Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS 

16. VONTADE 

A Vontade é um dos três aspectos básicos da Trindade divina. É a energia fundamental pela qual Deus criou todo o Universo através da Palavra e que cada ser humano usa para criar o seu universo particular. Da mesma forma como o amor e a sabedoria, os outros dois atributos básicos do Divino, a vontade vai se expressando progressivamente à medida que as pessoas vão evoluindo. A vontade também pode ser cultivada, como o amor e a sabedoria, tornando-se um instrumento cada vez mais eficaz para o crescimento da alma.  

É uma força tão poderosa, capaz de vencer todas as barreiras, que na Bíblia é dito: “A Lei e os Profetas até João! Daí em diante, é anunciada a Boa Nova do Reino de Deus, e todos se esforçam para entrar nele, com violência” (Lc 16:16). A violência referida certamente não é física, pois o material não pode penetrar e subjugar o espiritual. O que está sendo transmitido é a idéia de que o poder da vontade consegue destruir as barreiras existentes entre o visível e o invisível, permitindo ao buscador rasgar o véu que o mantém preso na escuridão.[1] 

Muitas pessoas não se dão conta de que o desejo é a expressão distorcida da Vontade Divina. O desejo é a energia da vontade direcionada para a gratificação dos sentidos e as demandas autocentradas da personalidade. É com a expressão dos desejos materiais e egoístas que a maior parte dos homens constrói a sua vida. Não é de estranhar que esses desejos, pela operação da lei de causa e efeito, sejam a fonte de tanto sofrimento no mundo, pois a força do desejo pode se tornar avassaladora. 

Mas como atua o poder criador da vontade? A vontade é a capacidade criadora de Deus. Como somos criados à imagem e semelhança de Deus, temos a mesma capacidade criadora da Divindade. A diferença é, em primeiro lugar, que não nos damos conta dessa verdade e, em segundo, que geralmente usamos nossa capacidade criadora de forma inconsciente e destrutiva, como indicam a desarmonia e infelicidade que nos perseguem. O pensamento é o instrumento básico do processo criador, independente dele ser consciente ou inconsciente. No homem comum, a maior parte dos pensamentos são de natureza inconsciente. Os pensamentos conscientes são geralmente sem força, pois passam de forma fugidia pela mente. Assim, a força do poder criador é dispersada em milhares de breves pensamentos sem muita definição e intensidade. O discípulo que conhece o processo criador da vida procura se torna mais consciente de seus pensamentos para assim focalizar seu poder mental, tornando dessa forma seu ambiente interior cada vez mais harmônico e construtivo. Essa harmonia interior se fará sentir em nosso ambiente exterior que é sempre um reflexo de nossos pensamentos e sentimentos. 

A vontade manifesta-se no homem de diferentes maneiras: como determinação, concentração, unidirecionamento e assentimento. Força de vontade talvez seja a expressão mais usada para definir a determinação de um indivíduo para continuar trabalhando por um ideal previamente escolhido, apesar das dificuldades que invariavelmente irão aparecer. No Caminho da Perfeição, a determinação é imprescindível, em virtude dos obstáculos diários de toda ordem que afligem o buscador. Esses obstáculos só podem ser enfrentados e superados com determinação férrea, pois o poder aprisionador de nossas tendências materiais naturalmente provocará inúmeros fracassos, que tendem a desanimar os mais débeis. Como é dito em Imitação de Cristo, “Consoante o nosso propósito será o nosso progresso; de muita diligência precisa quem deseja sério aproveitamento.”[2] 

Toda tentativa de disciplinar a personalidade esbarra numa muralha de objeções que só pode ser superada pela vontade. A personalidade usa inúmeras artimanhas para evitar o enfrentamento da verdade que ela procura esconder. Uma razão para isso é que o reconhecimento de nossas imperfeições é doloroso. Outra razão é que nossa natureza inferior é preguiçosa e está sempre procurando evitar qualquer esforço que não seja diretamente associado à gratificação de seus próprios desejos. Uma forma de superar essas barreiras da personalidade é desenvolver o hábito da recordação de nossa verdadeira natureza e propósito na vida.[3] 

A determinação deve ser mantida ao longo do percurso porque para cada dificuldade superada uma nova aparecerá, provavelmente de natureza mais sutil e, portanto, requerendo mais esforço, habilidade e dedicação de nossa parte. Deus, em sua infinita sabedoria fez com que a força de vontade atuasse de forma mais débil nas almas jovens, justamente para protegê-las das conseqüências de seus desejos insensatos. Feliz o homem que aumenta sua determinação na mesma medida em que desenvolve o discernimento, pois isso permite que sua crescente capacidade realizadora possa ser direcionada para o alvo certo. Uma das razões para a pouca força de vontade do homem comum é a dispersão dessa vontade na tentativa de satisfazer o grande número de desejos fugidios que ele expressa em sua vida cotidiana. 

