Apressa-te, pois, em obtê-los e cuida de não os perder, imaginando possuí-los. Geme, prosterna-te como o cego de outrora (Lc 18:35), e dize, tu também: ‘Tem piedade de mim, Filho de Deus, abre-me os olhos da alma, a fim de que eu veja a luz do mundo que tu és, ó Deus, e que me torne, eu também, filho do dia divino. Envia o Consolador, ó clemente, a mim também, para me ensinar o que concerne a ti, o que é teu, ó Deus do universo. Permanece, como o disseste, em mim também, para que eu seja digno de permanecer em ti e conscientemente te possuir em mim. Digna-te, ó invisível, tomar forma em mim, para que, vendo a tua beleza inacessível, eu tenha a tua imagem, ó celeste, e esqueça as coisas visíveis. Dá-me a glória que te deu o Pai, ó misericordioso, a fim de que, semelhante a ti, como todos os teus servos, eu venha a ser deus segundo a graça e esteja contigo continuamente, agora e sempre, pelos séculos sem fim’.”[13] Para os místicos de todos os tempos o Reino sempre foi uma realidade interior.[14] Entrar no Reino é adquirir a consciência espiritual, a consciência da unidade. Essa consciência é indescritível, mas inclui, além do conhecimento supremo, a suprema bem-aventurança. Essa felicidade, sem paralelos com os prazeres deste mundo, é a razão pela qual a meta do Reino dos Céus sempre foi tida como o Bem Supremo. Em Imitação de Cristo é dito: “O Reino de Deus está dentro de vós, disse o Senhor. Deixa este mundo miserável e tua alma encontrará descanso. Aprende a desprezar as coisas exteriores, aplica-te às interiores e verás como vem a ti o reino de Deus. Porque o reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo, que não é concedido aos ímpios. Cristo virá a ti, trazendo-te suas consolações, se lhe preparares no interior, uma morada digna. Toda a sua glória e formosura está no interior da alma”.[15] É bom ter sempre em mente, porém, que o processo evolutivo é gradual e infinito, como se pode depreender da visão de Jacó, de que “uma escada se erguia sobre a terra e o seu topo atingia o céu, e anjos de Deus subiam e desciam por ela” (Gn 28:12). Essa colocação de que existe uma gradação infinita entre o Céu e a terra, simbolizada pelos degraus da escada de Jacó, é também retratada num livro que é um verdadeiro tesouro de sabedoria conhecido como Luz no Caminho, onde encontramos a afirmação: “Estarás no seio da Luz, mas nunca tocarás a Chama.”[16] Por isso, nossa consciência da unidade, ou da natureza divina, será sempre limitada pelo nosso estágio evolutivo e não pela natureza última da Divindade, pois sabemos que o Pai Supremo é inefável e que só o Filho o conhece, ou seja, que somente quando alcançamos a consciência crística podemos conhecer o Pai. Como o Reino dos Céus é a percepção e a manifestação gradual da natureza divina em nós, podemos acelerar nossa jornada rumo ao Reino. Primeiramente, procurando entender essa natureza divina e, a seguir, sintonizando-nos progressivamente com ela, até que possamos finalmente expressá-la em sua plenitude. Inicialmente, esse será um trabalho de fora para dentro, porém, quando começarmos a entrar em sintonia, ainda que momentaneamente, com a luz interior, o Cristo, os efeitos indeléveis dessa união começarão a agir em nós, de dentro para fora, acelerando o processo. Verificamos, destarte, que a natureza divina é o começo, o meio e o fim de nossa busca. Quanto mais nos sintonizarmos com essa natureza, que é a essência da paz, do amor e da sabedoria, mais próximos estaremos do Reino. A natureza divina é o princípio, porque somos parte dela. Nossa origem é divina, pois, como diz a Bíblia, fomos criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26). Ela é o meio, porque oferece os instrumentos (examinados na seção VI deste livro) para a nossa entrada no Reino. E, obviamente, é o fim, porque este é o nosso objetivo final: a plena manifestação do divino na Terra. Como a natureza divina é um todo indivisível, qualquer que seja o ângulo que venhamos a enfocá-la ou percebê-la proporcionará um bom começo para nossos esforços, pois levar-nos-á, finalmente, ao entendimento de que todos os aspectos do divino constituem uma única coisa, ainda que nós, com nossa visão separatista do mundo material, necessária para fins cognitivos, descrevamos os diferentes aspectos e características dessa natureza como coisas separadas. [1] Helmut Koester, History and Literature of Early Christianity (N.Y.: Walter de Gruyter, 1987), pg. 79. [2] Não foram somente os teólogos que se deixaram envolver pela esperança de um retorno corpóreo do Cristo. Vários sensitivos, ao longo dos tempos, interpretaram suas percepções interiores como indicativas de um retorno do Cristo ao nosso mundo terreno. Dentre esses destaca-se Alice A. Bailey, que permitiu que seu condicionamento religioso como pregadora anglicana durante a primeira parte de sua vida viesse a colorir seu trabalho posterior como sensitiva, a ponto de fazer com que a maior parte de seu trabalho esotérico girasse em torno de um suposto retorno iminente do Cristo, vaticinado por ela desde o início da década de 1920. Vide, por exemplo, The Reappearance of the Christ (N.Y.: Lucis Publishing Co., 1948). [3] Para maiores informações vide: Arthur Powell, O Plano Astral (SP: Pensamento). [4] Thomas Keating, Crisis of Faith, Crisis of Love (N.Y.: Continuum, 1998), pg. 68 [5] “No misticismo, o céu é experimentado como uma condição de união com a natureza divina. É uma atmosfera espiritual que pode ser conhecida pela alma que se dedica à verdade. O místico cristão torna-se consciente do céu como um estado de perfeita fé e paz internas, um bem estar infinito e segurança mais real do que qualquer ambiente terreno.” The Mystical Christ, op.cit., pg. 143. [6] Aquele nível da mente que se ocupa de pensamentos expressos por meio de palavras e conceitos de nosso mundo material. Acima da mente concreta está a mente abstrata, também chamada de superior, que se ocupa de percepções abstratas como a matemática e a filosofia. [7] Maiores informações sobre o Plano de Deus são apresentadas mais adiante na seção O objetivo do processo da manifestação no capítulo 12: AS REGRAS DO CAMINHO. [8] Vide glossário. [9] Vide Anexo 3. [10] Vide, A Different Christianity, op.cit., pg. 94-96. [11] Vide Apócrifo de Tiago, em Nag Hammadi Library, op.cit., pg 35 [12] Lc 17:21 [13] Simeão, o novo teólogo, Oração Mística (S.P.: Edições Paulinas, 1985), pg. 64-65. [14] Leon Tolstoy, o escritor russo do século passado escreveu suas experiências místicas num livro entitulado: “O Reino de Deus está dentro de ti”, tendo como sub-título: “O cristianismo não como uma religião mística mas como uma experiência de vida.” L. Tolstoy, The Kingdom of God is Within You (University of Nebraska Press, 1984). [15] Imitação de Cristo, op.cit., pg. 107..
[16]
Mabel Collins, Luz no Caminho (S.P., Pensamento), pg. 18.
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