Como o objetivo da vida espiritual é a união com Deus, o buscador precisa direcionar todas suas energias para o alto. Para que isso ocorra, sua natureza inferior deve estar irmanada com o propósito superior, porque na vontade espiritual não há a coerção de um eu teimoso, mas sim a harmonização do todo. Nas palavras de um místico oriental: “A verdadeira vontade nunca se tensiona, ela nasce no silêncio. Ela inclui tanto o pensamento como o sentimento. Ela é imovível por qualquer coisa externa a si própria. Quando eu não tenho vontade pessoal, posso atuar com a vontade mais forte do mundo. Quando sei que a Vontade una está em tudo, todo conflito é abolido.”[4] 

No indivíduo totalmente comprometido com a vida espiritual o unidirecionamento de sua vida para Deus ocorre naturalmente, e ele pode então afirmar como o salmista: “o zelo por tua casa me devora” (Sl 69:10).

Todo buscador sabe que o ritmo de progresso na Senda não é constante. Muitas vezes a aparente falta de progresso na vida espiritual pode provocar desânimo e frustração naqueles que não estão fortalecidos pela fé nas verdades eternas. Se um obstáculo parece irremovível ou a meditação permanece árida por semanas, meses ou mesmo anos, esta pode ser uma indicação de que precisamos direcionar ainda mais energia para vencer os obstáculos. Quando isso é feito e temos a consciência de que fizemos absolutamente tudo o que estava ao nosso alcance, devemos então exercitar a paciência dando tempo para que os resultados apareçam, pois os fatores causais, que provavelmente já foram acionados nos planos sutis, levam tempo para manifestar-se nos planos mais densos. 

É importante, nesse particular, o alinhamento de nossa vontade com a Vontade de Deus. Enquanto nossa vida estiver dirigida para a satisfação dos desejos ou vontades da personalidade, o homem estará amarrado ao mundo. Daí a importância das palavras do apóstolo Paulo: “Não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor” (Ef 5:17); e também: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12:2). A vontade divina deve ser obedecida até mesmo nos momentos de angústia, como Jesus demonstrou pouco antes de sua morte violenta, quando no Monte das Oliveiras, sabendo o que lhe esperava, disse: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” (Lc 22:42).

Todo aquele que ama procura fazer a vontade da pessoa amada. Portanto, devemos procurar saber qual a vontade de Deus para então atendê-la. Considerando que Deus é o Supremo Amor, que sempre age com a Divina Bondade, Ele só pode desejar que nós sejamos realmente felizes. E o que significa sermos realmente felizes? Significa libertarmo-nos de todos os grilhões que nos mantêm prisioneiros e infelizes nas trevas da ignorância. Portanto, a Vontade de Deus não é algo inescrutável, não é nenhum mistério além de nosso alcance, mas sim o nosso destino último, o retorno à Casa do Pai, onde viveremos em eterna bem-aventurança. Considerando o lado prático de nossa vida cotidiana, devemos procurar alinhar a nossa vontade com a Vontade de Deus seguindo os ditames do coração, ou seja, ouvindo a voz da alma e vivendo de acordo com o mais elevado código de ética que nossa consciência ditar. O estudo e a meditação serão fontes constantes de instrução sobre a Vontade de Deus.[5] 

Algumas pessoas pensam que fazer a vontade de Deus é algo difícil, que demanda imensos sacrifícios de nossa parte. Ao contrário, é alegre e fácil seguir à divina Vontade, pois como nos disse Jesus: “O meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:30). Imaginamos, em nossa ignorância aprisionadora, que as mudanças necessárias para seguir o chamado do Alto e realizar a vontade de Deus são extremamente penosas. Na verdade, o grande peso, a causa real de nosso sofrimento, é a falsidade de nossa vida, que nos aliena da realidade, são as nossas negatividades que nos tornam destrutivos. Quando conseguimos, depois de algum esforço e certa dor inicial, deixar para trás as falsidades e as negatividades, verificamos que nos sentimos mais leves, livres e contentes, confirmando por experiência própria a promessa de Jesus de que o fardo da verdade é mais leve.


[1] Mc 15:38 e Lc 23:45.

[2] Imitação de Cristo, op.cit., pg. 65.

[3] Vide I.K. Taimni, Autocultura à Luz do Ocultismo (R.J.: Grupo Annie Besant), pg. 175.

[4] Sri Ram, Pensamentos para aspirantes ao caminho espiritual (Brasília: Ed. Teosófica, 1989), pg. 22.

[5] Vide The Mystical Christ, op.cit., pg. 146-47.

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